Diz-se que o Paraguai voltou à Copa do Mundo apenas pela maturidade tática de Gustavo Alfaro. Na verdade, não voltou só por isso — e o motivo importa mais do que qualquer prancheta. A Albirroja reestreia nesta sexta-feira (12), às 22h (horário de Brasília), diante dos Estados Unidos no SoFi Stadium, em Inglewood, Califórnia, pelo Grupo D, após 16 anos de ausência. Esse número — 16 — é o ponto de partida para entender a dimensão do que está em jogo: a última aparição paraguaia num Mundial foi na África do Sul em 2010, quando a seleção chegou às quartas de final antes de ser eliminada pela Espanha, futura campeã pelo placar de 1 a 0, gol de David Villa. Nenhuma campanha mais longa do Paraguai em toda a sua história em Copas. Agora, o retorno vem carregado de camadas que transcendem a tabela classificatória.
16 anos de ausência e o peso histórico da melhor campanha paraguaia
A ruptura foi abrupta. O Paraguai disputou seis edições consecutivas de Copa do Mundo entre 1998 e 2010, atingindo o ápice na África do Sul com a campanha de quartas. Antes disso, a outra melhor participação tinha sido em 1986, no México, quando também chegou às oitavas. Entre 2014 e 2022, porém, três eliminatórias seguidas sem classificação. Para contextualizar o jejum: em 2014, o Brasil foi eliminado por 7 a 1 pela Alemanha; em 2018, a França conquistou seu segundo título; em 2022, Lionel Messi finalmente levantou a taça. O Paraguai assistiu a tudo isso de fora.
A classificação para 2026 veio nas eliminatórias sul-americanas com campanha irregular, mas suficiente — o formato ampliado para 48 seleções, com seis vagas diretas para a Conmebol, abriu a janela que o futebol paraguaio precisava. O aproveitamento da Albirroja nas eliminatórias ficou em torno de 47%, inferior ao do Brasil (62%) e Argentina (61%), mas superior ao do Bolívia e Equador no cômputo final. Sob a métrica de PPDA (passes por ação defensiva), indicador que mede a intensidade da pressão alta de uma equipe — quanto menor o número, maior a pressão —, o Paraguai de Alfaro operou em torno de 9,8 nas partidas eliminatórias em que aplicou seu bloco médio, número compatível com seleções de nível intermediário na Conmebol, sem a agressividade de um Uruguai de Bielsa, mas com organização defensiva acima da média regional.
O Guarani que Maurício aprendeu e que o Paraguai já conhece de cor
Aqui reside o dado que os relatórios técnicos não conseguem capturar. O idioma Guarani tornou-se língua cooficial do Paraguai pela Constituição de 1992 e é falado ou compreendido por ao menos 90% da população — índice sem paralelo na América Latina para uma língua indígena. Dentro do vestiário da Albirroja, ele funciona como código criptografado: instruções táticas, combinações de bola parada e chamadas de pressão são transmitidas em Guarani de modo que adversários em campo simplesmente não conseguem decodificar.
"A língua Guarani é o traço de identidade mais forte que o Paraguai tem. O mundo globalizado nos faz compartilhar elementos de nossa cultura e isso faz com que percamos certas características que antes eram exclusivas. No entanto, o Guarani, não. É o que nos diferencia do restante", explicou o historiador Fabián Chamorro à ESPN.
A explicação histórica para essa resistência cultural passa pela especificidade da colonização espanhola no território paraguaio. Diferentemente de Peru ou México, o Paraguai não tinha riqueza mineral atrativa, o que reduziu drasticamente as expedições ibéricas ao interior. Os primeiros colonizadores que chegaram se miscigenaram com mulheres guaranis, e foram essas mulheres que educaram as gerações mestiças subsequentes — transmitindo língua, costumes e cosmovisão indígena.
"Todas as primeiras gerações de mestiços falavam apenas Guarani, não tinham contato com a língua espanhola, e isso se fortaleceu ao longo dos séculos quando o Paraguai se isolou do mundo", detalhou o professor Chamorro.
Para o meia do Palmeiras, Maurício — naturalizado paraguaio em fevereiro de 2026 e convocado de última hora para completar as 26 vagas da lista final de Alfaro —, a adaptação exigiu um curso intensivo de Guarani. Não por protocolo cultural, mas por necessidade funcional: entrar em campo sem compreender os códigos do vestiário equivaleria a jogar com atraso de processamento. O próprio clube paulista confirmou que o processo de naturalização foi concluído ainda em 2026, com o meia integrando-se ao grupo em tempo suficiente para disputar amistosos preparatórios antes do Mundial.
O elenco que mistura Atlético de Madrid e Série A com Brasileirão
Gustavo Alfaro montou um grupo de 26 jogadores que equilibra experiência internacional e juventude com fome de palco. Gatito Fernández, goleiro veterano com passagens pelo Botafogo e hoje no futebol europeu, é o guardião titular com mais de 50 jogos pela Albirroja. Gustavo Gómez, zagueiro que defende o Palmeiras há anos com regularidade na Copa Libertadores e no Brasileirão, lidera a defesa paraguaia com autoridade — são mais de 60 partidas pela seleção. Junior Alonso, outro defensor experiente, e Miguel Almirón, meia com passagem de destaque pelo Newcastle na Premier League inglesa, compõem o núcleo de veteranos.
Na ponta jovem do elenco, Diego Gómez, que atua no Inter Miami ao lado de Lionel Messi, e Julio Enciso, revelação no Brighton da Premier League, representam a geração que nunca havia disputado uma Copa do Mundo. Enciso, especificamente, tem 20 anos e já acumula estatísticas de pressão ofensiva acima da média europeia em sua faixa etária. Maurício, o mais recente incorporado ao grupo, chega com 24 anos e bagagem de quem disputou a fase de grupos da Libertadores pelo Palmeiras em 2025, com sete participações diretas em gols na competição continental naquela temporada.
O Paraguai de 2026 não é favorito no Grupo D — os Estados Unidos jogam em casa e a Argentina chega como campeã defensora — mas a combinação de identidade cultural coesa, um código de comunicação indecifrável para adversários e a mistura geracional calculada por Alfaro coloca a Albirroja em posição de surpreender. O próximo compromisso da seleção paraguaia no grupo será em 16 de junho, diante da Argentina, jogo que medirá se os 16 anos de espera produziram uma equipe capaz de ir além da fase de grupos pela primeira vez desde aquela tarde de julho de 2010 em Joanesburgo, quando Xavi e Villa encerraram o melhor capítulo da história do futebol paraguaio.








