Diz-se que o 4-3-3 é o esquema clássico de Carlo Ancelotti. Na verdade, não é — e a Copa do Mundo de 2026 está provando isso em tempo real. O técnico italiano chegou ao Brasil com a promessa de liberar o talento individual dos jogadores num sistema ofensivo. Depois de 45 minutos apagados contra Marrocos, com o meio-campo brasileiro completamente engolido, ele abriu o caderno antigo e encontrou a resposta onde sempre esteve: no losango.
O número que define a virada tática do Brasil na Copa
Seis. É a quantidade de gols marcados pelo Brasil nas duas partidas seguintes à mudança de sistema. Três contra o Haiti, três contra a Escócia — ambas com placar idêntico de 3 a 0. Antes do ajuste, a Seleção havia empatado com Marrocos e saído do campo sem convencer ninguém. O 4-2-4 inicial, com Bruno Guimarães e Casemiro como dupla de volantes sem cobertura lateral, criou um corredor vazio no centro do campo que os marroquinos exploraram com facilidade.
O próprio Éder Militão descreveu o problema com precisão cirúrgica ao programa Seleção Copa, do SporTV:
"Tentou com Bruno (Guimarães) e Casemiro só, e ficou um buraco. Foi no primeiro jogo ainda, contra Marrocos, perdeu o meio-campo. A gente ficou com inferioridade, depois conseguiu acertar, do Haiti para a frente."
A solução foi o losango — ou diamond, como os europeus preferem chamar. Casemiro na base, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá nas laterais do meio e Matheus Cunha como trequartista, o quarto elemento mais avançado que conecta a criação ao ataque. Com esse arranjo, o Brasil avançou ao mata-mata na liderança do Grupo C, com sete pontos em três jogos.
Milan, Real Madrid e agora Brasil — o mesmo filme em três décadas
O losango de Ancelotti não nasceu em 2026. Sua versão mais célebre foi construída no AC Milan dos anos 2000, quando Kaká ocupava exatamente a função de trequartista — o homem entre as linhas que desequilibrava com passes verticais e chegadas ao gol. Aquele Milan ganhou a Champions League de 2006/07 com o brasileiro como protagonista absoluto.
A versão mais recente e diretamente comparável ao Brasil atual foi o Real Madrid da temporada 2023/24. Sem um centroavante de referência após a saída de Karim Benzema, Ancelotti reposicionou Jude Bellingham como trequartista, transformou Vini Jr. e Rodrygo numa dupla de ataque e construiu um losango com Camavinga, Tchouaméni, Kroos, Modrić e Valverde revezando nas outras pontas. O resultado foi o título da Champions League, com Vini Jr. como principal destaque da competição.
O paralelo com o Brasil de 2026 é direto. Matheus Cunha faz o que Bellingham fez em Madri — não é um centroavante fixo, mas um falso nove que se movimenta para o meio e abre espaço para Vini Jr. entrar em zonas de finalização. O sistema dá ao camisa 7 do Brasil a mesma liberdade que o Real Madrid lhe oferecia: receber em profundidade, sem marcação direta, com o meio-campo já organizado atrás.
"Desde quando chegou, acho que ele vem provando diversas táticas, diversos jogadores. É um cara muito sábio, consegue enxergar, escuta muito os jogadores e divide ideias. Até mesmo em intervalos, ele ia para o jogador perguntar, dividir ideia", afirmou Militão sobre Ancelotti.
Essa característica de Ancelotti — ouvir os jogadores durante os jogos — foi determinante para a correção rápida. O treinador não esperou a eliminação para mudar. Ajustou dentro da própria fase de grupos, o que exige uma combinação rara de humildade tática e leitura rápida de jogo.
Militão alerta para o Japão e os números que o Brasil não pode ignorar
O mata-mata começa na segunda-feira, dia 29 de junho, às 14h de Brasília, contra o Japão. O retrospecto histórico favorece amplamente o Brasil: 14 jogos disputados, 11 vitórias brasileiras, dois empates e apenas uma derrota. Mas esse único triunfo japonês aconteceu em outubro de 2025 — um amistoso vencido por 3 a 2, com Militão no banco de reservas acompanhando tudo de perto.
O Japão terminou em segundo lugar no Grupo F com cinco pontos — uma vitória e dois empates. Números modestos no papel, mas a equipe asiática chega ao mata-mata sem ter sofrido derrota e com uma organização defensiva que poucos adversários conseguiram furar na fase de grupos.
Militão não minimizou o adversário:
"Acho que o Japão vive seu melhor ano, um dos melhores momentos que estão vivendo. Tanto como equipe, como jogadores. Eles têm uma obediência tática muito boa, são jogadores que se dedicam bastante. Tem que tomar muito cuidado, não param de correr. Se puderem dar porrada, também dão."
A obediência tática mencionada pelo zagueiro é exatamente o tipo de característica que pode incomodar um losango mal executado. O sistema exige que os quatro jogadores do meio-campo ajam como um bloco coeso — quando um avança, outro cobre. Se o Japão conseguir pressionar as transições brasileiras e isolar as pontas do losango, o Brasil pode voltar ao problema que teve contra Marrocos. Ancelotti sabe disso. E Militão também.
A diferença em relação ao amistoso de outubro é que agora o Brasil tem um sistema consolidado, dois jogos de rodagem no losango e a confiança de seis gols marcados sem sofrer nenhum nas últimas duas partidas. Militão deve estar no time titular — e não no banco, como estava quando o Japão venceu pela primeira vez na história. É o mesmo cenário que o Real Madrid viveu em 2024 ao chegar às semifinais da Champions sem convencer nos grupos — só que agora a aposta é o losango, e ele já mostrou que funciona.








