Diz-se que a Copa do Mundo de 2026 bateu recordes históricos de demanda por ingressos. Na verdade, as imagens transmitidas ao mundo nas primeiras rodadas sugerem que a relação entre demanda, venda e presença efetiva é bem mais complicada do que Gianni Infantino proclamou na véspera da abertura do torneio.
O que as câmeras mostraram no Akron e no BMO Field
A tensão começou logo nos primeiros dias da competição. Durante a partida entre Coreia do Sul e República Tcheca, no Estádio Akron, em Zapopan, México, blocos inteiros de cadeiras apareceram vazios em diferentes setores da arena. A cena se repetiu no BMO Field, em Toronto, na estreia do Canadá contra a Bósnia. Em ambos os casos, os registros circularam rapidamente nas redes sociais, alimentando dúvidas sobre o real interesse do público na Copa mais cara da história.
A Fifa respondeu com números precisos: 44.895 espectadores presentes no Akron, sobre uma capacidade de 45.664 — taxa de ocupação de 98%. A entidade, porém, foi obrigada a detalhar como chegou a esse percentual, o que abriu um debate metodológico que vai além das imagens.

A métrica da Fifa e o que ela não captura
A discrepância entre as imagens e os dados oficiais tem uma explicação técnica, mas ela não encerra a controvérsia. Em nota oficial, a entidade afirmou que os números de público refletem ingressos escaneados na entrada, e não a ocupação visual dos assentos em determinado momento do jogo.
"As figuras oficiais de comparecimento refletem o número de ingressos escaneados e de espectadores presentes dentro da área do estádio, em vez de avaliações visuais da ocupação dos assentos em qualquer momento dado durante a partida", declarou a organização.
A justificativa complementar da entidade aponta para um comportamento específico dos torcedores presentes naquela partida:
"Durante a partida, vários torcedores com ingressos puderam ser vistos em pé nos corredores em vez de permanecerem em seus assentos designados durante toda a partida", explicou a Fifa.
Do ponto de vista estatístico, a métrica adotada é similar ao que analistas de comportamento de audiência chamam de attendance rate bruto — um indicador que mede acesso ao recinto, não engajamento efetivo. Assim como o Win Shares no basquete mede contribuição individual sem capturar o esforço invisível, o número de ingressos escaneados diz quem entrou, mas não quem ficou sentado assistindo ao jogo. Para o torcedor que assiste pela televisão, a diferença é visível e concreta.
Preços que afastam quem comprou o ingresso
A questão mais sensível não é metodológica — é econômica. A política de preços dinâmicos adotada pela Fifa nesta edição gerou críticas antes mesmo da bola rolar. Na partida Coreia do Sul x República Tcheca, os ingressos mais baratos custavam US$ 400 (cerca de R$ 2.032), segundo o jornal especializado The Athletic, dando acesso apenas à lateral do anel superior. Para setores próximos ao campo, o piso era de US$ 500 (R$ 2.541). Nos setores de categoria premium, onde os vazios foram mais evidentes nas imagens, o valor unitário podia ultrapassar US$ 5.000 (R$ 25.410).
O fenômeno documentado em transmissões ao vivo sugere uma lógica perversa: quem pagou mais caro por um assento premium tende a circular pelo estádio — nos lounges, nos corredores VIP, nos pontos de alimentação — em vez de permanecer fixo na cadeira. O resultado visual é exatamente o que o mundo viu: fileiras desertas nos setores mais caros, enquanto as arquibancadas populares permaneceram ocupadas.
O próprio Infantino havia alimentado expectativas altíssimas dias antes. "Até hoje, vendemos seis milhões de ingressos. A demanda é sem precedentes, não por pouca coisa, mas em uma potência de 10 ou mais", declarou o presidente da Fifa na coletiva de imprensa pré-abertura. A frase, repetida amplamente pela imprensa internacional, tornou o contraste com as imagens ainda mais evidente.
Vistos, logística e o custo invisível de chegar ao estádio
Jornalistas e analistas que acompanham a Copa apontam, conforme registrado por SportNavo ao longo das primeiras rodadas, que os vazios não têm uma causa única. Além dos preços de ingresso, dois fatores estruturais pesam sobre o comparecimento efetivo: as dificuldades com emissão de vistos para torcedores de determinadas nacionalidades e o custo elevado de transporte e hospedagem nas três sedes — Estados Unidos, México e Canadá. A combinação desses elementos cria uma barreira financeira e burocrática que pode ter levado portadores de ingressos a desistir da viagem sem necessariamente devolver ou revender os bilhetes.

O mercado secundário, por sinal, atingiu patamares históricos. Ingressos para a final chegaram a ser anunciados por R$ 170 mil na revenda oficial, com casos extremos de plataformas não autorizadas cobrando R$ 10 milhões por um par de entradas. Esse nível de especulação não apenas encarece o acesso, como distorce o mercado primário e pode resultar em ingressos adquiridos por investidores que nunca pretenderam comparecer ao jogo.
A próxima rodada de partidas, com jogos previstos para os próximos dias nos três países-sede, será um novo teste para a Fifa. Se as imagens de cadeiras vazias se repetirem — especialmente em jogos sem torcidas locais mobilizadas —, a pressão sobre a entidade para revisar tanto a metodologia de divulgação de público quanto a política de preços dinâmicos deverá crescer de forma considerável entre federações, patrocinadores e transmissores que pagaram bilhões de dólares pelos direitos do torneio.








