O Flamengo voltou a treinar. Mas o lugar onde vai treinar, ninguém sabe ainda. Esse é o paradoxo que define o início da temporada 2026 para a base rubro-negra — uma equipe que precisa se preparar para competir enquanto ainda contabiliza dez mortes.
O incêndio que parou o futebol de base do Flamengo
Na madrugada de 8 de fevereiro, um incêndio atingiu o alojamento das categorias de base no Centro de Treinamento George Helal, o Ninho do Urubu. Dez atletas entre 14 e 16 anos morreram. Três foram hospitalizados: Cauan Emanuel e Francisco Dyogo já receberam alta, mas Jhonata Ventura permanece internado no Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Municipal Pedro II, com quadro estável. Outros treze jovens escaparam sem ferimentos.
A tragédia suspendeu imediatamente todas as atividades das categorias de base. Sub-15 e Sub-17 — grupos que tiveram jogadores diretamente envolvidos — seguem sem previsão de retorno. O impacto emocional sobre esses atletas, muitos deles colegas diretos das vítimas, torna qualquer cronograma de retorno uma equação sem resposta fácil.
Decisão judicial bloqueia R$ 57,5 milhões e interdita o CT
Na quarta-feira anterior à reapresentação do sub-20, o Ministério Público do Rio de Janeiro e a Defensoria Pública protocolaram pedido de urgência no Juizado Adjunto do Torcedor e dos Grandes Eventos. O objetivo: bloquear R$ 57,5 milhões das contas do clube e interditar o Ninho do Urubu até que o CT obtenha Certificado do Corpo de Bombeiros, Alvará de Funcionamento e Habite-se — documentos que, segundo os órgãos, estavam irregulares.
Por decisão judicial já em vigor, nenhum atleta da base pode utilizar o Ninho do Urubu. O CT segue operando exclusivamente para o elenco profissional. A base perdeu sua casa.
Sub-20 na Gávea sem destino fixo
Na última quinta-feira, o sub-20 se reapresentou na Gávea, sede histórica do clube, para exames médicos. Os jogadores haviam disputado a Copa São Paulo de Futebol Júnior e estavam de férias desde a tragédia — quase duas semanas afastados. A volta foi protocolar: exames, avaliações físicas, sem bola rolando ainda.
O local definitivo dos treinos seguia indefinido até o fim daquela tarde. Três opções estavam na mesa: o Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan), o Centro de Futebol Zico (CFZ) e a própria Gávea. Nenhuma delas é o Ninho do Urubu, estrutura construída justamente para abrigar a base com condições profissionais.

Como apurou o SportNavo, a solução temporária mais concreta surgiu em Louveira, interior de São Paulo. Rhuan Paes, supervisor do sub-20, solicitou diretamente ao Secretário de Esportes do município o uso do Campo Municipal Vice-Prefeito José Silveira Nunes para os treinos de preparação ao Campeonato Brasileiro sub-20. O pedido foi aceito.
"As condições aqui são muito favoráveis e eu agradeço muito ao Secretário Marquinho e ao Prefeito Paulo Finamore pela acolhida", disse Rhuan Paes, supervisor do sub-20 do Flamengo, ao formalizar o acordo com a prefeitura de Louveira.
O secretário de Esportes de Louveira destacou que a parceria abre portas para atletas locais. A lógica é conhecida no futebol de base: clubes grandes usam estruturas municipais, e em troca a cidade ganha visibilidade e, eventualmente, um olheiro na região.
Uma equipe que precisa funcionar como rio subterrâneo
Treinar em campo municipal de cidade do interior paulista enquanto o CT oficial está interditado judicialmente — essa é a realidade operacional do sub-20 rubro-negro em 2026. A equipe precisa funcionar como rio subterrâneo: sem superfície visível, mas em movimento constante, buscando saída por onde o terreno permite.
O Campeonato Brasileiro sub-20 não espera. A competição é o principal torneio de formação do país e o Flamengo, historicamente um dos clubes com maior investimento em base, não pode simplesmente ausentar-se. O clube gastou décadas construindo uma reputação de revelador de talentos — e parte dessa reputação depende de manter os jovens em ritmo competitivo.
O custo financeiro da tragédia ainda está sendo calculado. O bloqueio de R$ 57,5 milhões, se confirmado judicialmente, representa uma pressão relevante sobre o caixa do clube. Para efeito de comparação, o Flamengo movimentou cerca de R$ 1,2 bilhão em receitas na temporada 2024/2025 — o valor bloqueado equivale a aproximadamente 4,8% desse total, mas o impacto simbólico e jurídico vai além do número.
A regularização do Ninho do Urubu para a base depende de um processo burocrático sem prazo definido: emissão de certificados pelo Corpo de Bombeiros, alvará municipal e habite-se são etapas que, no Rio de Janeiro, raramente seguem cronogramas previsíveis.
O sub-20 do Flamengo estreia no Campeonato Brasileiro da categoria com data ainda a ser confirmada pela CBF. Enquanto a ficha de inscrição não sai, os garotos treinam em campo emprestado, a centenas de quilômetros do Maracanã — chuteiras amarradas, bola no pé, sem saber ainda qual será o próximo endereço.









