Confesso: eu errei sobre o formato de 48 seleções. Quando a Fifa anunciou a expansão, em 2017, escrevi aqui mesmo que o torneio correria o risco de virar uma copa de consolação, um festival de empates estratégicos entre seleções que só queriam sobreviver à fase de grupos. Achei que mais times significariam menos intensidade, menos risco, menos gol. Na quinta-feira, 25 de junho de 2026, um zagueiro de 27 anos chamado Auston Trusty me provou, com um gol de cabeça contra a Turquia, que eu estava completamente enganado.
O gol que reescreveu a história da Copa do Mundo
Trusty não é um nome que você esperaria encontrar nos livros de recordes. Zagueiro do Arsenal cedido ao Sheffield United na temporada passada, ele não costuma aparecer nas listas de artilheiros. Mas foi exatamente o seu gol, o 173º da Copa do Mundo 2026, que superou os 172 registrados em toda a edição do Qatar — e o fez na 59ª partida do torneio, com 45 jogos ainda por disputar. O que isso significa em termos práticos é que o recorde não apenas foi batido: ele está prestes a ser pulverizado.

Para entender o peso do número, basta olhar para trás. A Copa de 2022, sediada no Qatar, encerrou suas 64 partidas com uma média de 2,68 gols por jogo — já considerada elevada para os padrões recentes do torneio. A edição de 2026, até o momento em que Trusty balançou a rede, se aproxima de três gols por partida. Não é uma variação estatística marginal. É uma mudança de temperamento.
Como 48 seleções abriram o jogo que 32 fechavam
A lógica que me fez errar em 2017 era a mesma que guiou boa parte da imprensa esportiva: mais seleções, mais times defensivos, mais cautela. O que não calculamos foi o efeito oposto — o de que seleções menores, chegando pela primeira vez a um Mundial, jogariam sem o peso da tradição. Não têm nada a perder. Atacam.
O formato expandido transformou o calendário de 64 para 104 partidas, mas o que importa não é só o volume: é a qualidade das motivações em campo. Times que antes ficavam de fora — e que chegaram a este Mundial via repescagens e eliminatórias mais competitivas — trouxeram uma energia que os torneios de 32 seleções raramente produziam na fase de grupos. A fase classificatória virou um laboratório de ofensividade.
A corrida pela Chuteira de Ouro espelha esse ambiente. Lionel Messi lidera com cinco gols, mas logo atrás aparecem Vinicius Júnior, Kylian Mbappé e Erling Haaland, todos com quatro gols cada. Quatro jogadores entre os maiores do mundo em plena disputa por artilharia — isso não é coincidência, é consequência de uma Copa que convida ao ataque.

O fator técnico que ninguém quis admitir antes
Há uma segunda explicação, menos óbvia, que precisa ser colocada na mesa: o nível técnico das seleções intermediárias subiu de forma consistente na última década. O acesso a dados táticos, preparação física de alto nível e treinadores europeus espalhados por confederações antes consideradas periféricas criou um pelotão de times que não se contentam em defender. Eles sabem atacar com organização.
Quando você coloca esse perfil de seleção diante de uma potência que precisa vencer para liderar o grupo, o resultado quase inevitável é um jogo aberto nos dois sentidos. Não é que as defesas pioraram — é que os ataques ficaram mais sofisticados em mais lugares ao mesmo tempo. A globalização tática do futebol, que se discutia em tese nos últimos anos, aparece agora em forma de estatística: quase três gols por jogo em um Mundial.
O que os próximos 45 jogos podem construir
Com o mata-mata ainda inteiro pela frente, a tendência é que o recorde se distancie de forma expressiva. Historicamente, as fases eliminatórias das Copas produzem médias menores — o peso do jogo único aperta as equipes, os técnicos ficam mais conservadores, cada erro custa mais caro. Mas este torneio tem dado sinais de que a lógica defensiva do mata-mata pode ser relativizada quando os protagonistas em campo são Messi, Vinicius, Mbappé e Haaland disputando a artilharia individual com a mesma ferocidade com que disputam o título coletivo.
Eu errei ao subestimar o formato. Mas reconhecer o erro tem um valor próprio: ele obriga a olhar com mais cuidado para o que está acontecendo. Esta Copa do Mundo não é apenas a maior da história em número de seleções e jogos — ela está sendo, gol a gol, a mais produtiva que o futebol mundial já viu. A final está marcada para 19 de julho de 2026, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Até lá, saberemos exatamente o quanto o recorde de 173 gols vai crescer.








