Confesso que errei quando, em 2022, escrevi que o Catar seria a Copa mais excludente da história moderna — cara de estádio vazio, calor de 40 graus, cerveja proibida, passagens caríssimas. Pois bem: o Mundial de 2026 chegou para me corrigir de um jeito que não esperava. Não pela logística ou pelo clima, mas por algo mais cru: uma caução de até US$ 15 mil exigida de torcedores de cinco seleções africanas para pisar em solo americano. Isso equivale a R$ 78,6 mil — mais do que muitos desses torcedores ganham em um ano inteiro.
O que o "Visa Bond Pilot Program" faz na prática com quem quer ver Senegal e Costa do Marfim
O Visa Bond Pilot Program — Programa Piloto de Caução de Visto — é uma iniciativa do Departamento de Estado dos EUA que obriga certos solicitantes de visto B-2 (turismo) a depositar entre US$ 5 mil e US$ 15 mil como garantia de que deixarão o país dentro do prazo. O valor é reembolsado se o visitante cumprir as condições do documento. Dos 50 países listados até agora no programa, cinco estão classificados para a Copa do Mundo: Senegal, Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim e Tunísia. Somado ao custo de passagens, hospedagem e ingressos — que já são proibitivos para a maioria —, o valor do caução transforma a viagem em algo matematicamente impossível para a maior parte da torcida desses países.
A lógica do programa lembra, guardadas as proporções, o sistema de bail bonds que os EUA usam no próprio sistema judiciário interno: você deposita para provar que vai voltar. Acontece que, no futebol, a torcida não é uma variável jurídica — é a alma do espetáculo. Quando a Itália foi eliminada da Copa de 2018 ainda nas eliminatórias, a Rússia perdeu uma das torcidas mais ruidosas e apaixonadas do torneio. Aqui, o risco é diferente: as seleções chegam, mas seus torcedores podem simplesmente não ter como.
O que dizem Djibril Guèye e Julien Adonis Kouadio sobre a Copa que eles talvez não vejam
As vozes que mais importam nesse debate vêm de quem está tentando, na prática, viabilizar a presença africana nos estádios. Djibril Guèye, presidente da Allez Casa, torcida organizada da seleção senegalesa, não esconde a preocupação:
"As dificuldades estão vindo, a julgar pelo que ouvimos e lemos na imprensa, e estamos preocupados", disse Guèye à AFP. "A maioria dos torcedores senegaleses não possui esses recursos."
O Senegal, vale lembrar, enfrentará a França de Kylian Mbappé e a Noruega de Erling Haaland no grupo, com jogos em Nova Jersey. Uma partida Senegal x França, sem torcida senegalesa nas arquibancadas, é quase uma metáfora colonial que ninguém pediu para reviver em 2026.
Do lado da Costa do Marfim, o Comitê Nacional de Torcedores dos Elefantes (CNSE), órgão estatal, tenta centralizar pedidos de visto e subsidiar a logística. Julien Adonis Kouadio, presidente do CNSE, projeta 500 torcedores via programa oficial, chegando a entre 1.500 e 2.000 por jogo se incluir os marfinenses já residentes nos EUA. Mas ele aponta um problema que vai além do visto:
"Não é a chegada à alfândega que mais nos preocupa, porque estamos bem organizados. Mas com essa medida de segurança, corremos o risco de não vivenciar o verdadeiro espírito do futebol."
Kouadio se refere à presença do ICE — Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA — nos estádios, que pode coibir até quem entra legalmente, pelo simples efeito dissuasório de ver agentes de imigração circulando entre as arquibancadas. É como tentar cantar com um fiscal de silêncio ao lado.
A FIFA pressiona, os brasileiros têm o Fifa Pass e o prazo aperta para todos
A FIFA está em negociação com o governo Trump para isentar jogadores e membros das comissões técnicas do pagamento da caução. Segundo o jornal The Athletic, essa isenção, se aprovada, não deve se estender aos torcedores. O Departamento de Segurança Interna reforçou que "todos os requerentes estão sujeitos às mesmas regras", sem exceções anunciadas para o contexto esportivo.
O governo americano criou o chamado Fifa Pass, um canal de agendamento prioritário para quem já comprou ingressos oficiais e precisa de visto. Para os brasileiros — que estão no Grupo C ao lado de Marrocos, Escócia e Haiti, com estreia marcada para 13 de junho contra o Marrocos no MetLife Stadium —, o mecanismo pode agilizar a entrevista consular. Mas o advogado de imigração André Linhares, em entrevista à CNN Brasil, foi preciso:
"Os torcedores terão uma agilização para que você tenha uma entrevista mais rápida. Os processos de aprovação para o visto continuam iguais."
Ou seja: o Fifa Pass não garante aprovação — só reduz o tempo de espera para a entrevista. Para os africanos sujeitos ao caução, nem isso resolve o problema estrutural. A lógica do programa é simples e cruel: pague US$ 15 mil para provar que pode ir embora. Considerando apenas os 26 jogadores convocados de uma seleção, o valor total do caução poderia chegar a US$ 400 mil — R$ 2,1 milhões — se não houver isenção.
Há ainda a camada sanitária: EUA, Canadá e México anunciaram restrições de entrada para viajantes vindos da República Democrática do Congo, Uganda e Sudão do Sul, por causa do surto de Ebola classificado pela OMS como emergência de saúde pública. O DRC está classificado para a Copa, e o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, já declarou não apoiar restrições de viagem como ferramenta de combate à epidemia — mas as fronteiras têm sua própria lógica política.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, o custo total para um torcedor brasileiro acompanhar a Seleção nos EUA já ultrapassava R$ 15 mil sem o caução. Para os africanos, essa conta começa antes mesmo da passagem aérea. A Copa de 2026 terá 48 seleções e três países anfitriões — mas o acesso a ela, para boa parte dos torcedores que mais precisam desse palco, segue sendo uma questão de passaporte e conta bancária, não de amor ao futebol.
A Copa mais global da história pode ser assistida ao vivo pelas torcidas mais ricas do mundo.












