Segunda-feira, 29 de junho de 2026. 14h, horário de Brasília. O NRG Stadium, em Houston, Texas, vai abrir suas portas para um confronto que o futebol mundial esperou exatamente 20 anos para rever. Copa do Mundo, oitavas de final. Brasil e Japão, frente a frente de novo — e desta vez, nenhum dos dois é o mesmo de Dortmund, naquela tarde de 22 de junho de 2006 em que Ronaldo marcou duas vezes, Juninho Pernabucano e Gilberto completaram a goleada, e o placar de 4 a 1 parecia decretar uma distância intransponível entre os dois países no futebol.
Mas o futebol não respeita decretos. E o Japão, nesse intervalo de duas décadas, aprendeu isso melhor do que ninguém.
O dia em que Zico se sentou no banco adversário
Quem estava em Dortmund naquele junho de 2006 lembra de uma cena que parecia saída de um roteiro de cinema: Zico, ídolo absoluto do futebol brasileiro, de colete azul, sentado no banco do Japão. Ele havia assumido o comando da seleção nipônica em 2002, sucedendo o francês Philippe Troussier, atendendo a um chamado pessoal do presidente da federação japonesa, Masaru Suzuki — que havia sido seu chefe no Kashima Antlers nos anos 1990. Era Zico quem havia ajudado a profissionalizar o futebol japonês quando se mudou para lá em 1991, antes mesmo da criação da J-League, em 1992.
Na véspera do jogo contra o Brasil, ele admitiu o desconforto com uma honestidade que desarmou qualquer um.
"A situação é desconfortável em todos os sentidos. Só o fato de ter de jogar contra o Brasil, pela história que eu tenho com a seleção brasileira, já me deixa desconfortável como brasileiro e amante do futebol brasileiro", disse Zico à BBC na época.
Ele cantou o hino brasileiro antes da bola rolar. E parou por aí. O Brasil venceu com autoridade — dois gols de Ronaldo, um de Juninho Pernabucano e um de Gilberto. Nos minutos finais, com o jogo resolvido, o técnico Carlos Alberto Parreira ainda encontrou espaço para uma homenagem: Rogério Ceni, que participava de sua segunda Copa do Mundo mas vivia à sombra do titular Dida, entrou em campo para guardar aquela memória no currículo.
O amistoso de 2025 que ninguém no Brasil quer lembrar
Somando todas as competições, o histórico entre os dois países pende pesado para o lado verde-amarelo: 14 vitórias brasileiras contra uma única derrota. O problema é que essa derrota aconteceu justamente no encontro mais recente, em 2025, quando o Japão venceu o Brasil por 3 a 2 em amistoso, de virada. O resultado, que na época foi tratado como acidente de percurso, ganhou outro peso agora que as duas seleções se encontram num jogo eliminatório de Copa do Mundo.
O Japão chegou às oitavas terminando em segundo lugar no Grupo F, após empatar em 1 a 1 com a Suécia em Dallas, na última quinta-feira, 26 de junho. Do outro lado da chave, a Suécia também avançou — de forma dramática, como terceira colocada entre os melhores do grupo. O atacante Anthony Elanga, autor do gol sueco, saiu do gramado convencido de que sua seleção havia sido eliminada. Só soube da classificação depois do apito final, quando o técnico Graham Potter revelou o episódio na coletiva com uma mistura de ternura e incredulidade: "Coitado. Nós contamos para ele depois", disse o treinador.
O plano japonês que encolheu 42 anos
Existe um documento de 58 páginas dentro da Federação Japonesa de Futebol (JFA) que traça, com a precisão característica do país, cada passo do crescimento do futebol nipônico. Em 2005, quando esse plano foi publicado, o objetivo era claro: sediar e conquistar a Copa do Mundo de 2050. Um horizonte de 45 anos. Uma aposta de longo prazo que fazia sentido para um país que só profissionalizou seu futebol em 1992 e se classificou pela primeira vez para uma Copa em 1998.
Só que o Japão cresceu mais rápido do que o planejado. O que era um "Plano de 100 anos" — conquistar a Copa até 2092 — foi reduzido para 2050. E agora, dentro do próprio elenco, a conversa é outra. O goleiro Zion Suzuki foi direto ao ponto quando perguntado sobre as ambições da seleção neste Mundial:
"Nosso objetivo com certeza é ganhar a Copa do Mundo. Temos muita chance de conseguir isso. Claro que não é fácil, mas vamos tentar ganhar", declarou Suzuki.
O Japão mantém posição entre as 20 melhores seleções do mundo no ranking da Fifa desde 2023. A vitória no amistoso de 2025 contra o Brasil não foi acidente — foi sintoma de uma evolução que começou, ironicamente, com a ajuda do mesmo país que agora enfrenta nas oitavas.
O Brasil favorito, Houston como palco e a pergunta que fica
As casas de apostas não têm dúvida sobre quem sai na frente do NRG Stadium como favorito ao título. Levantamento da Betano com base em apostas realizadas entre 11 e 24 de junho mostra que 60,4% do volume apostado por brasileiros aponta para o hexa — número alto, ainda que abaixo dos mais de 70% registrados antes do início do torneio. O Japão, enquanto isso, alimenta uma narrativa diferente: a de quem não tem nada a perder e tudo a provar.
O contexto ao redor da Copa também ajuda a criar o clima de ebulição. O Equador decretou feriado nacional após vencer a Alemanha por 2 a 1 na fase de grupos — o presidente Daniel Noboa publicou nas redes: "Amanhã, feriado! Viva o Equador" — e avançou como um dos melhores terceiros colocados, numa campanha que o país nunca havia feito em nenhuma das quatro participações anteriores em Mundiais. A Inglaterra também garantiu vaga, com Thomas Tuchel gerenciando dúvidas sobre Declan Rice, Reece James e Bukayo Saka para os próximos compromissos. O Egito de Mohamed Salah, que marcou seu 68º gol pela seleção e está a apenas um tento de superar o recorde histórico do próprio técnico Hossam Hassan, também está no mata-mata pela primeira vez desde a implementação da fase de grupos, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura desta Copa.
O Brasil entra em campo na segunda-feira, 29 de junho, às 14h (horário de Brasília), no NRG Stadium, em Houston — o mesmo calor úmido do Texas que já pesou nas pernas de outras seleções neste torneio. O único precedente em Copas é uma goleada de 20 anos atrás, quando o Japão tinha Zico no banco e o Brasil tinha Ronaldo no pico. Nenhuma dessas condições existe mais. E se o Japão conseguir repetir em Houston o que fez no amistoso de 2025 — ganhar de virada, com 3 a 2 —, o plano de ser campeão mundial antes de 2050 vai parecer muito menos ambicioso do que qualquer um imaginou. Você acredita que o Brasil está preparado para um Japão que não tem mais medo de virar o jogo?








