A última vez que uma seleção europeia eliminou a Itália numa repescagem de Copa do Mundo e depois se tornou a primeira nação do mundo a anunciar seus convocados para o torneio foi... nunca. A Bósnia e Herzegovina escreveu essa frase inédita nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, quando o técnico Sergej Barbarez divulgou a lista com os 26 atletas que representarão o país na Copa do Mundo sediada em Canadá, Estados Unidos e México. Entre as 48 seleções classificadas, nenhuma se adiantou tanto — e o gesto tem um peso simbólico que vai além da burocracia federativa.

O homem que nasceu antes do país e ainda vai jogar a Copa

Quando a Bósnia e Herzegovina declarou independência, em março de 1992, Edin Dzeko tinha seis anos e morava em Sarajevo — cidade que, naquele mesmo ano, começaria a ser sitiada numa guerra que durou quase quatro anos. Hoje, com 40 anos, o centroavante é o maior artilheiro da história da seleção, com 73 gols em 148 partidas — média de 0,49 por jogo, o equivalente a marcar em cada dois confrontos disputados ao longo de quase duas décadas. Ele esteve presente em aproximadamente 54% de todos os jogos oficiais que a seleção já disputou como nação independente. Não é um jogador na lista: é a memória viva de um futebol que nasceu junto com um Estado.

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Dzeko defende atualmente o Schalke 04, clube que conquistou o acesso à Bundesliga nesta temporada 2025/2026 — um detalhe que diz muito sobre a trajetória de um atleta que poderia ter encerrado a carreira em grandes vitrines europeias, mas preferiu seguir jogando onde o futebol ainda tem cheiro de batalha. Sua convocação por Barbarez não surpreende ninguém; seria mais chocante a ausência.

A noite em Zenica que derrubou a Azzurra outra vez

Para chegar ao segundo Mundial da história, a Bósnia precisou de uma façanha que o futebol europeu ainda digere: eliminar a Itália na repescagem. O jogo disputado no Estádio Bilino Polje, em Zenica, terminou empatado em 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação — com Haris Tabakovic, do Borussia Mönchengladbach, marcando o gol que igualou o placar para os bósnios. Nas penalidades, a Bósnia converteu quatro cobranças contra apenas uma da Itália, placar de 4 a 1 nos pênaltis, repetindo o trauma azzurro que já havia ficado de fora das Copas de 2018 e 2022. Tabakovic, que também está na lista de Barbarez, tornou-se herói nacional numa única noite de março.

O homem que nasceu antes do país e ainda vai jogar a Copa A Bósnia abriu a lista
O homem que nasceu antes do país e ainda vai jogar a Copa A Bósnia abriu a lista
"A classificação veio de forma heroica", registrou a cobertura da imprensa bósnia após o jogo em Zenica — frase que resume a trajetória de um país que precisou construir sua identidade futebolística ao mesmo tempo em que reconstruía suas cidades.

A ironia histórica é considerável: a Bósnia foi uma das últimas seleções a carimbar o passaporte para o Mundial e, paradoxalmente, a primeira a apresentar o elenco completo. O anúncio desta segunda-feira antecipou convocações de gigantes como Brasil, Argentina, França e Alemanha, colocando Barbarez numa posição de protagonismo incomum para um treinador de uma seleção de médio porte europeu.

O Grupo B e a aritmética de uma segunda chance

Em 2014, no Brasil, a Bósnia estreou numa Copa do Mundo pela primeira vez na história e caiu na fase de grupos com duas derrotas e uma vitória. Perdeu para a Argentina por 2 a 1 e para a Nigéria por 1 a 0; venceu o Irã por 3 a 1, com gol de Dzeko. Doze anos depois, o desafio é superar exatamente esse teto.

O Grupo B de 2026 reúne Bósnia, Canadá, Suíça e Catar — adversários que, no papel, não intimidam da mesma forma que Argentina e Nigéria intimidavam em 2014. A estreia acontece no dia 12 de junho, contra o Canadá, no BMO Field, em Toronto, às 16h (horário de Brasília). Na sequência, a Bósnia enfrenta a Suíça em 18 de junho, em Los Angeles, e fecha a fase de grupos contra o Catar em 24 de junho, em Seattle.

O elenco convocado por Barbarez reflete uma geração espalhada por ligas de segundo e terceiro escalão europeu, mas com ilhas de qualidade real. Sead Kolasinac, ex-Arsenal e atual titular da Atalanta, traz experiência de Champions League para a defesa. Ermedin Demirovic, do VfB Stuttgart, é o nome mais cotado no mercado entre os atacantes. Amar Dedic, lateral do Benfica, representa a nova geração que cresceu sem ter visto a guerra, mas que carrega o peso da bandeira da mesma forma.

  • Goleiros: Nikola Vasilj (St. Pauli), Martin Zlomislic (Rijeka), Osman Hadzikic (Slaven Belupo)
  • Defensores: Kolasinac (Atalanta), Dedic (Benfica), Mujakic (Gaziantep), Katic (Schalke 04), Muharemovic (Sassuolo), Radeljic (Rijeka), Hadzikadunic (Sampdoria), Celik (Lens)
  • Meio-campistas: Hadziahmetovic (Hull City), Sunjic (Pafos), Basic (Astana), Burnic (Karlsruhe), Mahmic (Slovan Liberec), Tahirovic (Brøndby), Memic (Viktoria Plzeň), Gigovic (Young Boys)
  • Atacantes: Alajbegovic (Red Bull Salzburg), Bajraktarevic (PSV), Demirovic (Stuttgart), Lukic (Universitatea Cluj), Bazdar (Jagiellonia Białystok), Tabakovic (Borussia Mönchengladbach), Dzeko (Schalke 04)

A lista de espera

Barbarez também divulgou nove nomes que podem substituir convocados em caso de corte: Tarik Karic, Mladen Jurkas, Arjan Malic, Emir Karic, Jusuf Gazibegovic, Ifet Djakovac, Dario Saric, Amer Gojak e Haris Hajradinovic.

A pergunta que o futebol faz à Bósnia em 2026 é simples e brutal ao mesmo tempo: o que muda quando você já sabe como é chegar lá? Em 2014, a seleção chegou ao Brasil como novata absoluta, deslumbrada com a própria presença. Desta vez, há cicatrizes, há referências, há Dzeko com 12 anos a mais nas pernas — e há a memória de três jogos que terminaram cedo demais. A estreia no BMO Field, em Toronto, às 16h do dia 12 de junho, será o primeiro teste concreto de que essa memória virou aprendizado.