Diz-se que a Argélia chegou à Copa do Mundo 2026 sem consistência defensiva suficiente para sobreviver à fase de grupos. Na verdade, não é bem isso — e o que aconteceu no Levi's Stadium em San Francisco na madrugada desta terça-feira (23/06) mostra exatamente por quê essa leitura era apressada.
Os Fennecs viraram sobre a Copa do Mundo 2026 da Jordânia por 2 a 1, saindo de uma situação de desvantagem para conquistar três pontos que mantêm viva a classificação ao mata-mata. Nizar Al Rashdan abriu o placar para os jordanos, mas Nadhir Benbouali empatou e Amine Gouiri — um dos nomes mais aguardados da geração argelina — virou o marcador e garantiu a vitória africana.
O Grupo J antes da rodada final
Antes de entrar no jogo em si, o contexto do Grupo J já era bastante claro: a Argentina havia derrotado a Áustria por 2 a 0 mais cedo, com doblete de Lionel Messi, e garantiu a liderança com seis pontos. Isso significa que a briga pelo segundo lugar ficou entre Áustria (3 pontos) e Argélia (3 pontos), que se enfrentam na última rodada. A Jordânia, eliminada com zero pontos, encara a Argentina numa partida sem nenhuma implicação classificatória.
A situação é curiosa: Argélia e Áustria jogarão sabendo de todos os outros resultados, e um empate pode ser suficiente para que ambas avancem — a Áustria como segunda colocada por saldo de gols, e a Argélia como um dos melhores terceiros. Como registrado por SportNavo ao longo da cobertura do grupo, essa dinâmica de jogar com os resultados em mãos é uma das grandes novidades do formato expandido desta Copa com 48 seleções.
O primeiro tempo que quase eliminou a Argélia
A Jordânia entrou em campo com o mesmo ADN defensivo que surpreendeu a Áustria na estreia — um bloco baixo, transições rápidas e Al-Tamari livre para criar no lado esquerdo. O time do técnico Jamal Sellami, que chegou ao Mundial após dez tentativas frustradas de classificação em quatro décadas, mostrou organização real: com apenas 33% de posse na partida anterior contra a Áustria, havia conseguido 11 finalizações.
Contra a Argélia, a aposta foi semelhante. Nizar Al Rashdan aproveitou uma falha de cobertura argelina para abrir o placar, e o cenário virou pesadelo para o técnico Vladimir Petkovic — já que uma derrota praticamente eliminaria os Fennecs antes da última rodada.
Aqui entra uma métrica que explica muito do que aconteceu no primeiro tempo: o PPDA (passes permitidos por ação defensiva), que mede a intensidade da pressão alta de um time. A Jordânia operou com PPDA alto, ou seja, recuou e deixou a Argélia circular — mas tornou o espaço entre as linhas extremamente comprimido. Isso explica por que os argelinos tiveram dificuldade para criar chances de qualidade mesmo com bola.
A virada e o que os números revelam sobre Gouiri e Benbouali
O segundo tempo foi diferente. Petkovic ajustou o posicionamento dos meias e a Argélia começou a usar progressive passes com mais frequência — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário, um dos indicadores mais confiáveis de pressão ofensiva sustentada.
Benbouali empatou e abriu caminho para o que viria a seguir. Gouiri, que atua em clubes europeus e carrega uma das maiores expectativas da geração argelina atual, converteu o gol da virada. O atacante terminou a partida com o maior xG individual (expected goals — a probabilidade estatística de um chute se transformar em gol, baseada em posição, ângulo e tipo de finalização) entre todos os jogadores em campo. Isso significa que ele não só marcou: ele criou as melhores situações de finalização do jogo.
Benbouali, por sua vez, contribuiu com duas defensive actions no campo adversário antes do gol — uma métrica que mede recuperações de bola fora do próprio campo, e que indica agressividade tática no terço ofensivo. Quem não tem cão caça com gato, e a Argélia sem Mahrez titular encontrou em Benbouali e Gouiri os recursos para virar o jogo.
- xG Argélia no jogo: ~1.8 (acima da média esperada para times que saem atrás no placar)
- xG Jordânia: ~0.9 (aproveitou bem o único gol que o xG indicava como provável)
- Progressive passes Argélia no 2º tempo: volume visivelmente superior ao primeiro tempo, forçando a Jordânia a recuar ainda mais
- Defensive actions no campo adversário: Benbouali liderou entre os argelinos, com 2 recuperações no terço ofensivo
O que Petkovic disse e o que a Argélia precisa fazer agora
Segundo o técnico Petkovic, a equipe precisava mostrar caráter após a goleada por 3 a 0 sofrida diante da Argentina — partida em que Messi marcou hat-trick. Nas palavras do treinador, "os jogadores responderam da forma certa quando o jogo ficou difícil" — uma referência direta à reação após o gol jordaniano.
"Sabíamos que este grupo tinha qualidade para reagir. O primeiro gol sofrido foi um teste de caráter, e eles passaram nesse teste."
A Jordânia, por sua vez, encerra sua participação no Mundial com zero pontos, mas com a dignidade de quem chegou ao seu primeiro torneio após dez tentativas de classificação e competiu de igual para igual em partes de ambas as partidas. O técnico Sellami reconheceu a eliminação, mas destacou que "a experiência desta Copa será o alicerce para o futuro do futebol jordaniano".
Para a Argélia, o cenário agora é concreto: um empate contra a Áustria no sábado pode ser suficiente para avançar como melhor terceiro colocado, dependendo dos outros grupos. A partida acontece na mesma hora em que Argentina e Jordânia se enfrentam — e os Fennecs jogarão com todos os números na tela, sabendo exatamente o que precisam para seguir na Copa do Mundo 2026.








