4 pontos, saldo de gols em -2 e o destino entregue à combinação de oito resultados alheios. Esse é o retrato do Paraguai ao fim do Grupo D da Copa do Mundo de 2026, após o empate sem gols com a Austrália na madrugada desta sexta-feira (26), em Santa Clara. O número 4 condensa tudo: pontuação idêntica à dos australianos, mas insuficiente para garantir a classificação direta, já que a diferença de saldo — 0 para a Austrália contra -2 para o Paraguai — empurrou a seleção guarani ao terceiro lugar e à roleta dos melhores colocados nessa posição.

O que o Grupo D produziu e onde o Paraguai ficou

A classificação final do Grupo D espelhou uma hierarquia que se desenhou desde a primeira rodada. Os Estados Unidos terminaram na liderança com 6 pontos, mas saíram derrotados na última partida: a Turquia venceu os americanos por 3 a 2, com gols de Arda Güler (10'), Orkun Kökçü (31') e Kaan Ayhan (90+7'), enquanto os EUA marcaram com Auston Trusty (3') e Sebastian Berhalter (49'). Arda Güler, aos 20 anos, tornou-se o mais jovem turco a marcar em Copas, superando o recorde que pertencia a Emre Belözoğlu — um detalhe que passou despercebido no ruído das contas paraguaias, mas que tem peso histórico. A Turquia, apesar da vitória, terminou eliminada com apenas 3 pontos e na última colocação do grupo.

A Austrália, por sua vez, administrou o 0 a 0 com o Paraguai exatamente como precisava. O goleiro Mathew Ryan bloqueou as tentativas paraguaias na reta final, e os Socceroos avançaram em segundo lugar. Segundo registrado por SportNavo ao longo da cobertura da terceira rodada, o time australiano recuou completamente nos minutos finais, optando pela gestão do resultado em vez de arriscar o saldo de gols — decisão tecnicamente racional, dado que qualquer gol sofrido poderia complicar a própria classificação.

A herança de 2010 e o que ela revela sobre o DNA guarani em Copas

Para entender o Paraguai de 2026, convém revisitar a melhor campanha da história da seleção: a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Naquela edição, o time do técnico Gerardo Martino terminou o Grupo F com 5 pontos — empatou com a Itália (1 a 1), venceu a Eslováquia (2 a 0) com gols de Enrique Vera e Cristian Riveros, e ficou no 0 a 0 com a Nova Zelândia. Nas oitavas de final, eliminou o Japão nos pênaltis por 5 a 3, após empate sem gols nos 120 minutos. Nas quartas, enfrentou a Espanha — eventual campeã — e foi eliminado por 1 a 0, com gol de David Villa aos 83 minutos, numa partida em que Iker Casillas defendeu um pênalti paraguaio e Villa desperdiçou outro pelo lado espanhol.

O Paraguai de 2010 tinha nomes como Justo Villar, Paulo da Silva, Antolín Alcaraz e Roque Santa Cruz — geração que combinava experiência europeia com solidez defensiva. A seleção de 2026 ainda não atingiu aquele nível de coesão, mas mostrou resistência: em três jogos, foi derrotada apenas pela Turquia (1 a 0) e pela Austrália (2 a 0 na primeira rodada), antes de segurar o 0 a 0 na despedida do grupo. Gustavo Gómez e Fabián Balbuena formaram uma dupla de zaga que, na maior parte do tempo, limitou as chegadas adversárias.

As oito combinações que decidem o futuro paraguaio

A matemática da Copa de 2026 estabelece que oito terceiros colocados avançam às oitavas de final. O Paraguai, com 4 pontos e saldo -2, precisa que nenhuma combinação específica de resultados se materialize simultaneamente nos grupos E, F, G e H. A seleção fica fora se: Bélgica vencer a Nova Zelândia; Irã superar o Egito sem goleada; Uruguai bater a Espanha; Cabo Verde vencer a Arábia Saudita; Áustria e Argélia empatarem; RD Congo derrotar o Uzbequistão; Portugal não ser goleado pela Colômbia; e Croácia não perder de Gana (nem vencer por mais de 2 a 0). São oito condições encadeadas — e a confiança paraguaia reside exatamente na improbabilidade estatística de todas elas ocorrerem ao mesmo tempo.

Uma métrica que contextualiza o desempenho ofensivo paraguaio é o xG — expected goals, ou gols esperados com base na qualidade das finalizações. O conceito, que mede a probabilidade de cada chute se converter em gol considerando posição, ângulo e pressão defensiva, indica que o Paraguai gerou oportunidades abaixo do esperado nos três jogos. Simplificando: a seleção criou menos chances de alta qualidade do que times com pontuação equivalente costumam criar — o que explica o saldo negativo e a dependência de um cenário externo favorável.

Se avançar, o Paraguai enfrentaria a Alemanha, líder do Grupo E. A partida está programada para segunda-feira (1º de julho), às 17h30, em Boston. O histórico de confrontos diretos entre os dois países em Copas é escasso — não se encontraram nas fases eliminatórias de nenhuma edição anterior —, o que tornaria o duelo inédito em termos de pressão e contexto.

O que o Paraguai pode projetar se sobreviver à espera

Enfrentar a Alemanha nas oitavas de 2026 seria, objetivamente, o confronto mais difícil possível para uma seleção que chegou até ali como terceiro colocado com saldo negativo. A Mannschaft de Julian Nagelsmann liderou o Grupo E com autoridade e chega à fase eliminatória como uma das favoritas ao título. O Paraguai, por outro lado, teria a vantagem psicológica de não ter nada a perder — o mesmo espírito que levou a geração de 2010 às quartas de final.

O meia Maurício, do Palmeiras, entrou no segundo tempo contra a Austrália e melhorou a criação paraguaia — sinal de que o técnico Daniel Garnero tem opções do banco que podem mudar o padrão de jogo. A entrada do jogador brasileiro naturalizado foi o principal ajuste tático da partida, segundo análises da imprensa sul-americana. Mas qualquer planejamento para as oitavas depende, antes, de o Paraguai sobreviver à noite de resultados nos outros grupos.

"A seleção está confiante de que conseguirá passar entre os oito melhores terceiros colocados, pois apenas uma combinação específica de oito resultados impediria isso", conforme relatado pela imprensa brasileira após o apito final em Santa Clara.

O Paraguai aguarda. Quatro pontos, oito resultados, uma vaga. Se o cenário se confirmar favorável, Boston recebe Paraguai x Alemanha na segunda-feira.