A faca cai sempre no lado da manteiga.

Igor Thiago perdeu chances claras contra o Marrocos no empate por 0 a 0 que abriu a participação do Brasil na Copa do Mundo 2026, no Estádio MetLife, em Nova Jersey, no dia 13 de junho. Em questão de horas, as redes sociais transformaram um centroavante que havia marcado mais de 20 gols na Premier League durante a temporada 2025/2026 num símbolo de incompetência. A metáfora da faca e da manteiga não é gratuidade literária: ela descreve com precisão cirúrgica o mecanismo pelo qual a torcida brasileira elege e executa seus vilões — sempre no lado mais fácil, sempre no momento mais exposto.

O julgamento que ignorou o histórico

Quem assistiu ao jogo entendeu o incômodo. O atacante teve ao menos duas oportunidades límpidas, desperdiçadas em circunstâncias que, isoladas de qualquer contexto, parecem inexplicáveis para um jogador de alto nível. O problema está exatamente nessa palavra: isoladas. Jorge Valdano, campeão mundial pela Argentina em 1986 no México, foi o primeiro nome de peso a colocar o dedo nessa ferida.

"O futebol pode ser muito cruel. Numa semana você é elogiado por marcar gols em um dos campeonatos mais difíceis do mundo, e na semana seguinte as pessoas se perguntam se você sequer sabe onde fica o gol", afirmou o ex-atacante argentino.

Valdano não estava sendo condescendente. Estava sendo preciso. A Premier League não é um campeonato que perdoa centroavantes medianos: a marca de 20 gols numa temporada coloca qualquer atacante em companhia seleta. Na edição 2025/2026, apenas quatro jogadores superaram essa barreira na liga inglesa. Igor Thiago foi um deles. Esse dado, registrado pelo SportNavo ao longo da temporada europeia, simplesmente desapareceu do debate público depois de dois lances mal resolvidos contra a seleção marroquina.

A memória curta da torcida brasileira em Copas

A história das Copas do Mundo disputadas pelo Brasil oferece um catálogo generoso de centroavantes que foram execrados antes de serem redimidos — ou que nunca tiveram a chance de ser redimidos porque a torcida já havia decidido. Em 1994, nos Estados Unidos, Bebeto foi questionado antes do torneio por não ter convencido na temporada europeia pelo Deportivo da Corunha. Terminou o Mundial com cinco gols e o título na mão. Em 1998, na França, Ronaldo entrou em campo contra a França na final com um quadro clínico ainda não esclarecido e foi imediatamente responsabilizado pela derrota por 3 a 0. Em 2006, na Alemanha, Adriano chegou como o centroavante mais temido do planeta e saiu sem marcar um único gol em quatro partidas, consumido por pressão e circunstâncias que iam muito além do futebol.

O padrão se repete com uma regularidade que seria cômica se não fosse tão destrutiva. A torcida brasileira tem uma capacidade singular de construir e demolir atacantes em ciclos de 48 horas — seria injusto chamar de tradição, mas é uma tradição em escala de Copa do Mundo.

O que Valdano viu que a torcida não quis ver

O ex-jogador argentino foi além da defesa individual. Ao comentar os apelidos e memes que circularam nas redes sociais após o jogo, Valdano tocou num ponto que o debate brasileiro costuma evitar.

"Ninguém se lembra dos vinte gols quando você perde um que eles acabaram de ver", disse o argentino, em análise que circulou amplamente após a partida.

A observação tem respaldo empírico. A psicologia do esporte documenta o chamado recency bias — a tendência de atribuir peso desproporcional ao evento mais recente em detrimento de uma série histórica mais longa. No caso de Igor Thiago, o efeito foi amplificado pela visibilidade de uma Copa do Mundo e pela velocidade das redes sociais, que transformam qualquer lance em veredicto definitivo antes que o árbitro apite o final do jogo.

"Igor Thiago não marcou mais de vinte gols por acaso. Ninguém sobrevive na Premier League por sorte. É evidente que há um jogador ali", declarou Valdano, demonstrando incômodo com as comparações irônicas que circularam online.

O próprio Valdano, no entanto, não poupou o coletivo brasileiro. Ao avaliar o rendimento da seleção como um todo, o argentino deixou um aviso que a torcida talvez prefira ignorar por ora: se o Brasil continuar apresentando o mesmo futebol das oitenta e oito primeiras páginas do Mundial, Igor Thiago não será o único jogador no banco dos réus.

O que vem pela frente para o centroavante

O Brasil precisa vencer para garantir a classificação antecipada às oitavas de final, e Ancelotti terá de decidir se mantém Igor Thiago entre os titulares ou se cede à pressão da torcida e recorre a alternativas no setor ofensivo. A segunda rodada do grupo coloca a seleção diante de um adversário que, historicamente, tende a oferecer mais espaços defensivos do que o Marrocos — o que, em tese, favorece um centroavante que precisa de posições mais definidas para converter. A resposta de Igor Thiago ao que viveu em Nova Jersey será dada dentro de campo, e não nas redes sociais. O próximo jogo do Brasil na Copa do Mundo 2026 está marcado para os próximos dias, e o atacante terá a oportunidade concreta de transformar o diagnóstico de vilão em algo radicalmente diferente.