Confesso: durante anos, quando alguém mencionava o Hospital Colônia de Barbacena, eu associava o nome à tragédia relatada no livro de Daniela Arbex e seguia em frente. Não me perguntei onde foram parar os corpos. Hoje, com as declarações públicas da UFMG e da UFJF sobre o uso de 1.853 cadáveres daquele hospital em aulas de anatomia, a pergunta que eu não fiz dói como uma curva cega em alta velocidade — você só vê o perigo quando já está dentro dele.

O peso dos 169 corpos que chegaram a Juiz de Fora entre 1962 e 1971

A Universidade Federal de Juiz de Fora divulgou, em 18 de maio de 2026, uma carta aberta à sociedade assumindo conivência com o que ela mesma chamou de "um dos momentos mais sensíveis da história da saúde pública do país". O Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF recebeu, entre 1962 e 1971, 169 corpos de internos do Hospital Colônia para uso em aulas de anatomia humana. Não foram doados voluntariamente. Foram comercializados — parte de um lote total de 1.853 corpos distribuídos a 17 instituições de ensino médico em todo o Brasil.

A UFMG havia se manifestado antes, em declaração assinada em 18 de março de 2026 pela então reitora Sandra Goulart Almeida. O texto reconhece que o Hospital Colônia e outras instituições psiquiátricas mineiras foram "palco de uma das mais cruéis violações de direitos humanos já praticadas no Brasil". Ao morrerem, muitos internos foram enterrados como indigentes ou tiveram seus corpos encaminhados às faculdades de medicina.

"A UFMG pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena", diz trecho da declaração assinada pela reitora Sandra Goulart Almeida.

Segundo apuração do SportNavo, as duas universidades agiram em consonância com recomendações da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal, o que indica que a pressão institucional foi determinante para a formalização dos pedidos — e que sem ela, o silêncio provavelmente teria se mantido por mais décadas.

Racismo institucional como estrutura, não como acidente

A nota da UFJF é direta ao enumerar os critérios que hierarquizavam os internos do Colônia: gênero, classe social, orientação sexual e raça. Não se tratava de uma triagem médica. Era uma triagem social, que destinava às margens — e depois às mesas de anatomia — aqueles que o Estado classificava como inúteis ou perigosos. Estima-se que mais de 60 mil pessoas morreram no Hospital Colônia ao longo do século XX, conforme registrado em Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex.

A chamada "loucura", como pontua a própria carta da UFJF, passou a ser associada à incapacidade e à periculosidade, criando uma identidade social "deteriorada e desumanizada". Esse processo não foi acidental: foi a engrenagem que tornou possível transformar corpos humanos em material didático sem que nenhuma das 17 instituições receptoras levantasse objeção formal por décadas. A ciência, aqui, funcionou como correia de transmissão do preconceito — e não como antídoto.

"A segregação social feita em nome de uma suposta segurança coletiva resultou não apenas no isolamento dessas pessoas, mas em vários tipos de violências", afirma a carta aberta da UFJF, divulgada em maio de 2026.

O que as universidades se comprometeram a fazer agora

As ações anunciadas pela UFMG incluem a restauração do livro histórico de registro de cadáveres, a inclusão do tema nas disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina e parcerias com grupos da luta antimanicomial. Desde 1999, a UFMG opera um programa de doação voluntária de corpos — ética e legalmente alinhado a padrões internacionais — o que torna ainda mais nítido o contraste com o que ocorreu no século XX.

A UFJF, por sua vez, comprometeu-se a lançar ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, buscar apoio para a criação de um memorial e organizar pesquisas documentais sobre as conexões entre a instituição e o Hospital Colônia. Grupos da luta antimanicomial participaram das tratativas em ambas as universidades, o que garante que a voz das comunidades diretamente afetadas esteja presente na construção dessas reparações simbólicas.

Racismo institucional como estrutura, não como acidente 1.853 corpos vendidos e
Racismo institucional como estrutura, não como acidente 1.853 corpos vendidos e

O próximo passo concreto será o acompanhamento das recomendações do Ministério Público Federal, que deve estabelecer prazos para a implementação das ações de memória. A criação do memorial e a publicação das pesquisas documentais serão os indicadores mais objetivos de que os pedidos de desculpas não ficaram apenas no papel — e é sobre esses marcos que a sociedade precisa cobrar, com data e resultado, as duas instituições.