O ar rarefeito chega antes mesmo do apito inicial. A 2.850 metros acima do nível do mar, o estádio Casa Blanca, em Quito, transforma qualquer partida de futebol em algo fisiologicamente diferente — e a Lanús vai descobrir isso de novo na quarta-feira (20), às 21h30 (horário de Brasília), quando enfrenta a LDU pela quinta rodada do Grupo G da Libertadores.
A narrativa popular diz que altitude é altitude: todo time sofre igual, o mais técnico vence. Parece razoável. O problema é que os números não concordam.

O que a altitude faz com o futebol que ninguém vê no placar
A ciência do esporte já mapeou com precisão o que acontece acima dos 2.500 metros: a saturação de oxigênio no sangue cai entre 5% e 10% nos primeiros 60 minutos de esforço intenso para atletas não aclimatados. Na prática do futebol moderno, isso se traduz diretamente em métricas táticas. O PPDA (passes permitidos por ação defensiva, que mede a intensidade da pressão alta) despenca nos visitantes — times que normalmente pressionam com PPDA abaixo de 9 chegam a operar acima de 14 em jogos na altitude, simplesmente porque o fôlego não sustenta a pressão.
O Lanús, sob o comando do técnico Ricardo Zielinski, costuma trabalhar com uma linha de pressão adiantada e saída de bola rápida. O modelo funciona bem no nível do mar, em Fortin, onde a equipe argentina atua. Em Quito, essa mesma intensidade custa o dobro do esforço cardiorrespiratório — e os dados históricos de times do Rio da Prata em jogos na capital equatoriana mostram queda média de 23% nos progressive passes (passes que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário) em comparação com suas médias gerais na competição.
Outro dado que reorienta a leitura: o xG (expected goals) gerado por visitantes no Casa Blanca tende a ser inflado por chutes de fora da área — exatamente porque as equipes evitam as trocas de passes curtos que demandam mais movimentação. São finalizações de baixa qualidade que aparecem bonitas na estatística bruta, mas que o goleiro adversário agradece.
Lanús tem histórico concreto de dificuldades em Quito
Não é suposição. O Lanús carrega um histórico de resultados magros em jogos disputados acima dos 2.000 metros na Libertadores. Em visitas anteriores a times equatorianos e bolivianos no torneio, o clube argentino venceu apenas 1 dos últimos 6 confrontos disputados nessas condições geográficas — com 3 derrotas e 2 empates no recorte. A equipe que chega a Quito está em segundo lugar no Grupo G, mas sabe que um tropeço entrega a vaga diretamente para a LDU, que é a terceira colocada e precisa vencer para ultrapassar o rival.
Segundo análises publicadas pela imprensa argentina antes da viagem, a comissão técnica do Lanús já havia trabalhado a semana com foco em gestão de ritmo — reduzindo o volume de pressing nos treinos e priorizando blocos defensivos mais baixos para economizar energia. A ideia, parafraseando a linha tática descrita pelo staff, é absorver a pressão da LDU nos primeiros 30 minutos e explorar transições rápidas, aproveitando os espaços que o time equatoriano tende a deixar quando ataca em bloco alto.

O problema é que essa estratégia tem um custo: o xA (expected assists, que mensura a qualidade das chances criadas por passes) do Lanús cai consideravelmente quando a equipe recua o bloco. Em jogos onde o time argentino operou com mais de 55% do tempo sem bola, o xA gerado ficou abaixo de 0,6 por partida nesta Libertadores — insuficiente para vencer times de nível médio no continente.
A LDU não é apenas altitude — tem um modelo tático próprio
Aqui está o ponto que mais gente ignora: a LDU não depende só do fator geográfico para vencer em casa. O time equatoriano desenvolveu um estilo de jogo que potencializa o cansaço do adversário. Com um PPDA médio de 7.8 em casa nesta edição da Libertadores, a equipe de Quito está entre os times que mais pressiona no torneio — e faz isso de forma organizada, com saídas de bola rápidas e triangulações curtas que forçam o visitante a correr atrás da bola constantemente.
O pass network da LDU em jogos no Casa Blanca mostra alta densidade de conexões entre os meias e os laterais, criando sobrecargas nas faixas e obrigando o adversário a ampliar a cobertura lateral — o que, acima dos 2.800 metros, é um convite ao colapso físico no segundo tempo.
Mas será que o Lanús tem recursos táticos suficientes para neutralizar esse modelo durante 90 minutos?
A resposta honesta é: improvável, se mantiver o estilo habitual. A única saída realista para os argentinos é um gol cedo — preferencialmente nos primeiros 20 minutos, antes que a altitude comece a cobrar sua conta fisiológica — e uma gestão disciplinada do resultado, com bloco médio-baixo e transições objetivas. Historicamente, times visitantes que abriram o placar no Casa Blanca conseguiram segurar o resultado em 4 dos últimos 7 jogos da LDU na Libertadores.
A transmissão do confronto no Brasil fica por conta do Paramount+. Para quem está fora do país, a partida passa na beIN Sports (Estados Unidos, Canadá e Oriente Médio) e na plataforma Fanatiz.
Na sexta rodada, última da fase de grupos, cada time vai saber exatamente o que precisa. Mas quem perder nesta quarta-feira chega lá com a corda no pescoço — e o Grupo G se fecha sem espaço para erros.
Dois times entram no Casa Blanca. O ar fino de Quito decide quem sai de pé.












