Confesso: eu errei sobre Cabo Verde em 2024. Quando os Tubarões Azuis venceram Camarões por 1 a 0 nas Eliminatórias Africanas e começaram a se firmar como líderes do Grupo D, descartei aquilo como um acidente de percurso — uma zebra continental que logo seria corrigida pelo peso histórico dos adversários. Errei. Nesta segunda-feira, 15 de junho de 2026, às 13h de Brasília, o menor país em área territorial a disputar uma Copa do Mundo entra em campo no Estádio de Atlanta contra a Espanha, atual campeã europeia, com 30 jogos de invencibilidade e um vídeo motivacional que evoca Iniesta e Iker Casillas. Cabo Verde não é acidente. É consequência.

O arquipélago que superou Trinidad e Tobago nos livros de história

São aproximadamente 500 mil habitantes espalhados por dez ilhas no Atlântico, a menos de 600 quilômetros da costa senegalesa. Filiado à Fifa desde 1986 — o mesmo ano em que o Brasil de Zico e Sócrates caía nas quartas de final no México —, Cabo Verde levou quatro décadas para chegar ao maior palco do futebol mundial. A classificação para 2026 entrou para os livros ao superar a marca que pertencia a Trinidad e Tobago, país com território consideravelmente maior que participou da Copa de 2006, na Alemanha. A conquista da vaga foi construída de forma metódica: 23 pontos no Grupo D das Eliminatórias, deixando para trás Camarões e Angola, seleções com tradição continental incomparavelmente maior.

O arquipélago que superou Trinidad e Tobago nos livros de história Vozinha tem 4
O arquipélago que superou Trinidad e Tobago nos livros de história Vozinha tem 4

O crescimento não é de hoje. Em 2013, os cabo-verdianos chegaram às quartas de final da Copa Africana de Nações — feito que repetiram em 2023, dez anos depois, como se o calendário quisesse sublinhar a consistência de um projeto. O técnico Bubista, que comanda a seleção, moldou uma equipe que opera num esquema 4-2-3-1 com capacidade de transição rápida para um 4-3-3, apostando numa geração de jogadores nascidos ou formados na Europa. A vitória por 3 a 0 sobre a Sérvia nos amistosos preparatórios não foi um resultado qualquer: foi um argumento tático.

Vozinha, o goleiro de 40 anos com nome de lateral do Botafogo

Há algo de poético na história do homem que vai defender o gol de Cabo Verde diante da Espanha. Josimar José Évora Dias, o Vozinha, tem 40 anos e carrega no próprio nome uma homenagem a Josimar Higino Pereira — o lateral-direito revelado pelo Botafogo que marcou dois gols em seus dois primeiros jogos pela Seleção Brasileira na Copa de 1986, contra Irlanda do Norte e Polônia, antes de se tornar um dos personagens mais queridos daquele Mundial mexicano. O apelido Vozinha, conta-se, surgiu na infância: criado pelos avós, o goleiro recorria a eles quando conflitos com outras crianças nas ruas do arquipélago ficavam difíceis de resolver sozinho.

Vozinha, o goleiro de 40 anos com nome de lateral do Botafogo Vozinha tem 40 ano
Vozinha, o goleiro de 40 anos com nome de lateral do Botafogo Vozinha tem 40 ano

Aos 40 anos, Vozinha disputará seu 90º jogo pela seleção cabo-verdiana, tornando-se o segundo atleta com mais partidas pelo país — atrás apenas de Ryan Mendes, com 96 aparições. Está sem clube desde o encerramento do contrato com o CD Chaves, de Portugal, mas isso não diminui o que representa: uma carreira construída em Angola, Moldávia, Chipre, Eslováquia e Portugal, sempre como goleiro titular de equipes modestas que precisavam de alguém capaz de fazer o impossível parecer rotina. Atlanta será, provavelmente, o maior palco de sua vida.

A Espanha de 30 jogos invictos e a pergunta de De la Fuente

Do outro lado, a La Roja chega embalada por uma sequência de 30 partidas sem derrota — marca inédita para os espanhóis antes do início de um Mundial. A Real Federação Espanhola publicou um vídeo motivacional com imagens da Eurocopa e a frase que resume o estado de espírito do grupo: "Nossa dança inesquecível começa hoje. Vamos dançar juntos, Espanha." O técnico Luis de la Fuente, contudo, recusou a armadilha do excesso de confiança com uma pergunta que vale como declaração de princípios:

"O que significa ser favorito? Ter chances de ganhar a Copa do Mundo? Mas, honestamente e com base no que sabemos, somos realmente mais favoritos que a França, o Brasil ou a Argentina?"

A pergunta de De la Fuente não é retórica — é estratégia. A Espanha sabe que o peso do favoritismo já derrubou seleções melhores do que ela própria, e o técnico prefere construir o torneio jogo a jogo. Contra Cabo Verde, a tarefa parece simples no papel. Mas o futebol tem uma relação complicada com o que está escrito no papel.

O que mudou na Fifa antes do apito em Atlanta

  • A entidade liberou o uso do espanhol em todas as entrevistas oficiais do torneio, equiparando o idioma ao inglês com tradução simultânea garantida — decisão tomada após a polêmica envolvendo Vinícius Júnior e Achraf Hakimi no duelo entre Brasil e Marrocos, quando os dois foram impedidos de responder em espanhol na zona mista, gerando repercussão global e críticas de torcedores e jornalistas.

A medida, conforme apurado em matéria do SportNavo, vale imediatamente e para todos os jogos, independentemente das seleções em campo. Para o confronto desta segunda-feira, ela tem um significado simbólico adicional: Cabo Verde tem no espanhol um idioma familiar para boa parte de seus jogadores formados na Europa, e a Espanha, obviamente, não precisaria de tradução alguma.

Atlanta como palco de uma história que ainda não tem fim escrito

Há algo de cinematográfico no roteiro que o sorteio desenhou para o Grupo H. Cabo Verde, estreante absoluto, abre sua participação histórica contra uma das seleções mais bem construídas do futebol mundial. A organização tática dos Tubarões Azuis — comprovada nos amistosos e na campanha africana — pode incomodar a Espanha por um tempo. Vozinha, com seus 40 anos e 90 jogos de experiência internacional, tem capacidade de protagonizar momentos que nenhuma estatística de favoritismo consegue prever com antecedência.

A partida está marcada para as 13h de Brasília, no Estádio de Atlanta. Caso Cabo Verde consiga ao menos segurar o placar por um período razoável, o Grupo H — que ainda conta com outros adversários pela frente — pode se tornar mais aberto do que qualquer projeção inicial sugeria. É o mesmo cenário que a Costa Rica viveu em 2014, quando entrou na Copa como azarão do Grupo D ao lado de Uruguai, Itália e Inglaterra — e saiu dele invicta, nas quartas de final. Só que agora a aposta é de um país com metade do tamanho de qualquer cidade que já sediou um Mundial.