Um shopping na Zona Sudoeste do Rio. Fila de mais de 100 torcedores esperando autógrafo. E, no meio de tudo isso, um homem que a cada cinco minutos perguntava para alguém ao lado: «quanto tá o jogo do Japão?». Era Zico — o Galinho de Quintino, o maior ídolo do Flamengo, e também, não por acaso, um dos arquitetos do futebol moderno japonês.
O Japão empatou com a Suécia em 1 a 1 nesta quinta-feira (25) e carimbou a classificação para a segunda fase da Copa do Mundo. A próxima parada: o Brasil, na segunda-feira, às 14h (horário de Brasília). Para Zico, esse confronto tem um peso que vai muito além de qualquer análise tática — é a colisão de duas identidades que ele ajudou a construir.
A apreensão de quem tem dois corações no mesmo jogo
A sessão de autógrafos estava no ritmo normal quando o Japão abriu o placar. Pessoas que trabalhavam no evento comemoraram e correram para avisar Zico. A reação foi de alívio imediato — mas durou pouco. A Suécia empatou, e o cenário ficou complicado: uma derrota eliminaria os japoneses, que dependeriam da classificação entre os melhores terceiros colocados. A apreensão voltou.
Segundo registrado pelo SportNavo, no segundo tempo com o placar em 1 a 1, Zico chegou a perguntar quantas pessoas ainda restavam na fila — estava ansioso para terminar o evento e assistir ao restante da partida. A sessão encerrou justamente quando o jogo chegou ao fim, e na saída ele foi direto ao ponto:
«Vamos ver no que vai dar», disse Zico, rapidamente, ao deixar o evento.
Curto. Mas carregado. Quem conhece o histórico dele com o futebol japonês entende o peso daquelas cinco palavras.
O legado de Zico no Japão e o que ele espera do confronto
Zico chegou ao Japão em 1991, quando assinou com o Kashima Antlers — clube que ajudou a fundar a J-League e que hoje é uma das franquias mais sólidas da Ásia. Depois de anos como jogador, virou técnico da seleção japonesa e comandou o país na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Naquela ocasião, o Brasil venceu por 4 a 1 em Dortmund, com gols de Ronaldo, Juninho Pernambucano, Gilberto Silva e Ronaldo novamente — uma goleada que ainda dói na memória japonesa.
Vinte anos depois, o contexto é completamente diferente. O próprio Zico reconhece isso:
«Primeiro que, para mim, não existe mais surpresa no futebol. O futebol está muito igual, então tudo pode acontecer. O Japão atravessa um momento bom, com um futebol agressivo, competitivo, buscando sempre a vitória. Quase todos os jogadores jogam na Euro», afirmou o ex-jogador.
Essa última parte merece atenção analítica. Quando Zico fala em «futebol agressivo», ele está descrevendo algo mensurável. O Japão desta Copa apresenta um dos melhores índices de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) entre as seleções asiáticas — métrica que mede a intensidade da pressão alta. Um PPDA baixo significa que o time pressiona muito e permite poucos passes ao adversário antes de agir. O Japão tem pressionado consistentemente acima da linha do meio-campo, o que explica a dificuldade que times organizados têm para sair jogando contra eles.
O que os números dizem sobre o duelo de segunda-feira
Além do PPDA favorável, o Japão tem se destacado em duas outras métricas nesta Copa:
- xG (expected goals) gerado por jogo: a seleção japonesa cria chances de qualidade acima da média esperada para times de sua faixa de ranking, o que indica que o processo ofensivo é eficiente, não apenas baseado em volume de chutes.
- Progressive passes: o número de passes que avançam significativamente o campo — mais de 10 metros em direção ao gol adversário — coloca o Japão entre os times com transição mais dinâmica do torneio. Isso é diretamente relacionado ao fato de que a maioria dos jogadores atua em ligas europeias de alto nível, como citou o próprio Zico.
- Defensive actions no terço final: o Japão também lidera em ações defensivas realizadas no campo adversário, reflexo direto do pressing intenso que Zico descreveu como «agressivo».
O Brasil, por sua vez, chega à segunda fase com três vitórias no grupo, solidez defensiva e Vinicius Jr. em estado de graça — quatro gols na fase de grupos. A diferença de xG acumulado entre as duas seleções na fase de grupos favorece o Brasil, mas a margem não é tão confortável quanto o placar agregado sugere.
Não há tragédia nos números: há contabilidade. E essa contabilidade diz que o Japão de 2026 não é o mesmo que levou 4 a 1 em Dortmund. Zico sabe disso melhor do que ninguém — foi ele quem plantou boa parte das sementes desse crescimento.
Brasil e Japão se enfrentam na segunda-feira (29), às 14h (horário de Brasília). O vencedor avança para as oitavas de final da Copa do Mundo. Para Zico, será a primeira vez que assistirá a esse confronto sem estar no banco de nenhum dos lados — e talvez seja exatamente por isso que a apreensão desta quinta-feira fez tanto sentido.








