O calor sufocante de Lima se misturava com a tensão no ar. Era sexta-feira, 3 de janeiro de 2026, e o estádio Alejandro Villanueva fervilhava com a festa da torcida do Alianza Lima. O que deveria ser celebração se transformou em tragédia: um morto e 47 feridos, três deles menores de idade, marcaram mais um capítulo sombrio na história dos clássicos peruanos.

A violência explodiu durante a festa preparatória para o duelo contra o Universitario, o maior rival da capital peruana. O som das sirenes cortou a madrugada limeña, enquanto ambulâncias se direcionavam ao estádio íntimo-blanquiazul. Era apenas mais um episódio numa década marcada por incidentes graves no futebol peruano.

Uma década manchada de sangue

Os números são alarmantes. Desde 2015, pelo menos 12 pessoas morreram em incidentes relacionados ao futebol peruano, sendo oito delas durante clássicos entre Alianza Lima e Universitario. O episódio de janeiro passado se soma a uma lista que inclui o tumulto de março de 2023, quando cinco torcedores ficaram feridos após confronto entre barras bravas no centro de Lima.

Em agosto de 2019, duas mortes foram registradas após o clássico no Estádio Monumental. A rivalidade entre "íntimos" e "cremas" tem raízes profundas na sociedade limeña, dividindo famílias e bairros inteiros. O antropólogo Carlos Aramburú, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, classifica o fenômeno como "violência urbana canalizada através do futebol".

O caso mais emblemático ocorreu em dezembro de 2022, quando 18 pessoas ficaram feridas durante invasão de campo no Nacional. A polícia utilizou gás lacrimogêneo, causando pânico generalizado nas arquibancadas lotadas com 35 mil torcedores.

Medidas ineficazes contra a violência

As autoridades peruanas implementaram diversas estratégias nos últimos dez anos. O Ministério do Interior criou em 2020 a Comissão Nacional Contra a Violência nos Estádios, presidida pelo coronel Roberto Palomino. A medida previa aumento do efetivo policial e instalação de 150 câmeras de segurança nos principais estádios do país.

A Federação Peruana de Futebol (FPF) também reagiu. Desde 2021, clássicos entre Alianza e Universitario são disputados sem torcida visitante, decisão que reduziu confrontos diretos entre organizadas rivais. O presidente da FPF, Agustín Lozano, defendeu a medida como "necessária para preservar vidas".

"Não podemos permitir que o futebol continue sendo palco de tragédias. A vida humana vale mais que qualquer rivalidade", declarou Lozano após o incidente de janeiro.

Porém, a eficácia permanece questionável. O sistema de identificação de torcedores, implementado em 2023, ainda não cobre todos os estádios do país. Apenas Lima, Arequipa e Trujillo possuem o equipamento necessário para o controle biométrico de acesso.

O negócio por trás da violência

Investigações da Polícia Nacional revelam conexões entre algumas barras bravas e o tráfico de drogas. O delegado Miguel Fernández, responsável pela Divisão de Investigação de Delitos de Alta Complexidade, apontou em relatório de 2025 que pelo menos seis líderes de organizadas possuem vínculos com cartéis internacionais.

A comercialização de ingressos no mercado negro movimenta cerca de 2 milhões de soles anuais (aproximadamente R$ 1,5 milhão), segundo dados do Ministério Público. Essa economia paralela alimenta a estrutura das barras e financia armamentos utilizados nos confrontos.

O jornalista esportivo peruano Pedro García, que cobre o futebol local há 20 anos, observa mudanças no perfil da violência. "Antes eram punhos e pedras. Hoje encontramos armas brancas e até de fogo entre os detidos", relatou em entrevista ao jornal El Comercio.

Futuro incerto para os clássicos

A tragédia de janeiro forçou uma nova reavaliação das políticas de segurança. O Congresso peruano aprovou em fevereiro projeto que endurece penas para crimes em estádios, prevendo prisão de dois a oito anos para envolvidos em tumultos que resultem em morte.

O Alianza Lima anunciou investimento de 3 milhões de soles em modernização do sistema de segurança do Alejandro Villanueva. As obras incluem instalação de detectores de metal em todos os acessos e ampliação do circuito de câmeras para 80 equipamentos.

Especialistas em segurança pública defendem abordagem mais ampla. O sociólogo Martín Santos, da Universidad de Lima, sugere programas sociais direcionados aos jovens das periferias, principais alvos de recrutamento das organizadas violentas.

O próximo clássico entre Alianza Lima e Universitario está marcado para 15 de junho, no Estádio Nacional. A partida será disputada com portões fechados, medida que se tornou padrão após cada episódio de violência no futebol peruano.