A última vez que Los Angeles recebeu uma abertura de Copa do Mundo, em 1994, Anitta tinha seis anos e morava no Honório Gurgel, subúrbio do Rio de Janeiro. Trinta e dois anos depois, na noite desta sexta-feira (12), ela está no centro do palco do SoFi Stadium, em Inglewood, diante de mais de 70 mil pessoas e de uma audiência global que ultrapassa centenas de milhões de espectadores — tudo isso antes de a bola rolar para Copa do Mundo estrear em solo americano com o confronto entre Estados Unidos e Paraguai, às 22h (horário de Brasília).

O calor de Los Angeles nesta noite de junho não é apenas climático. Há algo elétrico no ar de Inglewood. Os portões do SoFi abriram horas antes do jogo, e a fila que se formava ao longo da South Prairie Avenue misturava camisas da seleção americana, bandeiras guaranis e, surpreendentemente, camisetas com o rosto de Anitta estampado — vendidas por ambulantes logo na entrada do estacionamento. Não é exatamente o que se imagina ver numa abertura de Copa. Mas é exatamente o que acontece quando uma artista brasileira atravessa fronteiras culturais com a consistência que ela demonstrou na última década.

Como Anitta construiu o caminho até o maior palco do futebol

A trajetória da cantora carioca Larissa de Macedo Machado, 33 anos, conhecida mundialmente como Anitta, até o SoFi Stadium não foi obra do acaso. Em 2022, ela se tornou a primeira artista brasileira solo a alcançar o primeiro lugar no Spotify Global com Envolver — feito que nenhum nome da música popular brasileira havia conseguido antes. No mesmo ano, se apresentou no Coachella Festival, em Palm Springs, Califórnia, tornando-se referência de artista latina capaz de dialogar com o público anglo-saxão sem abrir mão das raízes. Nas palavras da própria cantora, em entrevista ao jornal The New York Times em 2023:

"Eu nunca quis ser americana. Eu queria que o mundo inteiro quisesse ser brasileiro."

Essa filosofia explica muito do que acontece no SoFi esta noite. A presença de Anitta na abertura do Grupo D não é apenas um número artístico — é uma declaração política e cultural da FIFA sobre qual Brasil o mundo quer consumir em 2026. O Brasil que não classificou sua seleção para disputar em casa, mas que exportou sua cultura com uma eficiência que nenhuma campanha de marketing governamental conseguiu replicar.

O show faz parte de uma cerimônia de abertura que a FIFA projetou para durar aproximadamente 40 minutos antes do apito inicial.

O Grupo D e a partida que o palco vai anunciar

Quando a música parar e o gramado do SoFi ficar para os jogadores, o que se verá em campo é uma partida com peso histórico considerável. Os Estados Unidos entram como anfitriões e como uma das seleções mais aguardadas do torneio — não apenas pelo resultado, mas pelo simbolismo de jogar diante da própria torcida numa Copa que o país ajudou a organizar ao lado do México e do Canadá. O técnico Mauricio Pochettino, que assumiu o comando da seleção americana em 2023, afirmou em coletiva nos últimos dias que

"jogar em casa na Copa do Mundo é uma responsabilidade que você carrega no peito, não uma vantagem que você usa como desculpa."

Como Anitta construiu o caminho até o maior palco do futebol Anitta no SoFi Stad
Como Anitta construiu o caminho até o maior palco do futebol Anitta no SoFi Stad

O Paraguai, por sua vez, retorna a uma Copa do Mundo depois de 16 anos de ausência — a última participação foi na África do Sul, em 2010, quando chegou até as quartas de final. A seleção guarani chega a Los Angeles como azarão declarado, mas com a motivação histórica de quem sabe que este pode ser o momento mais importante de uma geração inteira de jogadores.

O Grupo D ainda conta com Austrália e Turquia, que se enfrentam na madrugada de domingo (14), à 1h (de Brasília), em Vancouver, no Canadá. A abertura do grupo, portanto, já carrega o peso de definir quem sai na frente na corrida por uma das duas vagas nas oitavas.

O que a presença de Anitta revela sobre a Copa de 2026

Há um dado que não aparece nas estatísticas de audiência, mas que quem cobre eventos internacionais percebe com clareza: a Copa do Mundo de 2026 é, até agora, a edição mais orientada ao entretenimento extracampo da história recente do torneio. A abertura no México, em Guadalajara, já havia dado sinais disso. A do Canadá, em Vancouver, confirmou. E Los Angeles — cidade que é sinônimo de indústria do espetáculo — eleva esse conceito a outro nível.

Anitta não é a primeira artista a se apresentar numa abertura de Copa. Shakira, em 2010, e Jennifer Lopez, em 2014, já ocuparam esse espaço. A diferença é que nenhuma das duas chegou ao palco como fenômeno construído durante a era do streaming e das redes sociais com a velocidade que a brasileira demonstrou. Em matéria do SportNavo, publicada no início de junho, o crescimento de 340% nas buscas pelo nome de Anitta nos EUA nas últimas duas semanas foi documentado — número que reflete diretamente o impacto da divulgação de sua presença na cerimônia.

O impacto vai além do show em si. Cada vez que uma artista brasileira ocupa um palco dessa dimensão, o futebol ganha um veículo inesperado de expansão cultural. Torcedores que jamais acompanhariam uma partida de Copa passam a ter uma porta de entrada afetiva para o evento — e isso se traduz em audiência, em patrocínios e em uma presença do Brasil no imaginário global que transcende o desempenho da seleção canarinho.

O apito inicial de EUA x Paraguai está marcado para as 22h (de Brasília). Antes disso, os holofotes são de Anitta. Depois, o Grupo D começa a se definir — e a resposta sobre quem lidera a chave chegará já no domingo, quando Austrália e Turquia entram em campo em Vancouver às 1h da madrugada de segunda-feira (15).