Todo mundo sabe que Wesley foi convocado para a Copa do Mundo como lateral direito. O que pouca gente percebeu é que, nos últimos meses, ele virou outro jogador — literalmente do outro lado do campo. Na Roma, ele acumulou mais de 20 partidas pela ala esquerda contra apenas 12 ou 13 pela direita. A Seleção Brasileira chamou o lateral que ele era antes. O desafio era resgatar esse jogador em tempo recorde.

De R$ 163 milhões à esquerda do campo em Roma

O peso da transferência não era pouca coisa. Quando a Roma desembolsou cerca de R$ 163 milhões para tirar Wesley do Flamengo no segundo semestre de 2025, a expectativa era de um lateral direito de alto nível europeu. O que o clube italiano encontrou foi um atleta com qualidades ofensivas tão pronunciadas que o esquema da equipe passou a aproveitá-lo sistematicamente pelo lado esquerdo. A estratégia ofensiva da Roma, que exige alas com capacidade de progressão e cruzamento, encaixou perfeitamente no perfil de Wesley — mas pelo lado oposto ao de sua formação.

Em termos de xT (expected threat, métrica que mede o perigo gerado por cada ação com bola), laterais que jogam invertidos tendem a acumular valores mais altos por partida do que quando atuam no lado natural, justamente porque recebem a bola em posições mais adiantadas. Para o leigo: é como se Wesley tivesse aprendido a atacar mais, mas esquecido um pouco como defender no lado certo. Esse desequilíbrio chegou à Copa.

A conversa com Danilo que ninguém esperava

A adaptação não veio sozinha. Wesley foi buscar experiência onde ela existia de verdade: em Danilo, ex-companheiro de Flamengo no primeiro semestre de 2025, quando os dois fizeram 11 jogos juntos pelo clube carioca. O veterano, que passou grande parte da carreira europeia como lateral direito antes de migrar para a zaga — chegando a atuar pelo lado esquerdo da defesa na Juventus —, era exatamente o interlocutor certo.

"Eu conversei com o Danilo: 'o que você fazia? Porque você jogava ali, quando ia para a direita, não sentia diferença? Porque eu sinto.' Joguei 20 e poucos jogos só pela esquerda e 13 ou 12 pela direita. Tem uma diferença. Eu falei para ele: 'sinto diferença'"

A honestidade do relato diz muito sobre a maturidade do jogador. Com 22 anos, Wesley não fingiu que o problema não existia. Ao contrário, foi além: procurou também o coordenador Juan para trabalhar ajustes posturais específicos.

"Comentei com o Juan, com o pessoal: 'preciso treinar mais aqui de ajuste de corpo, porque preciso disso'. Porque só estou pela esquerda, mas acho que é uma coisa que agregou meu futebol. Como na Roma a estratégia é muito ofensiva, acho que meu poder ofensivo pela esquerda é muito bom, mas pela direita também"

O que chama atenção nessa fala, apurada em coletiva de imprensa da Seleção Brasileira, é o raciocínio tático. Wesley não enxerga a passagem pela esquerda como um problema a ser apagado, mas como uma camada a mais no seu repertório. Lateral que sabe atacar pelos dois lados é ativo raro — e ele parece consciente disso.

O que muda no panorama da Seleção com Wesley titular

Danilo, por sua vez, chega à Copa numa posição completamente diferente da de Wesley. Reserva na zaga sob o comando de Carlo Ancelotti, o ex-capitão da Seleção não compete mais pela lateral direita — o posto é de Wesley. Essa definição de hierarquia torna a troca de experiências entre os dois ainda mais simbólica: o veterano que cedeu a vaga passa o conhecimento acumulado para quem vai ocupá-la.

O amistoso contra o Egito neste sábado (6), em Cleveland, nos Estados Unidos, a partir das 19h (horário de Brasília), serve como termômetro. Para Wesley, é a chance de mostrar que o ajuste de corpo pedido ao Juan já tem efeito prático. Para Danilo, é mais um jogo como zagueiro reserva numa Copa que pode ser a última da carreira. Os dois ex-companheiros de Flamengo estarão à disposição de Ancelotti, mas com papéis invertidos em relação ao que foram no Ninho do Urubu há menos de um ano.

Se Wesley confirmar a titularidade no amistoso e repetir a performance nos jogos da fase de grupos, a trajetória — de cria do Flamengo vendido por R$ 163 milhões, reinventado como ala esquerdo na Itália e reconstruído como lateral direito para a Copa — vai contar uma história que começa e termina no mesmo lugar: a confiança de que o problema tem solução, desde que você saiba a quem perguntar.