"É uma aberração o coitado daquele rapaz, o Ibañez, de lateral direito. Isso é uma aberração. Isso não é uma seleção, é uma aberração." A frase é do comentarista Osvaldo Pascoal, na ESPN, minutos depois do apito final de Brasil 1x1 Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, no último sábado, 13 de junho. Quem assistiu ao primeiro tempo da estreia brasileira na Copa do Mundo de 2026 dificilmente vai discordar do diagnóstico — mesmo quem preferisse uma formulação mais gentil.
A lesão de Wesley e a escolha que ninguém queria fazer
A escalação que Carlo Ancelotti apresentou contra Marrocos tinha uma ausência que pesou desde o aquecimento: Wesley, lateral-direito titular e um dos jogadores mais promissores da convocação, havia se machucado no amistoso preparatório contra o Egito. Com o camisa fora, o técnico italiano precisou tomar uma decisão que nenhum treinador quer tomar na estreia de uma Copa do Mundo — improvisar. A escolha recaiu sobre Ibañez, zagueiro do Al-Hilal que já defendeu o Fluminense, escalado na lateral direita. Danilo, do Flamengo, ficou no banco e só entrou no segundo tempo.
Ancelotti reconheceu a situação sem rodeios após o jogo: a comissão técnica tinha poucas opções diante da lesão de última hora. O que o técnico não disse — mas o jogo mostrou — é que a fragilidade no corredor direito foi explorada sistematicamente pelo Marrocos durante os 45 minutos iniciais, período em que o próprio treinador admitiu que a equipe "não jogou bem". A seleção brasileira entrou em campo sem conhecer o adversário com a profundidade que a situação exigia, e o lado direito foi o ponto de menor resistência durante boa parte da partida.

O que Ibañez fez e o que não conseguiu fazer contra Marrocos
Ibañez é um zagueiro sólido, com passagem relevante pela Roma antes de se transferir para a Arábia Saudita. Mas a lateral direita em uma Copa do Mundo exige atributos específicos que um zagueiro de ofício raramente possui em volume suficiente: sobreposição, cruzamento preciso, marcação em profundidade contra pontas velozes. O Marrocos é uma equipe que conhece seus próprios recursos — e soube atacar exatamente o espaço que Ibañez deixava quando tentava avançar. O resultado foi previsível para quem acompanhou a seleção marroquina nas eliminatórias africanas.
Pascoal foi além da crítica ao zagueiro e direcionou o mesmo nível de insatisfação para outros titulares. Casemiro, que foi substituído no intervalo por Fabinho, também entrou na lista:
"É uma aberração o Casemiro no meio-campo, o que ele fez ontem com a seleção brasileira. É uma aberração. É uma aberração não poder tirar o Raphinha. Não é possível tirar o Raphinha? Alguém vai ter a coragem de tirar o Raphinha?"
A escalação apresentada por Ancelotti foi a seguinte: Alisson; Ibañez, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Raphinha, Igor Thiago e Vini Jr. Nenhuma das 13 partidas anteriores do técnico à frente da seleção teve o mesmo time titular — e a de estreia na Copa não fugiu ao padrão. O único gol brasileiro saiu dos pés de Vini Jr., que terminou a partida como o jogador mais perigoso do Brasil apesar de toda a instabilidade à sua direita.
O que muda para o Brasil antes do jogo com o Haiti
O empate por 1x1 deixa o Brasil em situação administrável no grupo, mas com alertas que precisam ser respondidos antes da sexta-feira, quando a seleção enfrenta o Haiti. Ancelotti não confirmou nenhuma escalação para o próximo jogo — comportamento que, conforme registrado pelo SportNavo, é marca registrada de seu método de trabalho tanto no Real Madrid quanto desde que assumiu a CBF. No clube espanhol, chegou a variar entre o 4-3-3 e o 4-4-2 com duas linhas de quatro dependendo do nível do adversário, reforçando o meio diante de equipes tecnicamente mais qualificadas.
A ausência de Endrick foi outro tema que tomou as redes sociais após o empate. Ancelotti desconversou quando questionado sobre o atacante: "Não estou aqui para falar individualmente de um jogador, falo da equipe. A equipe no primeiro tempo não jogou bem, no segundo tempo foi melhor. Tivemos algumas oportunidades. Temos que acertar mais", disse o técnico. A resposta diz muito sobre o estilo de comunicação do italiano — e pouco sobre o que o torcedor realmente queria saber.
O retorno de Danilo à lateral direita parece o caminho mais óbvio para o jogo com o Haiti, mas Ancelotti raramente segue o caminho óbvio. Após o Haiti, o Brasil enfrenta a Escócia no dia 24 de junho, e a posição de lateral-direito titular continuará sendo um ponto de interrogação enquanto Wesley estiver fora da lista de opções. A Copa começou — e o quebra-cabeça na lateral direita ainda não tem solução definida.








