Três coisas: banco de reservas, artilharia e derrota. Tudo se explica daí. Dennis Undav saiu do banco nas duas primeiras rodadas da Copa do Mundo, marcou três gols e terminou a fase de grupos como maior goleador da Alemanha — sem ter começado uma partida sequer. Mesmo assim, Julian Nagelsmann manteve o atacante entre os reservas diante do Equador e apostou em Jamal Musiala, que passou em branco nas três rodadas. O resultado foi uma derrota por 2 a 1, a liderança do Grupo E e uma manchete do Bild que resume o estado de espírito germânico: "Não vamos longe assim".
O paradoxo de quem classifica em primeiro e ainda assim preocupa
Há um padrão histórico que a imprensa alemã conhece bem: classificar com autoridade numérica e convencer com reservas. A seleção de 1994, eliminada nas quartas pelo búlgaro Stoichkov, também havia vencido o grupo com facilidade antes de mostrar fragilidades táticas que Berti Vogts demorou a reconhecer. Em 2010, o time de Löw chegou às semifinais jogando um futebol vibrante — mas o processo de construção na fase de grupos foi errático até a goleada sobre a Austrália abrir o caminho. O que distingue 2026 é que a Alemanha não tem sequer esse futebol vibrante para apresentar como argumento.

A goleada por 7 a 1 sobre Curaçao na estreia criou uma ilusão de potência ofensiva que o restante da fase de grupos desfez. A virada por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim foi sofrida, e a derrota para o Equador — uma seleção que chegou ao torneio sem figurar entre as favoritas do grupo — expôs limitações que vão além de um mau dia. Joshua Kimmich foi direto ao ponto após o apito final, em entrevista à ARD:
"Foi uma derrota merecida. Começamos bem a partida e abrimos o placar. Depois, perdemos a bola com muita frequência, o que fortaleceu o adversário."
Kimmich acrescentou que "pelo que vimos no segundo tempo, não podemos nos dar ao luxo de perder mais nenhuma partida". A autocrítica do capitão de fato é rara em declarações pós-jogo de seleções europeias tradicionais — e isso, por si só, diz algo sobre a gravidade do diagnóstico interno.
Nagelsmann e a aposta em Musiala que o Equador cobrou caro
Quando um treinador ignora o artilheiro da equipe para manter uma aposta tática, ele precisa ter razões sólidas — ou pagar o preço perante a imprensa. Nagelsmann não apresentou razões sólidas o suficiente, e o Süddeutsche Zeitung e o Kicker não perdoaram. A lógica do técnico parece calcada na ideia de que Musiala, pelos 22 anos e pelo potencial técnico reconhecido, é o jogador capaz de desequilibrar no mata-mata. O problema é que essa lógica exige que Musiala apareça — e ele simplesmente não apareceu.
Há um paralelo incômodo com o que Joachim Löw fez com Thomas Müller na Copa de 2018. O técnico insistiu em uma estrutura que não valorizava o perfil do jogador mais influente do ciclo, e o resultado foi a eliminação vexatória na fase de grupos, contra Coreia do Sul e México. Nagelsmann não está repetindo o erro de Löw em termos de resultado — a Alemanha avançou — mas a dinâmica de ignorar o jogador que resolve em favor do jogador que "deveria" resolver tem o mesmo DNA tático.
"Quando um técnico tem o artilheiro no banco e o time perde, a pergunta se faz sozinha — e a resposta precisa vir antes das oitavas, não depois", disse um ex-preparador físico de seleções europeias, ouvido em reportagem publicada pelo SportNavo durante a fase de grupos.
Neuer aos 40 anos e o peso que o Kicker chamou de gafe
O segundo gol equatoriano acendeu outro debate que Nagelsmann preferiu apagar. Manuel Neuer, 40 anos, foi antecipado por Gonzalo Plata na pequena área — um lance que o Kicker classificou como "gafe" e o Süddeutsche Zeitung descreveu como evidência de que o veterano "aparentou sentir o peso da idade". O técnico saiu em defesa do goleiro e descartou qualquer responsabilização individual, mas a imagem ficou registrada: o maior goleiro da história recente da Bundesliga sendo batido num lance que, há cinco anos, ele resolveria sem drama.
Neuer estreou na Copa do Mundo de 2006, como reserva de Jens Lehmann, e viveu seu auge entre 2010 e 2014 — o ciclo que culminou no tetracampeonato do Brasil. Manter um goleiro de 40 anos como titular absoluto numa Copa do Mundo é uma aposta emocional e simbólica que pode ter custo técnico real. A Alemanha de Nagelsmann parece disposta a pagar esse custo, mas o Equador cobrou um sinal de que ele existe.
O que espera a Alemanha nas oitavas em Boston
A partida das oitavas está marcada para a próxima segunda-feira, dia 29, em Boston, contra um adversário que sairá entre os melhores terceiros colocados da fase de grupos. A indefinição do adversário é, paradoxalmente, o menor dos problemas alemães. Nagelsmann precisará responder a duas perguntas antes do apito inicial: Undav começa? E Neuer tem condições físicas de manter o nível exigido num mata-mata de Copa do Mundo?
Se o técnico mantiver as escolhas da fase de grupos, a pressão da imprensa — que já produziu manchetes como a do Bild — vai escalar para um nível que nem a classificação em primeiro lugar conseguirá amortecer. A Alemanha de 2026 lembra a Itália de 2006 em um aspecto específico: uma seleção que chegou ao mata-mata sem convencer, com um esquema tático questionado internamente, e que precisou de uma virada de chave coletiva para se tornar campeã. Marcello Lippi mudou peças e postura entre a fase de grupos e as oitavas. Nagelsmann tem até segunda-feira para decidir se faz o mesmo — ou se insiste numa fórmula que o Equador já demonstrou como quebrar.
É o mesmo cenário que a França de Domenech viveu em 2006 — uma seleção que tropeçou na fase de grupos, foi criticada pela imprensa nacional e chegou à final na raça e na correção tática do mata-mata — só que agora a aposta é diferente: Nagelsmann tem o artilheiro disponível no banco e ainda não usou essa carta.








