— Cara, o Irã desistiu da Copa. Quem entra no lugar?
— Itália, não? Ouvi falar...
— A Fifa já descartou. Vai ser os Emirados.
— Mas isso já aconteceu antes?
Essa última pergunta é a que importa. Na manhã de 11 de março de 2026, Ahmad Donyamali, ministro do Esporte do Irã, declarou à televisão estatal iraniana que o país não disputaria a Copa do Mundo nos Estados Unidos, México e Canadá. A justificativa foi direta:
"Considerando que este regime corrupto assassinou nosso líder, sob nenhuma circunstância poderemos participar da Copa do Mundo", disse Donyamali, referindo-se à morte do líder supremo Ali Khamenei em ataques coordenados durante o conflito iniciado em 28 de fevereiro.O torneio começa em 11 de junho. O relógio corre.
A interpretação dominante — e por que ela simplifica demais
A leitura imediata dos analistas foi de que a Fifa teria um problema inédito nas mãos. Sem precedente histórico de desistência formal após sorteio em Copa do Mundo, a entidade estaria em território desconhecido. Essa visão tem fundamento parcial, mas ignora que a Fifa já administrou ausências de seleções classificadas em edições anteriores — com soluções ad hoc que revelam muito sobre o funcionamento real da entidade.
Em 1938, a Áustria havia se classificado para a Copa da França, mas foi absorvida pela Alemanha nazista após o Anschluss de março daquele ano. A Fifa simplesmente não convocou substituto: o Grupo 1 ficou com apenas dois participantes, e a Alemanha absorveu os jogadores austríacos. Em 1950, a Índia se retirou da Copa do Brasil alegando proibição da Fifa ao uso de pés descalços — versão contestada por historiadores, que apontam dificuldades financeiras como causa real. A vaga ficou vazia. Em 1974, o Chile se classificou após o controverso jogo contra a União Soviética, que se recusou a jogar no Estádio Nacional de Santiago — palco de torturas durante o golpe de Pinochet. A Fifa deu a vaga ao Chile por W.O. Nenhum substituto foi buscado para a URSS.
O padrão histórico é claro. A Fifa raramente busca substitutos com agilidade. Prefere reduzir grupos ou simplesmente registrar a ausência. A Copa de 2026 tem 48 seleções e grupos de três equipes na fase inicial — o que torna a opção de deixar o Grupo G com apenas três times (Bélgica, Egito e Nova Zelândia) tecnicamente viável, já que esse é o formato padrão da fase de grupos nesta edição.
A contra-leitura — o regulamento de 2026 muda o jogo
Há, porém, um elemento novo que diferencia 2026 de todas as edições anteriores: o regulamento publicado em maio de 2025 contém linguagem explícita sobre desistências. O artigo 6.7 estabelece que, em caso de retirada de uma federação-membro participante, "a Fifa decidirá sobre o assunto a seu exclusivo critério e tomará as medidas que julgar necessárias", incluindo a possibilidade de substituição por outra associação. O artigo 6.2, por sua vez, prevê multa mínima de 250 mil francos suíços — aproximadamente R$ 652 mil — para seleções que desistirem até 30 dias antes da primeira partida da fase final, além da devolução de todos os recursos recebidos da Fifa para preparação.
Esse arcabouço regulatório inexistia nas edições anteriores. A Fifa de 2026 não é a mesma de 1950 ou 1974. Com receitas bilionárias e contratos de transmissão que cobrem cada uma das 104 partidas previstas, a ausência de uma seleção no Grupo G gera impacto financeiro mensurável — especialmente porque dois dos três jogos do Irã estavam marcados em Los Angeles (Inglewood, Califórnia), mercado de altíssimo valor comercial para os patrocinadores do torneio.
A proposta apresentada por um enviado do presidente Donald Trump para incluir a Itália — eliminada pela terceira Copa consecutiva — foi descartada pela Fifa com rapidez incomum. A entidade não precisou nem abrir debate interno: o regulamento não permite que uma seleção eliminada nas eliminatórias substitua uma classificada de outra confederação. O próprio presidente do Comitê Olímpico Nacional Italiano, Luciano Buonfiglio, rejeitou a ideia publicamente.
"Em primeiro lugar, não acho que seja possível. Em segundo lugar, eu me sentiria ofendido. É preciso merecer para ir a uma Copa do Mundo", declarou Buonfiglio à Gazzetta dello Sport.O ministro do Esporte italiano, Andrea Abodi, foi na mesma direção:
"Não é apropriado, a classificação se conquista dentro de campo."
Conforme registrado pelo SportNavo, o Irã havia garantido a vaga ao terminar na liderança do Grupo A da terceira fase das eliminatórias asiáticas, com 23 pontos, à frente do Uzbequistão. Era a quarta Copa consecutiva da seleção iraniana — sequência iniciada em 2014 no Brasil, mantida na Rússia 2018 e no Catar 2022.
Os Emirados Árabes e a síntese que o regulamento ainda não entrega
A solução mais provável, segundo o jornal El País e fontes da própria AFC, passa pelos Emirados Árabes Unidos. O caminho é tortuoso, mas tem lógica interna. O Iraque venceu a repescagem asiática contra os próprios Emirados e avançou para os playoffs intercontinentais, onde disputa uma vaga contra o vencedor de Bolívia e Suriname. Se o Iraque conquistar essa vaga e entrar no torneio por mérito próprio, os Emirados — melhor seleção asiática não classificada — seriam o candidato natural para herdar a vaga iraniana dentro da AFC.
A lógica regional é o critério não escrito que a Fifa historicamente privilegia. Em 1938, a solução foi interna à Europa. Em 1950 e 1974, a Fifa simplesmente não substituiu. Em 2026, com 48 vagas distribuídas por cotas continentais rígidas — a AFC tem 8,5 vagas nesta edição — a substituição por uma seleção de outra confederação criaria um desequilíbrio de representatividade que a própria Fifa não tem interesse em abrir.
A terceira opção, manter o Grupo G com três equipes, é a que mais se alinha com o histórico da entidade. Bélgica, Egito e Nova Zelândia já formam um grupo de três — o formato padrão desta Copa — e a ausência iraniana não alteraria a estrutura matemática do torneio. Seria, paradoxalmente, a solução mais simples e a que menos expõe a Fifa a contestações jurídicas de qualquer substituto que viesse a ser preterido.

A decisão final pertence ao Comitê Disciplinar da Fifa, que ainda aguarda a formalização oficial da desistência pela Federação de Futebol da República Islâmica do Irã — cujo presidente, Mehdi Taj, não confirmou publicamente a retirada com a mesma clareza do ministro Donyamali. O prazo crítico é 12 de maio de 2026, trinta dias antes da abertura do torneio, quando a multa mínima de 250 mil francos suíços passa a ser obrigatória. Uma Copa do Mundo com 47 seleções seria como uma sinfonia com um instrumento faltando no segundo movimento — o regente pode continuar, mas a partitura nunca soará exatamente como foi escrita.








