O meio-campo ainda não entrou em campo e já está em disputa. Quando Jude Bellingham e Luka Modric se posicionarem no AT&T Stadium, em Arlington, nesta quarta-feira (17), às 17h (Brasília), o que estará em jogo não será apenas a liderança do Grupo L da Copa do Mundo de 2026 — será a tese de cada treinador sobre como controlar uma partida de Copa do Mundo. Inglaterra de um lado, Croácia do outro, e um reencontro oito anos no aguardo desde a semifinal da Rússia.
O plano de Tuchel para o jogo mais difícil do grupo
Thomas Tuchel confirmou sua escalação sem surpresas aparentes, mas com uma lógica estrutural que merece leitura cuidadosa. A Inglaterra vai a campo com Jordan Pickford; Reece James, Ezri Konsa, John Stones e Nico O'Reilly; Elliott Anderson, Declan Rice, Jude Bellingham, Noni Madueke e Anthony Gordon; e Harry Kane como referência ofensiva. A ausência de Bukayo Saka no time titular — mantido como opção no banco ao lado de Ollie Watkins e Ivan Toney — sinaliza que Tuchel quer velocidade pelas beiradas sem abrir mão de cobertura defensiva no meio.
Declan Rice aparece como o pivô da estratégia inglesa de contenção. Sua função primária será cortar o oxigênio que alimenta Modric: fechar as linhas de passe curto entre os setores, obrigando o croata a recuar ou a operar em espaços mais congestionados. Bellingham, por sua vez, recebe a liberdade de aparecer pelo lado esquerdo e infiltrar — uma dinâmica que o Real Madrid já explorou com sucesso na temporada 2025/2026 da La Liga.
"O que os jogadores fizeram vai ficar para a história", disse Zlatko Dalic após a vitória croata sobre a Inglaterra na semifinal de 2018 — uma frase que os ingleses guardam como motivação há quase uma década.
Modric aos 40 anos e a arquitetura defensiva de Dalic
Do outro lado, Zlatko Dalic optou por uma linha de três zagueiros — Josip Sutalo, Luka Vuskovic e Josko Gvardiol — para proteger o setor mais vulnerável da Croácia e liberar as alas. Josip Stanisic e Ivan Perisic atuarão como alas-laterais, enquanto Luka Modric e Mario Pasalic formam o núcleo criativo do meio. Petar Sucic e Martin Baturina aparecem como meia-atacantes, com Petar Musa como centroavante titular no lugar de Ante Budimir, que ficou no banco.
Modric, que completou 40 anos em setembro de 2025, disputa sua quinta Copa do Mundo consecutiva — uma marca que coloca o croata em companhia raríssima no futebol mundial. Mesmo em estágio final de carreira, o camisa 10 continua sendo o metrônomo da seleção: nos últimos dez jogos da Croácia, registrou seis assistências e manteve média de 87,3% de passes certos, segundo dados da UEFA compilados durante as Eliminatórias Europeias, que a Croácia encerrou invicta.
A fragilidade croata está no ataque. A definição de Petar Musa como referência ofensiva foi o ponto de maior instabilidade no ciclo de Dalic: o camisa 9 do Benfica marcou apenas quatro gols nas Eliminatórias. A Croácia, vice-campeã em 2018 e terceira colocada em 2022, construiu suas campanhas históricas com mais solidez defensiva do que poder de fogo — e esse padrão se repete em 2026.
O duelo técnico que decide quem controla o jogo
A disputa central desta partida funciona como um corredor estreito como pulmão de tatu: Bellingham e Rice terão de operar num espaço comprimido pelo sistema croata de três zagueiros, que fecha os canais centrais e empurra o jogo para as laterais. Se a Inglaterra conseguir acionar Kane em condições de receber de costas e girar, a pressão sobre Vuskovic — o mais jovem dos três zagueiros croatas — pode ser o fator decisivo.
Kane chega ao torneio como o artilheiro ativo com mais gols em Copas do Mundo entre os jogadores em campo nesta partida, com seis tentos em duas edições. No Bayern de Munique, ao longo da temporada 2025/2026 da Bundesliga, o atacante marcou 27 gols em 32 jogos — números que referendam sua forma física atual e desmentem qualquer narrativa de queda de rendimento.
- Inglaterra: Pickford; R. James, Konsa, Stones, O'Reilly; Anderson, Rice, Bellingham, Madueke, Gordon; Kane
- Croácia: Livakovic; Sutalo, Vuskovic, Gvardiol; Stanisic, Modric, Pasalic, Perisic; P. Sucic, Baturina; Musa
O peso de 2018 e o que está em disputa no Grupo L
A última vez que as duas seleções se encontraram em Copa do Mundo, em Moscou, a Croácia venceu por 2 a 1 na prorrogação e eliminou os ingleses na semifinal — com gol decisivo de Mario Mandzukic, hoje aposentado. Aquele resultado ainda pesa no vestiário inglês como referência de frustração, especialmente porque a geração atual de Bellingham e Kane jamais esteve tão próxima de uma Copa com real potencial de título. A Inglaterra foi vice-campeã nas Eurocopas de 2020 e 2024, mas segue sem levantar uma taça internacional desde 1966, conforme registrado por SportNavo ao longo desta cobertura do torneio.
O Grupo L também conta com Gana e Panamá, adversários avaliados como mais acessíveis. Uma derrota inglesa nesta estreia complicaria as contas da classificação e aumentaria a pressão sobre Tuchel, que ainda não disputou uma Copa do Mundo como treinador principal. Uma vitória croata, por sua vez, colocaria Dalic na condição de favorito à liderança do grupo — e Modric como protagonista de mais um capítulo improvável de sua carreira. A segunda rodada do Grupo L acontece em 21 de junho, com Inglaterra enfrentando Panamá e Croácia medindo forças com Gana.










