A última vez que um árbitro foi afastado de uma Copa do Mundo por conduta discriminatória foi em 1990, quando a Fifa suspendeu o mexicano Arturo Brizio Carter após episódios de favorecimento sistemático denunciados por delegações africanas — um caso que levou dois anos para ser formalmente encerrado. No domingo, 14 de junho de 2026, o australiano Shaun Evans, responsável pela supervisão do VAR na partida entre Alemanha e Curaçao, repetiu a estrutura daquele precedente em tempo real: um gesto captado pelas câmeras da transmissão oficial, repercussão imediata nas redes sociais e uma entidade máxima do futebol sendo cobrada a agir antes que o torneio avance.
O que as câmeras registraram durante a apresentação da equipe de VAR
Durante a transmissão oficial da partida, válida pela primeira rodada do Grupo E da Copa do Mundo 2026, a equipe de árbitros de vídeo foi apresentada ao público. Nesse momento, Evans apareceu com a mão direita posicionada abaixo da linha da cintura, unindo as pontas do polegar e do indicador em círculo, com os demais dedos estendidos. O gesto, feito com a palma voltada para baixo, assemelha-se ao sinal de "OK" invertido. A combinação visual — o círculo formado pelos dois dedos representando a letra "P" e os três dedos estendidos formando um "W" — é lida por grupos supremacistas brancos como abreviação de White Power, "Poder Branco". Embora a partida tenha sido disputada em Houston, os árbitros de vídeo operam a partir do centro de transmissão da Copa do Mundo, em Dallas.
Como um sinal de "OK" foi cooptado pela extrema direita entre 2017 e 2019
A trajetória desse gesto como símbolo de ódio tem data e origem documentadas. Em 2017, usuários do fórum americano 4chan iniciaram uma campanha deliberada para transformar o sinal de "OK" — gesto cotidiano sem conotação política — em código de identificação de supremacistas brancos. A estratégia era criar ambiguidade: quem fosse questionado poderia alegar inocência, argumentando tratar-se de um simples "tudo bem". O plano funcionou parcialmente como provocação, mas o gesto foi progressivamente adotado por integrantes reais de movimentos de extrema direita. Em 2019, a Anti-Defamation League (ADL), organização antirracismo sediada em Nova York, incluiu o sinal em sua base de dados oficial de símbolos de ódio, conferindo-lhe reconhecimento institucional como marcador discriminatório.
Evans, que iniciou a carreira como árbitro profissional em 2004 e é filiado à Federação de Futebol da Austrália, já havia atuado como VAR na Copa do Mundo de 2022, no Catar. Até o momento em que esta reportagem foi apurada pelo SportNavo, o árbitro não havia emitido qualquer declaração pública sobre o episódio.
O pedido de afastamento e a apuração aberta pela Fifa
Na segunda-feira, 15 de junho, a Fare Network — parceira oficial da Fifa e da UEFA no monitoramento de símbolos discriminatórios em partidas internacionais — emitiu comunicado solicitando o afastamento imediato de Evans de todas as funções remanescentes no torneio.
"Segundo nossos especialistas, o gesto utilizado se assemelha claramente ao sinal de 'OK' invertido, empregado como símbolo de 'poder branco' em círculos da extrema direita global", afirmou a Fare em nota oficial.
"É evidente que esse oficial não deveria exercer mais nenhuma função nesta Copa do Mundo", declarou a organização, classificando o gesto como "neonazista".
A Fifa confirmou a abertura de uma apuração formal sobre o caso. A Federação de Futebol da Austrália foi procurada para comentar, mas não havia se manifestado até o fechamento desta edição. A investigação segue em curso sem prazo divulgado publicamente.
O que a Fifa pode fazer e o precedente que este caso abre para o torneio
Do ponto de vista institucional, a Fifa dispõe de mecanismos concretos para agir. O Código Disciplinar da entidade prevê sanções que vão do afastamento temporário à suspensão permanente de credenciais para competições oficiais, aplicáveis a qualquer membro da equipe de arbitragem. O monitor de discriminação da entidade — figura criada justamente para casos como este — já emitiu sua recomendação formal, o que confere peso institucional ao pedido de afastamento.
A ambiguidade do gesto, contudo, torna a apuração tecnicamente complexa. A ADL reconhece, em sua própria documentação, que o sinal de "OK" permanece um gesto neutro na maioria dos contextos — o que significa que a Fifa precisará avaliar intenção, contexto e eventual histórico do árbitro. Casos anteriores de discriminação no futebol internacional mostram que a entidade raramente age com rapidez quando a prova é gestual e não verbal: a investigação do episódio envolvendo torcedores búlgaros em 2019, por exemplo, consumiu seis semanas antes de resultar em punição.
O que diferencia o caso Evans dos precedentes típicos é o palco — uma Copa do Mundo com audiência global — e o fato de o gesto ter sido captado pela transmissão oficial, não por câmeras de torcedores. Dentro de campo, a partida transcorreu sem polêmicas arbitrais: a Alemanha goleou Curaçao por 7 a 1, com dois gols de Kai Havertz e um de Jamal Musiala. O placar já não é o que o torneio vai lembrar daquela tarde em Houston.
A Fifa tem até o fim da fase de grupos — programada para 26 de junho — para decidir se Evans continua credenciado. Uma câmera estática, um gesto de dois segundos, e o centro de transmissão de Dallas virou o epicentro de uma crise que o futebol mundial já conhecia, mas esperava não rever numa Copa.








