Existe alguma maldição capaz de sobreviver a décadas, trocar de geração e ainda assim aparecer na hora mais inoportuna? A Argentina entra em campo nesta terça-feira contra a Argélia carregando um histórico que nenhum torcedor alviceleste gosta de lembrar: nas duas únicas vezes em que estreou numa Copa do Mundo como atual campeã, a seleção argentina não saiu de campo com os três pontos. Nem uma vez.
O dado não é mero folclore. É registro. É placar. É dor. E agora, sob o peso do título conquistado no Catar em 2022, a Argentina precisa responder a uma pergunta que dois grupos de jogadores — em anos muito diferentes — não conseguiram: como se vence o primeiro jogo sendo o alvo de todo mundo?
Duas derrotas, dois títulos perdidos e um padrão assustador
Julho de 1990. San Siro respirava aquele calor úmido de Milão que gruda na camisa e não larga. A Argentina entrava em campo como campeã do mundo, com Diego Maradona na faixa de capitão, favorita diante de uma seleção de Camarões que poucos levavam a sério. O que aconteceu a seguir entrou para a história do futebol: Omam-Biyik marcou o único gol da partida, e os camaroneses venceram por 1 a 0. Derrota. Na estreia. Como campeã.
Oito anos antes, em 1982, na Espanha, o roteiro foi quase idêntico. A Argentina chegava ao torneio com a taça de 1978 ainda fresca na memória. Mas Erwin Vandenbergh marcou para a Bélgica, e os hermanos saíram derrotados por 1 a 0 logo na abertura. A campanha desabou na segunda fase, com uma derrota para o Brasil, e a eliminação chegou antes das semifinais.
Dois jogos. Dois resultados idênticos no placar. Furou.
Há um detalhe que aprofunda o peso desses números: em 1990, apesar do tropeço inicial, a Argentina chegou à final — e perdeu para a Alemanha por 1 a 0. Vice-campeonato. Como se a maldição da estreia ecoasse até o jogo mais importante.
O que o histórico das campeãs revela sobre a Copa de 2026
A Argentina não está sozinha nesse clube de campeões que tropeçaram na largada. O padrão se repete com frequência desconcertante. Em 2018, a Alemanha — campeã em 2014 — perdeu para o México por 1 a 0 e acabou eliminada na fase de grupos. Em 2014, a Espanha campeã de 2010 sofreu uma goleada histórica: 5 a 1 para a Holanda logo na estreia. Em 2002, a França de Zidane, bicampeã, foi derrotada pelo Senegal por 1 a 0 e também caiu na primeira fase.
A exceção mais recente foi a França em 2022, que atropelou a Austrália por 4 a 1 e quebrou uma sequência negativa que já durava anos. Mas mesmo os próprios argentinos sabem que estreias em Copa não são simples — na edição do Catar, eles mesmos perderam para a Arábia Saudita de virada, por 2 a 1, antes de se recuperar e conquistar o título.

"Scaloni usou o jogo do Brasil contra o Marrocos como alerta para a equipe sobre o que a Argélia pode fazer", segundo análises publicadas na imprensa argentina às vésperas da partida.
O Brasil, por sua vez, nunca perdeu uma estreia como então campeão. Em cinco oportunidades — 1962, 1966, 1974, 1998 e 2006 —, o máximo que a Seleção cedeu foi um empate, o 0 a 0 contra a Iugoslávia em 1974. Um dado que contrasta diretamente com o histórico argentino nessa condição específica.
A Argélia como teste e a pressão que não vem só das arquibancadas
O adversário desta terça não é qualquer seleção. A Argélia chega à Copa do Mundo 2026 com motivação extra — e com memória. A última participação argelina num Mundial foi em 2014, quando a seleção chegou às oitavas de final e levou a Alemanha ao prolongamento antes de ser eliminada por 2 a 1. Doze anos depois, o futebol argelino voltou ao palco mais importante do mundo querendo mostrar que aquela campanha não foi acidente.
Do lado argentino, a ausência que pesa é conhecida. Lionel Messi, 38 anos, não estará em campo nesta Copa — o maior jogador da história da seleção se aposentou do futebol internacional após o título de 2022. Scaloni precisou reinventar o time, testando esquemas com quatro e cinco defensores durante a preparação, e chega ao torneio com um grupo que carrega o escudo do campeão, mas não a mesma certeza de 2022.
"Somos campeões, mas isso não nos dá nada automaticamente aqui", disse Rodrigo De Paul em entrevista coletiva antes do embarque para os Estados Unidos — uma declaração que soa mais como aviso do que como modéstia.
A partida está marcada para as 22h (horário de Brasília) desta terça-feira. Se a Argentina perder ou empatar, o fantasma de 1982 e 1990 vai ganhar nome e endereço em 2026. Se vencer, quebra um jejum de 44 anos sem vitória na estreia como detentora do título mundial.








