10 gols marcados, 4 sofridos e a primeira posição do Grupo F: a Holanda chegou às oitavas de final da Copa do Mundo com números que lembram, em proporção, a campanha da equipe de 1998 treinada por Guus Hiddink — que também avançou em primeiro de sua chave antes de chegar às semifinais. A diferença é que, naquela Copa na França, os holandeses sabiam exatamente quem teriam pela frente. Agora, Virgil van Dijk sabe também: Marrocos, segundo colocado do grupo do Brasil, e um dos times mais difíceis de se marcar gol neste torneio.

A Holanda que cresceu sem chamar atenção

Há uma lógica silenciosa na campanha holandesa na fase de grupos. Contra a Suécia, empate que soou como tropeço. Contra o Japão, vitória que exigiu concentração até o apito final. Contra a Tunísia, goleada que fechou a chave com saldo positivo. Não é a Laranja Mecânica de 1974, com Cruyff ditando o ritmo do futebol total. Mas é uma equipe funcional, com identidade defensiva clara e capacidade de transição rápida — o tipo de time que vence Copas sem ser o mais bonito da festa.

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"Eu acho que a gente tem crescido no torneio. Obviamente, a gente esteve, nos meus olhos, num grupo complicado: Japão, Tunísia e Suécia. Muitas coisas aconteceram nesses jogos. Vai ser um jogo bem complicado contra Marrocos, que é um time muito bom, na minha opinião", disse Van Dijk em entrevista à Cazé TV.

A declaração do zagueiro do Liverpool não é protocolar. Marrocos chegou ao mata-mata como segundo colocado no grupo do Brasil, o que já diz tudo sobre o nível da equipe comandada tecnicamente. Nas três partidas da fase de grupos, os marroquinos demonstraram organização defensiva comparável à da Argélia de 2014 — aquela que eliminou a Coreia do Sul e levou a Alemanha ao limite antes de ser eliminada nas oitavas. A diferença é que este Marrocos tem mais qualidade ofensiva do que aquela geração argelina.

Van Dijk e o peso de uma despedida que ninguém quer nomear

Aos 34 anos, Van Dijk carrega consigo a consciência de que esta pode ser sua última Copa do Mundo. O zagueiro, que estreou pela seleção holandesa em 2015 e acumula mais de 60 partidas pelo país, preferiu desviar do tema quando questionado sobre o assunto.

"Eu acho que não é o momento de falar da minha carreira. Obviamente, eu quero aproveitar o máximo possível, ganhando jogos, sendo importante. Esse é o meu foco principal. E tomara que seja assim", completou o capitão holandês.

Há algo de Maldini nessa postura — o italiano que jogou sua última Copa em 2002, aos 33 anos, sem nunca ter levantado a taça, mas com a dignidade de quem nunca transformou a própria narrativa em espetáculo. Van Dijk tem esse mesmo perfil: líder que fala com os pés, não com o microfone. Contra Marrocos, a liderança dele na zaga holandesa será testada por atacantes que combinam velocidade e imprevisibilidade.

A Holanda que cresceu sem chamar atenção Van Dijk foge do Brasil e agora Marroco
A Holanda que cresceu sem chamar atenção Van Dijk foge do Brasil e agora Marroco

A 'fuga' do Brasil e o que ela significa no chaveamento

Terminar em primeiro no Grupo F teve uma consequência prática imediata: a Holanda evitou o Brasil nas oitavas. Van Dijk foi direto sobre o assunto, sem fingir que o resultado não importou.

"A gente vê o Brasil com tanta qualidade. Eu assisto o Brasil desde que eu sou menino. O Brasil é um país especial. Não vamos enfrentá-los, então a gente não precisa se preocupar com o Brasil agora. Vamos focar no Marrocos. Esse é o nosso principal objetivo agora", afirmou o capitão holandês.

Não há tragédia nisso: há contabilidade. A Holanda de 1974 perdeu a final para a Alemanha Ocidental. A de 1978 perdeu para a Argentina. A de 2010 perdeu para a Espanha. Três finais, zero títulos — uma sequência que persegue a seleção laranja como uma conta que nunca fecha. Evitar o Brasil nas oitavas é, ao mesmo tempo, um alívio tático e uma pressão psicológica: o caminho ficou mais aberto, o que significa que qualquer eliminação precoce terá menos desculpas disponíveis.

O que Marrocos representa no caminho holandês à semifinal

Historicamente, a Holanda tem dificuldade contra seleções africanas organizadas. Em 2010, na África do Sul, os holandeses venceram a Costa do Marfim por 2 a 1 na fase de grupos, mas o jogo foi muito mais disputado do que o placar sugere. Marrocos, em comparação, tem um nível coletivo superior àquela geração marfinense — e a Copa do Mundo de 2022 no Qatar ainda está fresca na memória: os africanos chegaram às semifinais, eliminando Espanha e Portugal no caminho, algo que nenhuma seleção africana havia feito antes na história do torneio.

Para a Holanda, o duelo nas oitavas é, portanto, um teste de maturidade. Vencer Marrocos abre caminho para uma possível semifinal contra o vencedor de Brasil x Japão — e é exatamente aí que o chaveamento se torna narrativa. Van Dijk sabe que o torneio foi construído para que os grandes se encontrem tarde. A partida contra os marroquinos está marcada para o próximo fim de semana, e a Holanda entra em campo com a vantagem de quem terminou em primeiro — mas com a consciência de que, neste torneio, vantagem no papel não vale muito dentro de campo.