A fumaça do charuto ainda não havia se dissipado no bar de Newark quando Dana White soltou a bomba numa livestream com a influenciadora Nina Drama: ele seria o promotor do confronto entre Tyson Fury e Anthony Joshua, a luta que o boxe pesado esperou por anos. Eram os bastidores do UFC 328, e o presidente do UFC falava com a naturalidade de quem já tem o contrato assinado na gaveta. O problema é que, do outro lado do Atlântico, dois dos promotores mais poderosos do boxe mundial garantem que esse contrato não existe — ao menos não com o nome de White nele.

O que Dana White afirma e o que os promotores respondem

White reforçou a declaração no press conference pós-evento da Zuffa Boxing 07, realizado em Bournemouth no dia 6 de junho de 2026. Quando pressionado sobre as negações de Eddie Hearn, ele respondeu com uma pergunta retórica:

"Do you think I would publicly lie and that I would look like a f***ing idiot in front of everybody? What would be the point of that?"
Ele ainda afirmou saber o local do evento e alegou ter negociado os contratos da luta.

A resposta de Eddie Hearn, chairman da Matchroom Boxing — que acompanha Joshua desde sua estreia profissional em 2013 —, foi cirúrgica em termos contratuais. Em entrevista à IFL TV, Hearn declarou:

"Dana White had nothing to do with the fight negotiations. It was done between myself and Sela and the entire legal team there for about three months. Dana White had absolutely nothing to do with the fight negotiation with Tyson Fury either. Unquestioned."
Hearn ainda detalhou que o contrato contém uma cláusula específica proibindo qualquer envolvimento promocional de Zuffa, TKO ou entidades associadas — e que essa cláusula foi inserida a pedido de Joshua e de seu próprio escritório.

Frank Warren, fundador da Queensberry Promotions e promotor de Fury, foi ainda mais direto ao Fight Hub TV: "He's not [promoting the fight]. The contract with Tyson says Zuffa will not be allowed to promote that fight. I don't know why Dana White said he will be. It's bulls***." Warren e Hearn identificaram os quatro nomes que, segundo eles, vão efetivamente conduzir o evento: Hearn, Warren, Spencer Brown e o financiador saudita Turki Alalshikh.

O poder de Turki Alalshikh e o papel real da Zuffa Boxing Dana White diz que pro
O poder de Turki Alalshikh e o papel real da Zuffa Boxing Dana White diz que pro

O poder de Turki Alalshikh e o papel real da Zuffa Boxing

No centro de toda essa disputa está uma figura que raramente aparece nos holofotes da imprensa esportiva ocidental: Turki Alalshikh, o magnata saudita que detém os direitos da transmissão da luta via Netflix e que financia o evento. Hearn admitiu que White pode ter tido conversas informais com o MGM Grand de Las Vegas sobre possíveis locais — mas ressaltou que isso não configura participação promocional, especialmente porque o contrato exige que a luta aconteça no Reino Unido, cláusula que, segundo Hearn, White sequer conhece.

A Zuffa Boxing, lançada por White após o sucesso de Canelo Álvarez vs. Terence Crawford em setembro de 2025, tem crescido com eventos menores no UFC Apex e, agora, com uma parceria com a Sky no Reino Unido. O modelo de White é o de um promotor-agregador: ele entra em negociações de alto nível, usa o peso político do TKO Group e da marca UFC para abrir portas, mas frequentemente esbarra nas estruturas contratuais já consolidadas do boxe tradicional — estruturas que Hearn e Warren dominam com décadas de experiência.

A questão técnica aqui é de chain of command: quem controla o sanctioning body, quem assina o bout agreement e quem aparece no ringside como promotor oficial são funções distintas. White pode ter operado como um intermediário de Alalshikh junto a venues e broadcasters, sem que isso lhe confira o título formal de promotor — função que, por cláusula contratual, está bloqueada para ele.

Fury recusa MMA e o contexto que explica a declaração de White

Há um subtexto relevante nessa guerra de narrativas. White tem histórico de tentar atrair Fury para o universo do MMA — chegou a sugerir um confronto entre o boxeador inglês e Jon Jones sob regras do Ultimate. Fury respondeu sem rodeios, em suas redes sociais: "If they want to fight me, it will have to be under boxing rules. I don't roll around on the floor. I stand and throw punches." A declaração revela que Fury mantém fronteiras claras entre os dois mundos — e que a relação com White é de interesse mútuo, não de lealdade.

Esse histórico ajuda a contextualizar por que White insiste em associar seu nome à luta. A Zuffa Boxing precisa de credibilidade no boxe profissional de alto nível, e nada constrói esse capital simbólico mais rápido do que ser associado ao maior confronto do peso-pesado em anos. White entende de positioning como poucos: da mesma forma que um lutador usa o clinch para neutralizar o striking do adversário e ditar o ritmo da luta, ele usa declarações públicas para ocupar espaço na narrativa — mesmo que o contrato diga o contrário.

O repórter Steven Muehlhausen, do DAZN, consultou múltiplas fontes após o UFC 328 e confirmou que White não será o promotor oficial. A luta, prevista para o segundo semestre de 2026 no Reino Unido, deve ter Hearn e Warren como figuras centrais da promoção, com Alalshikh como financiador e a Netflix como plataforma de transmissão — o mesmo modelo que transformou o boxe em produto de streaming global. A próxima movimentação concreta será a confirmação do local e da data, e essa decisão caberá a Alalshikh, não a White.