A última vez que dois países em guerra dividiram um gramado de Copa do Mundo foi em 1998, em Lyon — e o Irã entregou flores brancas aos jogadores dos Estados Unidos antes do apito inicial. Vinte e oito anos depois, o mesmo Irã pousou em solo americano apenas horas antes de uma partida decisiva, sem base de treinamento no país, sem a possibilidade de ficar para dormir. A história se repete — só que desta vez a logística foi tão agressiva quanto qualquer marcação em campo.
O voo que chegou tarde demais e a base que mudou duas vezes
O calor de Los Angeles neste domingo (14) tinha gosto de urgência. A delegação da Copa do Mundo do Irã aterrisou no Aeroporto Internacional de Los Angeles no início da noite — menos de 24 horas antes da estreia contra a Nova Zelândia no SoFi Stadium, marcada para as 22h (de Brasília) desta segunda-feira (15). Não foi por falta de planejamento. Foi por falta de permissão.
As restrições impostas pelo governo de Donald Trump bloquearam o acesso iraniano ao território americano com antecedência suficiente para qualquer preparação convencional. O Irã havia reservado um complexo esportivo no Arizona como base de treinamento — estrutura cancelada no final de maio, quando EUA e Israel realizaram ataques conjuntos contra Teerã a partir do final de fevereiro. A solução encontrada foi Tijuana, no México, a poucos quilômetros da fronteira californiana. Tijuana virou casa. Los Angeles virou ponto de passagem.
Em coletiva pré-jogo, o técnico Amir Ghalenoei não esperou que alguém suavizasse o tema. Antes mesmo que o assessor da Fifa pudesse redirecionar para perguntas táticas, ele foi direto:
"Nosso campo foi mudado duas vezes. Primeiro, nos Estados Unidos, e depois nos transferimos ao México. É claro que isso nos impacta."
Ghalenoei ainda agradeceu ao México por abrir as portas e completou com uma frase que resume décadas de resiliência iraniana: "Nós iranianos estamos acostumados a criar oportunidades através de dificuldades." Após o jogo desta segunda, a delegação terá que deixar os EUA imediatamente e retornar ao México — a lógica do turno único, sem pernoite.
Taremi e o peso de representar um povo dividido
Do lado de fora do SoFi Stadium, enquanto o avião iraniano ainda cruzava o céu do Pacífico, um grupo de manifestantes se reuniu com cartazes. "Sem xá, sem mulás no Irã — Mudança de Regime pelos iranianos", dizia um deles. Fotos de atletas que teriam morrido após prisões pelo governo iraniano estavam espalhadas entre os protestantes. A tensão política não esperou o apito do árbitro para aparecer.
Dentro do grupo, o atacante Mehdi Taremi, hoje no Olympiakos após passagens por Inter de Milão e Porto, carregava o peso de falar por um povo fragmentado entre dentro e fora do país. Em coletiva, ele não desviou:
"Respeitamos todos os iranianos, tanto dentro do Irã quanto da diáspora. Por muitos anos, o Irã tem sido uma nação unida. Queremos mostrar essa unidade. E estamos aqui na Copa do Mundo para levar alegria aos iranianos onde quer que estejam."
Taremi ainda citou o caso de um árbitro africano barrado pelos EUA de atuar na Copa — um sinal de que o tema das restrições políticas vai além da seleção iraniana. "Senti a tensão desde o primeiro momento em que chegamos a esta Copa do Mundo", disse o atacante. A sensação, segundo ele, não se compara a nenhuma outra edição do torneio em que participou. Decidiu. Falar. Mesmo sabendo que cada palavra seria analisada sob dois microscópios — o político e o esportivo.
Nova Zelândia como adversária e a sombra de um acordo de paz
A partida desta segunda tem um pano de fundo que nenhum roteirista ousaria inventar. O Irã enfrenta a Nova Zelândia — os chamados All Whites, uma equipe que nunca cruzou o caminho iraniano em Copas do Mundo — enquanto, a menos de uma semana, um acordo de paz entre EUA e Irã deve ser assinado em cerimônia na Suíça, prevista para sexta-feira (19). O presidente Donald Trump e o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que articulou as negociações, confirmaram o acordo nas redes sociais no domingo.
O futebol, nesse contexto, deixa de ser apenas esporte. Ghalenoei encerrou sua coletiva com uma declaração que, segundo apuração do SportNavo, emocionou parte dos jornalistas presentes na sala: "Primeiramente, eu gostaria de agradecer as perguntas porque entenderam as condições difíceis que estamos enfrentando. Sem dúvidas, esse tipo de comportamento irá impactar negativamente o espírito do futebol. Mas o futebol, como um jogo, é uma alegria." O treinador pausou. Respirou. E completou: "O resto está nas mãos de Deus."
A Nova Zelândia, por sua vez, chega à estreia com um histórico curioso: o país tem mais ovelhas do que habitantes — 25,3 milhões de animais para uma população de 5 milhões, segundo levantamento do Stats NZ de junho de 2022 — mas sua seleção de futebol é uma das mais disciplinadas taticamente da Oceania. O duelo no Grupo G promete ser equilibrado nos primeiros minutos, mas a fadiga iraniana de uma viagem internacional sem colchão e sem treino em solo americano pode fazer diferença nos acréscimos.
O efeito cascata de uma estreia sob pressão
Se o Irã vencer esta segunda-feira, o resultado terá um impacto simbólico que ultrapassa os três pontos na tabela do Grupo G. Será a resposta mais contundente possível a tudo que aconteceu nos últimos meses — a guerra, as restrições, a base trocada às pressas, o voo de última hora. Uma vitória iraniana em Los Angeles, diante de uma torcida da diáspora dividida entre apoio e protesto, vai ecoar muito além do placar.
Se perder, a pressão sobre Ghalenoei será dobrada: além do resultado ruim, o técnico terá que administrar o desgaste físico e emocional de uma delegação que literalmente não dormiu no mesmo fuso horário do adversário. A sequência no Grupo G — com os próximos adversários ainda a serem confirmados na tabela do torneio — deixa margem estreita para tropeços iniciais.
É o mesmo cenário que a seleção iraniana viveu em 1998, quando entrou em campo contra os EUA carregando o peso de toda uma tensão geopolítica nas costas — só que agora a aposta é diferente: desta vez, não há flores brancas para distribuir antes do apito. Há apenas onze jogadores, um técnico que não se esconde atrás de respostas prontas, e um povo inteiro esperando alegria de dentro e de fora de Teerã.








