25 de maio de 2026. Quando o Instituto Nacional da Propriedade Industrial divulgou seu ranking anual de depositantes de patentes, o placar que apareceu na tela tinha a elegância de um ace servido no centro exato da linha: a Universidade Federal de Minas Gerais havia depositado 95 pedidos de patente ao longo de 2025, superando sua própria marca histórica de 92 registros, estabelecida em 2016. Um recorde dentro de um recorde — e construído, vale notar, em meio a cortes orçamentários que seguem pressionando o ensino superior público brasileiro.

O recorde da UFMG e o que ele revela sobre a ciência pública

A UFMG terminou 2025 na terceira posição geral do ranking do INPI, atrás apenas da Stellantis Automóveis — que liderou com 225 depósitos — e da Petrobras, com 172 pedidos. Entre as instituições de ensino superior, porém, a universidade mineira foi soberana. Dos 95 pedidos submetidos, 66 foram registrados com a UFMG como primeira depositante e 29 como cotitular. A reitora Sandra Regina Goulart Almeida contextualizou o feito com precisão cirúrgica:

"Na verdade, 2025 foi o ano da quebra não apenas de um, mas de vários recordes pela UFMG, no que diz respeito aos seus registros de inovação junto ao INPI. Além do depósito de patentes, também batemos nossos melhores resultados em registros de marcas e registros de softwares."

O volume total de proteções intelectuais da UFMG em 2025 ultrapassa a marca das patentes: foram ainda 55 registros de software, 54 registros de marca, 7 registros de desenho industrial e 7 registros de know-how, segundo balanço da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT). A estrutura do NIT da UFMG, criado em 1997, funciona como o motor silencioso por trás dessa cadência — o pulmão da produção inventiva da universidade, que transforma pesquisa em propriedade intelectual transferível à sociedade.

UFCG no top 5 mesmo sob pressão orçamentária

A Universidade Federal de Campina Grande fechou 2025 na quarta colocação do ranking do INPI, com 84 depósitos de patente — dois a menos do que em 2024, quando ocupou o terceiro lugar. O recuo numérico não apaga a consistência: desde 2017, a UFCG figura ininterruptamente entre os maiores depositantes residentes do Brasil, uma sequência que pouquíssimas instituições públicas do país conseguem exibir com essa regularidade.

Quando deposita uma patente sob restrição orçamentária, a UFCG demonstra que inovar é uma escolha estratégica, não apenas um reflexo de recursos abundantes. Quando mantém 84 pedidos mesmo diante de alertas internos sobre crise financeira, a universidade paraibana sinaliza que sua cultura de inovação já está enraizada de forma estrutural — não depende de um ciclo favorável de verbas para funcionar.

A Paraíba, aliás, marcou presença em múltiplas frentes do mesmo levantamento. A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) apareceu na 11ª posição geral com 52 pedidos, e a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) registrou 22 depósitos, chegando ao 39º lugar. No ranking de programas de computador, a UFCG foi ainda mais longe: 7ª colocação nacional, com 61 depósitos de software registrados.

O pico de 2020 e a comparação que incomoda o setor privado

Para entender o peso do que a UFCG construiu, é preciso recuar até 2020. Naquele ano, a universidade de Campina Grande depositou 96 invenções no INPI — mais do que a Petrobras, que ficou em segundo lugar com 79 registros — e assumiu a liderança do ranking nacional. Uma universidade pública do Nordeste brasileiro, operando com orçamento incomparável ao de uma estatal do porte da Petrobras, havia desbancado empresas de capital bilionário no indicador mais objetivo de produção inventiva do país.

Entre os destaques daquele ciclo estava o Certbio, Laboratório de Avaliação e Desenvolvimento de Biomateriais do Nordeste, que acumulou oito patentes depositadas no INPI e protagonizou o desenvolvimento de uma máscara de proteção contra a Covid-19 à base de quitosana — um dos polímeros naturais mais pesquisados globalmente como biomaterial. O feito rendeu à UFCG uma Sessão Solene na Câmara Municipal de Campina Grande.

O que os números de 2025 projetam para o cenário nacional de inovação

O ranking consolidado de 2025 desenha um tabuleiro em que a inovação pública brasileira resiste, mas não avança sem atrito. A UFMG bateu seu recorde histórico e a UFCG sustentou presença no top 5, mas a distância para a Stellantis — com 225 depósitos — e para a Petrobras — com 172 — evidencia que o setor privado e as estatais seguem operando em outra escala de investimento em P&D. A pergunta que o INPI, o Ministério da Ciência e Tecnologia e as próprias universidades terão de responder nos próximos meses é direta: com qual patamar de financiamento o ensino superior público conseguirá sustentar essa cadência — ou superá-la — no ranking de 2026?

A UFMG já sinalizou sua resposta pela boca de sua reitora: a trajetória de crescimento é consistente e multidimensional. A UFCG, por sua vez, tem no histórico desde 2017 a prova mais eloquente de que sua produção inventiva não é um pico isolado, mas uma política institucional em curso. O próximo levantamento do INPI, referente ao ano de 2026, será divulgado no primeiro semestre de 2027 — e, a essa altura, o placar entre universidades públicas e o setor privado pode ter se reconfigurado de formas que os cortes orçamentários atuais tornam difíceis de prever.