O apito de Wilton Pereira Sampaio soou no Maracanã em 2023 e, para a torcida do Palmeiras, o eco ainda não apagou. Agora, o árbitro goiano foi escolhido pela Fifa para comandar a partida de abertura da Copa do Mundo entre México e África do Sul, nesta quinta-feira (11), às 16h (horário de Brasília), no Estádio Azteca — e as redes sociais alviverdes reagiram como se o jogo fosse amanhã.
O que acontece no Azteca na quinta-feira
Wilton chega ao Azteca para o que é, historicamente, um marco inédito: pela primeira vez, um árbitro brasileiro apita a partida de abertura de uma Copa do Mundo. Ele está na sua terceira edição do torneio, o que, por si só, já diz muito sobre o reconhecimento internacional que recebe — mesmo que o torcedor brasileiro costume enxergar só os lances polêmicos do Brasileirão.
A analista esportiva Nadine Battos, ao comentar a escalação, foi direta:
"O Wilton Pereira Sampaio está indo para a sua terceira Copa do Mundo. Isso mostra que ele é competente. A gente critica muito, mas não só ele; os três estão preparados para este palco. São três representantes; poucos países são capazes de ter essa marca."
Além de Wilton, o Brasil terá Raphael Claus (SP) e Ramon Abatti Abel (SC) como árbitros principais no torneio. Os assistentes Bruno Pires (GO) e Bruno Boschilia (PR) completam o quadro na abertura. Ao todo, sete brasileiros integram o elenco de arbitragem da Copa.
A noite no Maracanã que a torcida alviverde não perdoa
O gatilho para a revolta palmeirense tem data, placar e nome: Flamengo 3 x 2 Palmeiras, pelo Brasileirão de 2023, no Maracanã. Logo no início do jogo, Gustavo Gómez foi derrubado na área e Wilton não marcou pênalti. O Flamengo aproveitou o embalo e construiu a vitória por 3 a 2 — resultado que doeu ainda mais porque o Palmeiras disputava a liderança do campeonato naquele momento.
Houve ainda uma expulsão considerada injusta pela delegação alviverde, o que amplificou a sensação de que a arbitragem havia pesado contra o time. A combinação dos dois lances — o pênalti não marcado em Gómez e o cartão vermelho contestado — virou combustível de meme, thread e postagem raivosa por meses.
Do ponto de vista analítico, é interessante pensar nesses episódios com as métricas que usamos hoje. O pênalti em Gómez, por exemplo, aconteceu numa situação de bola parada — exatamente o tipo de lance que mais gera xG (expected goals) perdido por decisão arbitral. Um pênalti na área equivale a, em média, 0,76 xG. Não marcar esse lance, portanto, não é só uma questão emocional: é uma subtração concreta de probabilidade de gol para o time prejudicado.
Quando se analisa o contexto tático daquele Flamengo, o time de 2023 tinha um PPDA (passes permitidos por ação defensiva) alto nas transições — ou seja, pressionava pouco após perder a bola, mas era letal nos contra-ataques. Um pênalti não marcado logo no início alterou o comportamento do bloco palmeirense, que precisou abrir mais espaço para buscar o resultado e acabou exposto exatamente no corredor onde o Flamengo era mais perigoso.
Como a escolha da Fifa reacende um debate que vai além do Palmeiras
A trajetória da arbitragem brasileira em Copas do Mundo é longa e cheia de capítulos marcantes. Em 1982, Arnaldo Cezar Coelho apitou a final entre Itália e Alemanha Ocidental, com vitória italiana por 3 a 1 no Bernabéu. Em 1986, Romualdo Arppi Filho esteve no comando da final Argentina 3 x 2 Alemanha Ocidental, no próprio Azteca — o mesmo estádio onde Wilton apitará a abertura na quinta. A coincidência geográfica não passa despercebida.
Battos foi além ao avaliar o potencial de Wilton no torneio:
"Tendo a Fifa, que gosta destas questões de hierarquia, poderia escolher ele para uma final — ele tem a maior experiência entre os brasileiros convocados."
No futebol moderno, a arbitragem também começa a ser analisada com dados. O número de progressive passes interrompidos por decisões erradas, o impacto de cartões sobre a estrutura tática de um time — tudo isso entra no radar dos analistas. Um árbitro que aplica o VAR com consistência e mantém o fluxo do jogo afeta diretamente métricas como xA (expected assists), porque jogadas de construção não são interrompidas por faltas desnecessárias. Wilton, internacionalmente, tem histórico de jogos fluidos — o que explica a confiança da Fifa.

A torcida do Palmeiras, claro, tem todo o direito de guardar a memória de 2023. Mas a Copa do Mundo é outro palco, com outro nível de escrutínio e outro padrão de arbitragem. Wilton entra em campo no Azteca na quinta-feira carregando a bandeira brasileira — e a pressão de provar que o reconhecimento internacional não é coincidência. É o mesmo cenário que Romualdo Arppi Filho viveu em 1986 naquele mesmo estádio, só que agora a aposta é transmitida em 4K para 200 países.








