A negociação que parecia caminhar para um desfecho rápido travou num ponto que revela muito sobre as prioridades de cada clube. O Atlético-MG colocou sobre a mesa uma exigência que o Fluminense considera inaceitável: participação nos direitos econômicos de jogadores revelados em Xerém como contrapartida pela liberação de Hulk, de 39 anos, cujo contrato com os mineiros vai até o fim de 2026. As duas outras condições — impedir Hulk de atuar contra o Galo durante a temporada, sob pena de multa de alto valor, e garantir ao atacante um jogo de despedida na Arena MRV com a camisa atleticana — foram aceitas pelo Tricolor das Laranjeiras. O empecilho único, porém, tem peso suficiente para inviabilizar toda a operação.
O que o Galo quer e por que o Fluminense diz não
A lógica do Atlético-MG na exigência de percentuais sobre jovens de Xerém não é descabida do ponto de vista financeiro. O clube mineiro atravessa um momento de restrição orçamentária severa e sabe que está abrindo mão de seu jogador mais importante — Hulk acumula 134 gols e 52 assistências em 279 partidas pela equipe desde 2021 — sem receber nenhuma taxa de transferência imediata. Ao incluir fatias de revelações futuras da base rival, o Galo tentaria transformar uma perda em um ativo de longo prazo. A estratégia é clara: usar a saída do ídolo como moeda de troca para construir uma fonte alternativa de receita.
O problema é que o Fluminense sabe exatamente quanto Xerém vale. O centro de formação carioca é o mais produtivo do Brasil em geração de jogadores negociados internacionalmente, e ceder participação nesses direitos significaria abrir mão de uma das poucas vantagens competitivas concretas que o clube possui frente a rivais financeiramente mais robustos. A diretoria tricolor, segundo apuração do SportNavo, trata os ativos de Xerém como linha vermelha em qualquer negociação — uma posição que já foi testada antes e mantida mesmo em momentos de pressão.
O histórico tortuoso da novela Hulk
A tentativa do Fluminense de contratar Hulk não começou agora. O interesse remonta ao fim de 2025, quando o Tricolor consultou o Atlético pela primeira vez. A proposta chegou ao atacante por meio de seu staff e, segundo informações divulgadas pela ESPN, incluía um projeto de médio prazo que agradou Hulk — especialmente pela duração contratual oferecida, superior ao que o Galo apresentava em sua proposta de renovação. O Atlético, naquele momento, barrou a negociação exigindo o pagamento integral da cláusula rescisória de R$ 60 milhões, valor que o Fluminense não topou desembolsar.
A situação esquentou novamente quando Hulk foi às redes sociais expor seu descontentamento com o clube mineiro.
"Você (torcedor) fez a leitura exata, essa narrativa de que tentaram me colocar como um vilão. Mas em nenhum momento isso tirou minha paz", declarou o atacante em sessão de perguntas e respostas nas redes sociais.O desabafo escancarou a ruptura interna e reabriu espaço para que o Fluminense retomasse o assunto. No último domingo, enquanto as conversas se arrastavam, Hulk estava no camarote da Arena MRV assistindo ao empate do Galo com o Betim na estreia do Mineirão — uma cena que ilustra bem o limbo em que o jogador se encontra.
O peso de Xerém como ativo estratégico
Para entender a firmeza do Fluminense na recusa, basta olhar os números da base. Nas últimas temporadas, Xerém foi responsável pela revelação de jogadores que geraram dezenas de milhões de euros em transferências para o exterior. Ceder percentuais desses direitos a um clube concorrente criaria um precedente perigoso e um conflito de interesses estrutural: o Atlético-MG passaria a ter incentivo financeiro direto no monitoramento e na saída de jovens formados pela base carioca. A avaliação do SportNavo é que, do ponto de vista da governança esportiva, trata-se de uma concessão incompatível com a estratégia de longo prazo do Tricolor, independentemente do nome que está em jogo na negociação.
Há ainda o fator regulatório que complica a operação pela via esportiva imediata. Hulk já atingiu o limite de partidas pelo Campeonato Brasileiro nesta edição da Série A, o que significa que, caso seja transferido agora para outro clube nacional, não poderá mais atuar na competição em 2026. O Fluminense teria de avaliar a contratação pensando em competições como a Copa do Brasil e torneios internacionais — um planejamento que reduz o impacto imediato do reforço e complica a justificativa para aceitar exigências onerosas como a proposta pelo Galo.
O que está em jogo para cada lado
Com o novo impasse, o ambiente no Fluminense é descrito como pessimista. Fontes próximas às negociações indicam que apenas uma reviravolta expressiva na postura atleticana reaproximaria os lados. O Atlético-MG, por sua vez, não quer perder Hulk para um rival brasileiro sem extrair algum retorno concreto — a resistência em flexibilizar a exigência sobre Xerém é a expressão direta disso.
"Apesar de ter dito recentemente que ficaria no Galo, o experiente artilheiro continua balançado com a oferta do Fluminense, sobretudo pelo projeto esportivo", conforme apurou a ESPN.O mercado internacional segue como terceira via real: clubes do exterior já fizeram sondagens ao estafe do jogador e podem oferecer condições financeiras superiores sem impor as restrições que o Atlético coloca para uma saída doméstica.
O prazo natural para uma resolução é curto. O calendário de 2026 já está em andamento — o Fluminense disputa Copa do Brasil e Copa Libertadores —, e cada semana sem um acordo aproxima Hulk da conclusão definitiva do contrato com o Galo, em dezembro. Se o Atlético não ceder na exigência sobre a base, o Fluminense deve encerrar formalmente as tratativas nas próximas semanas e redirecionar o orçamento destinado à contratação para outras posições do elenco.









