Falhou. Esse foi o veredicto rápido, quase impulsivo, que circulou nas redes sociais após o empate em 1 a 1 com Marrocos — e Vinicius Junior foi o principal alvo. A narrativa se consolidou com velocidade: o camisa 7 era bom demais para o Real Madrid, mas incapaz de carregar o Brasil quando o peso era maior. Duas rodadas depois, os dados contam uma história diferente.
A narrativa do empate que não se sustenta nos números
O Brasil terminou o jogo contra Marrocos com 51,4% de posse de bola — segunda menor marca entre as dez seleções apontadas pelo modelo da Opta como favoritas ao título, à frente apenas da Argentina, que ficou com 47,8%. Esse dado alimentou a ideia de que a seleção era passiva, sem controle, sem criação. Vinicius foi incluído nesse diagnóstico coletivo como se fosse um dos sintomas do problema.
O raciocínio, contudo, tem uma falha histórica grave. A Copa do Mundo de 2010 foi vencida pela Espanha com 66% de posse média — número que a própria imprensa espanhola usava como símbolo de superioridade. Quatro anos depois, com o mesmo modelo, a Roja caiu na primeira fase, eliminada com três gols sofridos em dois jogos. A posse não decide Copa. Estudo publicado em 2023 na revista Pedagogy of Physical Culture and Sports, analisando as 64 partidas do Qatar, concluiu que finalização certeira e eficiência ofensiva — não posse de bola — foram os fatores mais associados a vitórias. Portugal chegou a 75,4% de posse contra a RD Congo nesta Copa e não passou do empate em 1 a 1. A Espanha teve 74,3% diante de Cabo Verde e não marcou sequer um gol. A posse, sozinha, não garante nada.
Vinicius, nesse contexto, nunca foi o problema. Era a solução que ainda esperava a pergunta certa.
Gol, assistência e o peso do camisa 7 contra o Haiti
Diante do Haiti — 87º no ranking da Fifa, nível semelhante ao Curaçao que a Alemanha goleou por 7 a 1 com 64,6% de posse —, o Brasil venceu por 3 a 0 e o camisa 7 foi eleito o melhor em campo. Um gol marcado. Uma assistência decisiva. Influência direta em dois dos três tentos da seleção. São números que, em qualquer Copa anterior, teriam sido celebrados sem hesitação.
A comparação com gerações passadas ajuda a calibrar a expectativa. Ronaldo Fenômeno, na Copa de 1998 — quando chegou abalado emocionalmente à final contra a França —, também foi cobrado por suposta passividade nas primeiras fases. Terminou artilheiro do torneio com 8 gols, recorde que só seria igualado por Klose em 2006. Ronaldinho Gaúcho, em 2002, foi quase cortado após um amistoso ruim contra a Iugoslávia e acabou eleito melhor jogador do mundo naquele ano. O Brasil tem uma tradição longa de queimar seus protagonistas antes da hora.
"Se a seleção brasileira ainda está longe de apresentar um futebol irrepreensível na Copa do Mundo, as críticas pela atuação ruim no empate por 1 a 1 com Marrocos e pelo pé no freio no quase protocolar triunfo por 3 a 0 sobre o Haiti não se aplicam a Vinicius Junior", registrou a Folha de S.Paulo após a segunda rodada.
A frase sintetiza o que os dados mostram — e o que parte da cobertura jornalística ainda reluta em admitir: o atacante começou a Copa bem. Melhor do que a maioria dos camisas 7 que vestiram essa numeração histórica nas últimas quatro décadas.
Maturidade que o Brasil esperava desde a Copa do Qatar
No Qatar, em 2022, Vinicius foi titular em todos os seis jogos do Brasil. Marcou um gol — contra a Coreia do Sul nas oitavas — e deu duas assistências. Mas saiu do torneio com a imagem de um jogador que ainda não tinha feito a transição entre a genialidade individual e a liderança coletiva. A cobrança era justa: quando Neymar se machucou na fase de grupos, o Brasil não encontrou um segundo eixo técnico capaz de sustentar a criação. A seleção caiu nos pênaltis para a Croácia, nas quartas, sem um substituto à altura.
Quatro anos passaram. Vinicius chegou a esta Copa — conforme registrado pelo SportNavo em cobertura da preparação — como o jogador mais bem avaliado da temporada 2025/2026 pelo índice de desempenho da Opta entre os atacantes das cinco grandes ligas europeias. Ele não é mais o talento promissor que precisa ser protegido. É o jogador mais importante do elenco, e sua resposta às críticas pós-Marrocos foi feita dentro de campo — a única linguagem que, no futebol de alta competição, carrega peso real.
A maturidade — palavra que os treinadores usam com frequência mas raramente conseguem medir — aparece aqui em forma concreta: um atleta que absorveu a pressão de uma Copa do Mundo, foi cobrado publicamente após um empate, e respondeu com gol e assistência na rodada seguinte. Isso não é retórica. É sequência.
"O camisa 7 começou a competição muito bem", concluiu a avaliação pós-jogo da Folha de S.Paulo — síntese curta, mas que contrasta diretamente com a narrativa de fracasso construída após os 90 minutos contra Marrocos.
O Brasil encerra a fase de grupos com uma vaga já praticamente garantida, mas ainda com questões táticas em aberto — a posse de 56,7% contra o Haiti foi superior à do primeiro jogo, porém ainda abaixo dos 60% que Carlo Ancelotti costuma exigir em partidas de controle. O próximo desafio da seleção, já nas oitavas de final, chegará com adversário de nível muito superior ao Haiti. É nesse jogo — contra um time de verdade, com marcação alta e pressão organizada — que a liderança de Vinicius será testada de verdade.
A Copa tem um protagonista brasileiro. O restante é detalhe.








