A última vez que uma Copa do Mundo gerou uma crise institucional de discriminação antes mesmo da fase de grupos terminar foi em 2006, quando episódios de racismo na Série A italiana contaminaram o debate em torno do torneio alemão. Vinte anos depois, a Copa do Mundo de 2026 produz seu próprio momento de constrangimento — e, desta vez, o protagonista não é um torcedor nas arquibancadas, mas um árbitro dentro da cabine do VAR.
O que aconteceu na cabine do VAR durante Alemanha x Curaçao
No domingo, 14 de junho, durante a apresentação da equipe de arbitragem de vídeo do jogo entre Alemanha e Curaçao — válido pela primeira rodada do Grupo G — o supervisor australiano Shaun Evans, de 38 anos, apareceu nas imagens da transmissão realizando um gesto com a mão direita: polegar e indicador unidos formando um círculo, com os outros três dedos esticados. O movimento, quando executado com a mão voltada para baixo, é interpretado como as letras "WP", abreviação de white power — supremacia branca em inglês. A Liga Antidifamação (ADL), organização americana que monitora crimes de ódio, incluiu o símbolo em sua lista oficial de sinais de ódio em 2019, embora ressalve que nem todo uso do gesto implica intenção racista.
Evans é árbitro da FIFA desde 2017 e carrega um currículo respeitável no futebol australiano: foi eleito árbitro revelação do ano pela Federação Australiana em 2007, árbitro do ano em 2010 pela mesma entidade e árbitro do ano do futebol australiano na temporada 2018-19. Estreou em Copas como VAR em 2022, no Catar. Seu histórico, portanto, não é o de um estreante nervoso — o que torna o episódio ainda mais difícil de contextualizar como mero acidente.
A pressão da Fare Network e o silêncio institucional da Fifa
A repercussão nas redes sociais foi imediata. A Fare Network, organização parceira histórica da FIFA e da UEFA no monitoramento de discriminação em competições internacionais, emitiu comunicado formal exigindo o afastamento de Evans de todas as funções no torneio.
"O parecer de nossos especialistas é que o gesto usado se assemelha claramente a um sinal de 'OK' invertido, usado como símbolo de 'poder branco' em círculos da extrema-direita global", afirmou a Fare Network em nota.
"Claramente, este árbitro não deveria ter mais nenhuma função nesta Copa do Mundo", completou a organização, classificando o gesto como "neonazista".
A FIFA, por sua vez, adotou uma postura que os pesquisadores de governança esportiva conhecem bem: análise interna sem investigação formal. Segundo apuração publicada em matéria do SportNavo, a entidade estuda a possibilidade de abrir processo disciplinar e confirmou que Evans será ouvido — mas até o momento nenhuma medida concreta foi anunciada. A Federação Australiana de Futebol também não se manifestou publicamente.
Há um detalhe operacional que não passou despercebido: nos jogos seguintes da Copa, Holanda x Japão e Costa do Marfim x Equador, o protocolo de apresentação da equipe do VAR foi alterado. Os árbitros de vídeo passaram a aparecer virados para os monitores, de forma estática, sem interagir com a câmera. Uma mudança silenciosa que, na prática, confirma que algo foi identificado como problema — mesmo que nenhuma nota oficial o admita.
Precedentes fora do futebol e o peso do contexto político
Para compreender a gravidade institucional do caso, o exercício comparativo com outros esportes é revelador. Em 2019, um torcedor do Chicago Cubs, da MLB, foi banido permanentemente do estádio da equipe após fazer o mesmo gesto para uma câmera da NBC Sports durante uma transmissão ao vivo. Em 2023, o DC United, da MLS, demitiu um auxiliar técnico que publicou uma foto nas redes sociais exibindo o símbolo. Em ambos os casos, as organizações agiram com rapidez — e nenhum dos envolvidos ocupava posição de autoridade dentro de campo.
Shaun Evans não é um torcedor anônimo. É um oficial de arbitragem credenciado pela FIFA, em exercício de função durante o maior evento esportivo do planeta, transmitido para mais de 5 bilhões de pessoas em potencial — estimativa de audiência acumulada projetada pela própria entidade para a edição de 2026. A assimetria entre o peso do cargo e a ausência de resposta institucional imediata alimenta uma questão estrutural que a sociologia do esporte já identificou há décadas: organizações esportivas globais tendem a tratar casos de discriminação como problemas de imagem antes de tratá-los como problemas éticos.
Há uma cena em Spotlight, o filme de 2015 sobre a investigação do Boston Globe, que sintetiza esse padrão com precisão cirúrgica: a instituição não nega o problema, ela o administeia — adia, dilui, espera o ciclo de atenção midiática se esgotar. A FIFA, com seu histórico de casos de racismo desde as campanhas "Diga não ao racismo" dos anos 2000 até os processos disciplinares contra federações europeias por comportamento de torcida, demonstra conhecer esse roteiro de cor.
O que a resposta da Fifa revela sobre governança esportiva
A Copa do Mundo de 2026 é realizada em um contexto político específico: Estados Unidos, México e Canadá como países-sede, num momento em que o debate sobre supremacia branca e extremismo de direita ocupa o centro do debate público norte-americano. Realizar o torneio em solo americano enquanto um árbitro credenciado pela entidade exibe um símbolo catalogado como de ódio pela ADL — organização sediada em Nova York — cria uma contradição institucional de difícil administração retórica.
A Fare Network tem mandato formal de parceria com a FIFA precisamente para situações como esta. O fato de a organização ter emitido comunicado público pedindo exclusão do árbitro — e a FIFA não ter respondido com medida equivalente — expõe uma lacuna entre o discurso antidiscriminatório da entidade e seus mecanismos reais de enforcement. Políticas de tolerância zero funcionam como instrumento de governança apenas quando aplicadas com consistência; quando seletivas, tornam-se, elas próprias, um problema de credibilidade.

A FIFA tem até o encerramento da fase de grupos para decidir o destino de Shaun Evans no torneio. Com 48 seleções participantes e jogos se acumulando diariamente, o ciclo de atenção midiática sobre o caso tende a se comprimir — o que, historicamente, favorece a inação institucional. Evans tem 38 anos, mais de duas décadas de carreira e uma Copa inteira ainda pela frente se a entidade optar pelo silêncio como resposta.








