Todo mundo sabe que Endrick não jogou um minuto sequer contra Marrocos no MetLife Stadium, em East Rutherford, no sábado (13). O que pouca gente entendeu é por que um atacante de 19 anos que marcou o gol da vitória sobre o Egito no amistoso preparatório ficou 90 minutos no banco enquanto o Brasil empatava em 1 a 1 e saía de campo vaiado. Essa é a parte que precisa ser contada com calma.

A lógica de Ancelotti e o tabuleiro ofensivo que excluiu Endrick

Carlo Ancelotti não impõe hierarquias por capricho. O treinador italiano, que passou por Real Madrid, Bayern de Munique e AC Milan ao longo de quatro décadas de carreira, costuma construir sua confiança em um jogador com base em critérios que vão além do talento bruto: disciplina tática, movimentação sem a bola, regularidade de desempenho ao longo da temporada. Endrick, mesmo sendo convocado e mesmo tendo marcado contra o Egito, não acumulou minutos suficientes para entrar na hierarquia de Ancelotti como primeira escolha ofensiva.

A análise de Ronaldo Fenômeno, feita ao programa Resenha da Copa, da ESPN, foi direta ao ponto.

"Eu tenho certeza de que ele vai ter a oportunidade. Ele vai entrar em algum momento, mas agora mesmo ele é a terceira opção no ataque. Tem Igor Thiago, tem Matheus Cunha e depois ele."

O ex-centroavante bicampeão mundial ainda tentou contextualizar o que impediu Endrick de entrar contra Marrocos: segundo Ronaldo, a substituição forçada de Bruno Guimarães — que pediu para sair durante o segundo tempo — desequilibrou os planos da comissão técnica, que precisou recompor o meio-campo antes de pensar em reforçar o ataque.

"Eu acho que ele entraria no jogo se não fosse a substituição, que eu acho que o Bruno Guimarães pediu para ser substituído. É um detalhe importante, porque com certeza o Ancelotti ia buscar a vitória."

O problema é que essa explicação, por mais razoável que seja do ponto de vista tático, não apaga o fato concreto: o Brasil não conseguiu furar a defesa marroquina durante os 90 minutos e encerrou a primeira rodada do Grupo C com apenas um ponto, atrás da Escócia, que venceu o Haiti por 1 a 0 em Boston no mesmo dia.

O que os números de Endrick na temporada 2025/26 realmente dizem

A discussão sobre o espaço de Endrick não nasceu na Copa do Mundo. Ela vem de meses de convivência com Ancelotti no Real Madrid, onde o jovem brasileiro acumulou minutos em conta-gotas ao longo da temporada 2025/26. O atacante soma participações pontuais, com gols em momentos decisivos — padrão que se repetiu no amistoso contra o Egito, quando balançou a rede para garantir a vitória do Brasil no período preparatório. Esse tipo de impacto imediato, característico de jogadores que entram com energia renovada, é exatamente o perfil que deveria torná-lo uma arma de banco — não uma opção descartada.

Para dimensionar o tamanho do debate que Ancelotti ignorou ao não utilizá-lo: entre sábado e domingo, Endrick ganhou quase 600 mil novos seguidores no Instagram sem ter tocado na bola. O crescimento foi superior ao registrado por qualquer outro jogador da Seleção no mesmo período. São 600 mil pessoas que não pediram para ver Raphinha, que correu 11,65 km contra Marrocos e saiu mancando com bolhas nos pés — pediram para ver o menino de 19 anos que representa uma agressividade ofensiva que a equipe claramente não encontrou em campo.

A comparação com os concorrentes diretos reforça o argumento. Ronaldo Fenômeno colocou Igor Thiago à frente de Endrick citando o fato de o atacante ter sido artilheiro na Inglaterra na temporada passada. Matheus Cunha, do Manchester United, também aparece à frente na hierarquia. São atletas com mais rodagem europeia e mais minutos acumulados em 2025/26 — mas nenhum dos dois marcou no único teste competitivo que a Seleção fez antes da Copa. Endrick marcou.

Neymar fora do treino e o cenário que pode abrir espaço para Endrick

Se a situação de Endrick já era delicada antes da estreia, o contexto da semana que começa nesta segunda-feira (15) complica ainda mais o planejamento de Ancelotti. Neymar realizou mais um exame de ressonância magnética nesta manhã no Columbia Park, CT do New York Red Bulls em Morristown — o terceiro desde que se apresentou à Seleção em 27 de maio, em Teresópolis. A CBF confirmou que o diagnóstico segue sendo monitorado, mas a participação do camisa 10 contra o Haiti, na sexta-feira (19), na Filadélfia, é cada vez mais improvável.

A lesão de grau dois na panturrilha direita que Neymar contraiu na derrota do Santos por 3 a 0 para o Coritiba impediu o atacante de 34 anos de sequer treinar em campo desde a convocação. O prazo de recuperação estimado pelo médico da CBF, Rodrigo Lasmar, entre duas e três semanas, termina nesta quarta-feira (17) — mas a realização de mais um exame de controle nesta segunda indica que o retorno ao gramado não é garantido. Raphinha, Gabriel Magalhães e Bruno Guimarães também foram poupados por desgaste físico nesta segunda-feira, embora nenhum dos três seja considerado dúvida para o jogo contra o Haiti.

Com quatro desfalques monitorados e a pressão por uma vitória que recoloque o Brasil no caminho da liderança do Grupo C, Ancelotti terá menos margem para manter Endrick no banco. O jovem atacante chegou à Copa como terceira opção declarada — mas o futebol tem a habilidade de inverter hierarquias quando o resultado não aparece. O Brasil joga contra o Haiti na sexta-feira (19), às 21h30 (horário de Brasília), no Lincoln Financial Field, em Filadélfia: vale gravar o jogo, porque pode ser a noite em que Ancelotti finalmente responde à pergunta que 600 mil pessoas fizeram ao apertar o botão de seguir no Instagram de Endrick. Em matéria do SportNavo, o que está em jogo é mais do que uma vaga — é a definição de quem vai carregar o ataque brasileiro quando os jogos ficarem mais difíceis.