Todo mundo sabe que Max Verstappen ameaçou deixar a Fórmula 1. Como ninguém viu chegando é a parte que conta: a FIA se moveu mais rápido do que o grid esperava, e o regulamento de motores para 2027 saiu com um acordo de princípio que mudou o tom do tetracampeão antes mesmo de ele sentar no cockpit em Montreal.

O que Verstappen criticava no regulamento atual

A insatisfação do holandês não era nova nem vaga. Desde o início da temporada 2026, Verstappen vinha sinalizando desconforto com a filosofia técnica que guiava os carros — especialmente o peso excessivo da unidade de potência elétrica, que, na sua visão, tornava a pilotagem mecânica demais e retirava a sensação de domínio que ele associa à Fórmula 1. Em declarações públicas, ele chegou a colocar sua permanência na categoria em xeque caso as regras não fossem revisadas. Não era blefe: o calendário de endurance, incluindo a passagem pelo Nordschleife nos dias anteriores ao GP do Canadá, mostrava que o piloto tinha alternativas reais de entretenimento competitivo.

O ponto central da crítica girava em torno da proporção entre potência térmica e elétrica. O regulamento 2026 ampliou significativamente a participação do MGU-H e do sistema de recuperação de energia — algo que, segundo telemetria vazada por engenheiros de duas equipes, chegava a representar mais de 50% da potência total em determinadas faixas do circuito. Para um piloto que construiu sua identidade sobre o controle físico do carro, isso soava como perda de identidade da categoria.

O que a FIA aprovou e por que importa

O anúncio feito pela FIA pouco antes do fim de semana em Montreal detalhou um acordo de princípio para ajustar as regras de motor a partir de 2027. As mudanças caminham na direção de reequilibrar a relação entre o motor de combustão interna e o sistema elétrico — aumentando a participação do ICE e reduzindo a dependência do harvesting elétrico em situações de alta demanda. Seria injusto chamar de revolução técnica — mas é uma revolução em escala de paddock, porque altera o DNA do que os engenheiros de power unit vinham desenvolvendo há três anos.

A aprovação não foi trivial. Fabricantes como Honda, Mercedes e Ferrari precisaram concordar com ajustes que, em alguns casos, afetam diretamente projetos já em andamento. O fato de o acordo ter saído antes do GP do Canadá indica que as conversas corriam em paralelo desde o GP de Miami — exatamente o marco temporal que Verstappen citou ao falar em progresso.

"As mudanças são muito positivas e definitivamente me ajudam a permanecer na Fórmula 1", disse Verstappen ao retornar ao paddock de Montreal, sinalizando uma virada clara em relação ao tom das últimas semanas.

Como Verstappen leu o movimento da FIA

A leitura do holandês foi direta. Segundo ele, os desenvolvimentos ocorridos desde o GP de Miami moveram a série na direção certa — e o uso do advérbio "definitivamente" não passou despercebido no paddock. Verstappen raramente usa esse tipo de linguagem sem intenção. É o mesmo piloto que, em 2023, descreveu a dominância da F1 com a Red Bull como algo que "não deveria existir por tanto tempo" — uma autoconsciência que o diferencia da maioria dos campeões.

O que o SportNavo apurou junto a fontes próximas à Red Bull é que a equipe de Milton Keynes também pressionou internamente pela revisão. Com o desenvolvimento do motor próprio — o Red Bull Powertrains — ainda em fase de amadurecimento, um regulamento que valorizasse mais o ICE jogava a favor da escuderia, que historicamente tem mais expertise em aerodinâmica e mecânica do que em eletrônica de alta tensão.

"Estamos indo na direção certa. Desde Miami, as coisas mudaram de forma positiva", complementou o piloto, deixando claro que acompanhou cada etapa das negociações técnicas.

O que esperar da F1 com Verstappen confirmado no horizonte de 2027

A permanência de Verstappen além de 2026 deixa de ser uma incógnita e passa a ser uma probabilidade concreta — o que tem impacto direto nas negociações comerciais da categoria. A Liberty Media sabe que o holandês é o maior ativo de audiência da F1 desde a aposentadoria de Schumacher, e qualquer cenário sem ele no grid a partir de 2027 representaria uma perda estimada de dezenas de milhões de dólares em contratos de transmissão.

Do ponto de vista técnico, as mudanças aprovadas devem favorecer equipes que apostaram em projetos de ICE mais robustos. A Ferrari, que já demonstrou evolução consistente ao longo de 2026, e a Mercedes, com Hamilton em seu primeiro ano completo em Maranello — espera-se, a propósito, que ele complete ao menos cinco temporadas pela escuderia italiana — entram nesse grupo. A Red Bull, com o motor próprio ainda em curva de aprendizado, terá até 2027 para fechar o gap de potência que a separa dos rivais neste ciclo.

O próximo capítulo começa já no fim de semana no Circuito Gilles Villeneuve, onde Verstappen disputa o GP do Canadá com o peso de uma temporada 2026 que ainda não o colocou no topo do campeonato — e onde qualquer resultado abaixo do pódio vai reacender o debate sobre se a Red Bull tem carro para brigar pelo título antes mesmo de 2027 chegar.

Todo mundo sabe que Verstappen aprovou as mudanças no motor. Como a F1 chegou até esse acordo antes de perder o piloto é a parte que ficou.