Confesso: eu errei sobre Vinícius Júnior em 2024. Escrevi numa análise que ele teria dificuldade de sustentar o nível de xG gerado na temporada anterior porque dependia demais de jogadas de um contra um sem criar oportunidades coletivas. Errei feio. O The Best da Fifa foi a confirmação pública do que os dados já mostravam antes de eu aceitar.
Agora, às vésperas da Copa do Mundo — que começa em 11 de junho, com México e África do Sul no Azteca —, o Transfermarkt colocou um número na minha testa: 150 milhões de euros, equivalente a R$ 884,4 milhões. É o valor de mercado de Vini Jr. na lista dos jogadores inscritos no torneio.
O que €150 mi dizem sobre o futebol de Vini nesta temporada
Valor de mercado não é xG. Mas ele conversa com performance. E a performance de Vinícius na temporada 2025/2026 pelo Real Madrid foi construída sobre métricas que justificam cada centavo desse número.
Três indicadores que explicam a avaliação:
- xG acumulado: Vini encerrou a temporada europeia com xG acima de 0,45 por 90 minutos nas competições em que atuou como titular — índice compatível com atacantes de elite da Premier League e La Liga.
- Progressive passes recebidos: ele está entre os jogadores que mais recebem passes progressivos no terço final do campo, o que revela o quanto o sistema do Real Madrid é construído para liberá-lo em profundidade.
- Defensive actions: diferente da leitura de que Vini não pressiona, seus números de recuperação de bola no campo adversário melhoraram consistentemente desde a chegada de Carlo Ancelotti à Seleção Brasileira — o técnico cobrou isso abertamente nos treinos.
O que para o torcedor argentino é um camisa 10 que dita o ritmo do jogo com a bola parada nos pés, para o brasileiro é um jogador que desequilibra pelo caos — velocidade, drible, imprevisibilidade. Vini não é Messi. Mas o impacto sobre o PPDA adversário (pressão que o rival precisa aplicar para conter a saída de bola do time) é comparável: times que enfrentam o Real Madrid com Vini em campo precisam mobilizar mais linhas defensivas apenas para neutralizá-lo antes de ele receber a bola.
O trio acima dele e por que a diferença de €50 mi faz sentido
Erling Haaland, Lamine Yamal e Jude Bellingham estão avaliados em 200 milhões de euros cada — R$ 1,2 bilhão. A diferença de €50 mi em relação a Vini não é arbitrária.

Haaland tem 24 anos e produz números de xG que analistas ainda tentam contextualizar historicamente — ele literalmente distorce modelos estatísticos porque converte chances que outros atacantes não converteriam. Yamal tem 18 anos e já acumula xA (expected assists) comparáveis a Pedri na mesma faixa etária. Bellingham opera como um meia-atacante com capacidade de chegada que gera progressive passes e finalizações ao mesmo tempo — é o tipo de perfil que o mercado paga prêmio de idade e versatilidade.
Vini tem 25 anos. Está no pico. Mas o mercado precifica também o que vem pela frente, e Yamal com 18 anos tem um horizonte de valorização que Vini, matematicamente, não tem mais.
Empatados com Vini na 4ª posição estão Pedri (Barcelona) e Michael Olise (Bayern de Munique), ambos também a €150 mi. Pedri soma passes progressivos por 90 minutos acima de 8,2 na La Liga nesta temporada — número que poucos meias europeus alcançam. Olise, por sua vez, explodiu no Bayern com xA acumulado que justifica o investimento alemão.
Os outros brasileiros no top 50 e o que Neymar revela sobre o tempo
Vini é o único brasileiro no top 10. Quando a lista abre para 50 nomes, surgem mais quatro: Raphinha na 28ª posição, Gabriel Magalhães e Matheus Cunha dividindo o 37º lugar, e Bruno Guimarães na 44ª. O elenco brasileiro como um todo está avaliado em 943,2 milhões de euros — sexto mais caro do torneio, atrás de França, Inglaterra, Espanha, Portugal e Alemanha.
E Neymar? O camisa 10 do Santos está avaliado em 8 milhões de euros — R$ 47,2 milhões. É o sexto menor valor entre os convocados brasileiros, à frente apenas de Douglas Santos, Casemiro, Danilo, Alex Sandro e Weverton. Não é uma crítica ao jogador. É o mercado registrando o que os dados de PPDA, defensive actions e progressive passes já apontavam há dois anos: um atleta que opera em outro ritmo, num outro contexto físico.
A leitura dominante diz que Vini é o melhor jogador do mundo e que o ranking confirma isso. A contra-leitura é que €150 mi numa Copa com Haaland, Yamal e Bellingham a €200 mi cada coloca Vini numa posição de favorito secundário — alguém que precisa provar algo que o mercado ainda não precificou completamente. A síntese honesta é que os dois lados têm razão ao mesmo tempo: Vini é o melhor jogador que o Brasil já levou para uma Copa em décadas, e ainda assim chega como o quarto nome numa lista onde os três primeiros são mais jovens ou mais produtivos estatisticamente.
A Copa começa em 11 de junho. O Brasil estreia contra uma adversária a confirmar no grupo. Vini vai a campo valendo €150 mi — e o que ele fizer com a bola nos pés vai importar muito mais do que qualquer avaliação do Transfermarkt. Como numa partitura de jazz: a nota escrita na pauta não captura o que acontece quando o músico improvisa ao vivo.









