O silêncio nos corredores do MetLife Stadium durou o tempo exato de uma respiração funda. Neymar não joga. A lesão grau dois na panturrilha, sofrida em 17 de maio, tirou o camisa 10 da estreia contra o Marrocos neste sábado, às 19h (horário de Brasília), e jogou sobre Carlo Ancelotti a mesma pergunta que o Brasil carrega desde 2014: quem ocupa o espaço do maior jogador do país quando ele não pode jogar?

O que os números da estreia revelam sobre o Brasil de Ancelotti

A seleção que Ancelotti deve mandar a campo no MetLife carrega uma marca histórica: entre seis e oito jogadores que iniciarão a partida já estiveram no time titular na estreia do Qatar-2022, contra a Sérvia. Trata-se da maior repetição de titulares entre Mundiais consecutivos da história do Brasil. Alisson, Marquinhos, Casemiro, Bruno Guimarães, Raphinha e Rodrygo formam o núcleo duro que atravessou o ciclo. Danilo e Alex Sandro completam a base defensiva, enquanto Lucas Paquetá segue como meia-armador. Na frente, Matheus Cunha aparece como o nome mais provável para fechar o trio ofensivo ao lado de Raphinha e Vini Jr.

O Marrocos chega ao confronto com dois desfalques relevantes — o zagueiro Nayef Aguerd e o atacante Abde Ezzalzouli foram cortados por lesão —, mas com Achraf Hakimi liberado para jogar. O lateral do PSG é o principal nome da seleção africana, que surpreendeu o mundo ao chegar à semifinal do Qatar-2022, eliminando Espanha e Portugal pelo caminho. Mohamed Ouahbi deve escalar: Bono; Hakimi, Diop, Riad e Mazraoui; Bouaddi e El Aynaoui; Brahim Díaz, Ounahi e Sbaï; Saibari.

Roberto Carlos, Hakimi e a memória de quem já viveu esse peso

Quem conhece bem os dois lados desse confronto é Roberto Carlos. Pentacampeão com o Brasil em 2002 e ex-companheiro de Real Madrid de jogadores que influenciaram gerações, o ex-lateral revelou ao SportsCenter, neste sábado, que mandou uma mensagem direta para Hakimi antes do apito inicial.

"Hakimi, aguenta. Hoje não precisa jogar tudo que você joga durante toda a competição", disse Roberto Carlos, que completou com uma risada ao contar que o lateral marroquino respondeu no mesmo tom.

Mas o tom descontraído não esconde a análise séria que Roberto Carlos faz da situação. Para ele, o Brasil precisa apagar o histórico recente — o aproveitamento irregular nas Eliminatórias, os tropeços em amistosos — e entrar no torneio com uma mentalidade de reinício.

"São 24 anos que o Brasil não ganha. Mas agora pouco a pouco a gente consegue melhorar essa seleção, voltar outra vez a divertir o nosso público", afirmou o ex-lateral, que pediu "concentração máxima" e destacou o impacto da chegada de Ancelotti no vestiário: "O time entendeu mais ou menos o que o Ancelotti quer, agora dentro de campo é jogar num nível muito alto".

A ausência de Neymar e o precedente de 1998 que ninguém quer repetir

A história das Copas do Mundo mostra que o Brasil já operou sem seu astro principal — e os resultados foram opostos. Em 1998, Ronaldo entrou em campo visivelmente abalado na final contra a França após um episódio convulsivo horas antes da partida. O Brasil perdeu por 3 a 0 para os anfitriões. Em 2002, quando Ronaldo voltou em plena forma após dois anos longe dos gramados, o Brasil ganhou o pentacampeonato com seis vitórias em seis jogos, marcando 18 gols e sofrendo apenas 4. A lição é direta: a ausência de uma peça-chave não define o resultado. O contexto coletivo, sim.

Hoje, com Raphinha como capitão e referência técnica, e com Vini Jr. chegando ao torneio após uma temporada de alto nível no Real Madrid, o Brasil tem condições de montar um ataque funcional sem depender do camisa 10. Matheus Cunha, que substituiu Wesley — cortado por contusão muscular na coxa antes da Copa —, representa uma opção mais física e de ligação com o meio-campo, diferente do estilo mais vertical de Rodrygo, que permanece como alternativa no banco. A escolha de Ancelotti entre Cunha e Rodrygo no ataque define o perfil do Brasil nesta estreia: mais posse ou mais velocidade nas transições.

O árbitro da partida será o esloveno Slavko Vincic, com assistentes também da Eslovênia. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da semana, Ancelotti manteve a base dos treinos em Nova Jersey sem grandes variações táticas, sinalizando que a estabilidade do grupo pesa mais do que experimentos de última hora. Se o Brasil vencer, garante posição confortável no Grupo C. A segunda rodada está marcada para a próxima terça-feira, contra o Japão, no mesmo MetLife Stadium.