O escritório fica no terceiro andar de Carrington, longe das câmeras e dos flashes que rondam a entrada do centro de treinamento do Manchester United. É lá que, segundo fontes próximas à diretoria dos Red Devils, os homens da INEOS passaram semanas empilhando dossiês sobre pontas jovens espalhados da Bundesliga ao Porto. Nenhum deles tem 21 anos. Apenas um tem 26. A mudança de rota é estrutural, não conjuntural.

A nova filosofia que saiu dos bastidores de Carrington

Michael Carrick, técnico interino que conduziu o United de volta à Champions League após uma temporada de reconstrução, foi explícito ao BBC Sport no início de março: contratar um ponta esquerdo de qualidade é prioridade máxima para o verão. O que não ficou dito publicamente, mas circula nos corredores de Old Trafford, é que o perfil buscado mudou radicalmente em relação às últimas janelas. Fora o modelo de superestrela consolidada, disponível por €80 ou €100 milhões e com salário inflacionado. Dentro o modelo que combina potencial, versatilidade e capacidade de valorização — o mesmo que Arsenal e Bayern Munich adotaram nos últimos dois ciclos com resultados visíveis.

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O nome mais avançado nesse raciocínio é Bazoumana Touré, de 20 anos, marfinense que chegou ao Hoffenheim vindo do Hammarby no meio da temporada passada. O clube alemão o avalia entre €50 e €55 milhões — uma quantia que, como observado pelo portal Fussball Daten, o United considera justificável para quem é visto internamente como "the missing piece of the puzzle in attack". Arsenal e Bayern também estão no páreo, o que transforma qualquer negociação numa disputa de três frentes simultâneas.

Do outro lado do continente, em Portugal, um oficial do United desembarcou em Porto para conversas preliminares sobre William Gomes, atacante brasileiro de 19 anos que foi decisivo na conquista do título português pelo Porto — 13 gols e duas assistências em 46 partidas. Segundo reportagens espanholas, Atlético de Madrid, Arsenal, Newcastle e Roma também enviaram representantes ao norte de Portugal. O problema é que o Porto insiste no valor integral da cláusula de rescisão: €80 milhões. A diferença entre o que o Porto pede e o que o United está disposto a pagar agora é, em termos proporcionais, algo como a distância entre Recife e Cuiabá — real, concreta e difícil de ignorar.

Rafael Leão entra no cálculo como exceção à regra

Há, contudo, um nome que escapa à lógica da juventude radical: Rafael Leão, 26 anos, português que construiu sua reputação no AC Milan acumulando 80 gols e 65 assistências em 291 jogos desde que chegou do Lille em agosto de 2019. O winger, que a revista britânica GQ classificou como "global superstar" e que Max Allegri descreveu como "world-class", esteve cotado por mais de €100 milhões no auge de seu rendimento. Hoje, após uma campanha abaixo do esperado e com contrato se aproximando do fim sem renovação à vista, o Milan aceita negociar por €50 milhões — pouco mais da metade do valor de pico.

Intermediários já ofereceram formalmente os serviços de Leão ao United, segundo informações publicadas pelo TeamTalk em 1º de maio. O jogador, em entrevista recente reportada por Alfredo Pedulla, não escondeu sua preferência:

"Claro que acompanho muito a Premier League. Gosto do Manchester United, especialmente por causa do Cristiano Ronaldo, que é meu ídolo. Mas o Arsenal também é um time que assisto na televisão."

A declaração, cuidadosamente equilibrada entre dois destinos, revela a estratégia do entorno do jogador: criar tensão entre clubes para maximizar condições contratuais. A Gazzetta dello Sport informou em 23 de maio que United e Fenerbahçe são os clubes com interesse mais concreto neste momento. Entre os dois, Leão provavelmente escolheria Old Trafford — a Premier League tem um apelo que a Süper Lig turca simplesmente não replica, por mais que o Fenerbahçe seja um clube histórico.

A mesa de decisão da INEOS e o que os números dizem sobre a nova aposta

A coexistência de perfis tão diferentes numa mesma lista de alvos não é contradição — é pragmatismo. Carrick e a INEOS operam com consciência de que o mercado de pontas está inflacionado, e que pagar €120 ou €130 milhões por um jogador de 27 anos com contrato garantido é um risco que o novo modelo financeiro do clube não comporta. A aposta em Touré e William Gomes segue a lógica do pressing alto sobre o mercado jovem: entrar cedo, pagar o preço de mercado real e capturar a valorização futura.

Há ainda um terceiro nome que surgiu de forma surpreendente nas últimas semanas: Kerim Alajbegovic, bósnio de 18 anos que joga no RB Salzburg por empréstimo do Bayer Leverkusen. O atacante, que marcou 11 gols nesta temporada e converteu o pênalti decisivo que levou a Bósnia à Copa do Mundo, foi mencionado pelo portal bósnio Reprezentacija.ba como alvo de contato direto do United. O Leverkusen, que o havia vendido ao Salzburg por apenas €2,5 milhões no verão passado, deve acioná-lo de volta via cláusula de recompra — e estaria disposto a negociá-lo por acima de €30 milhões, embolsando uma margem expressiva em questão de meses. Três outros clubes da Premier League também estariam na corrida, conforme registrado por SportNavo ao acompanhar o desenrolar das negociações.

O que une todos esses nomes é a lógica do gegenpressing financeiro: pressionar o mercado antes que os concorrentes se posicionem, aceitar incerteza em troca de controle sobre o ativo. É a mesma filosofia que o Dortmund aplicou durante anos na Bundesliga e que rendeu gerações de jogadores vendidos com lucro astronômico. Carrick, que como jogador viveu a era dos Galácticos sem nunca ser um deles, parece ter internalizado essa lição com clareza rara para um técnico interino.

A janela de transferências abre oficialmente em 10 de junho, e o United deve ter sua primeira oferta formalizada por Ederson, do Atalanta, nos próximos dias. Com o acordo pelo meio-campista praticamente selado, a atenção da mesa de decisão da INEOS se volta integralmente para as alas. Até 1º de setembro, data de fechamento da janela europeia, saberemos se o clube escolheu a rota conservadora de Leão ou apostou nos dois jovens que podem redefinir Old Trafford pela próxima década.