— Cara, você viu o impedimento que marcaram no Mirassol?
— Vi. Mas espera que o Cabral ainda vai falar mais coisa.
— Já falou. Chamou o campo de pasto.
Essa conversa aconteceu em pelo menos metade dos bares do Brasil neste sábado, 30 de maio. E não foi coincidência — dois episódios distintos, em estádios diferentes, expuseram a mesma ferida do futebol brasileiro numa única rodada do Brasileirão.
O desabafo de Arthur Cabral após a derrota para o Bahia
Arthur Cabral, atacante do Botafogo, não poupou palavras depois da derrota de virada por 2 a 1 para o Bahia, na Fonte Nova, pela 18ª rodada do Brasileirão. O Glorioso saiu na frente com gol de Huguinho, mas teve o goleiro Neto expulso no fim do primeiro tempo e cedeu a virada no segundo tempo.
"Quando eu jogava na Europa, eu via as entrevistas e eu prometi, para mim mesmo, que quando eu jogasse no Brasil eu não falaria de arbitragem. É muito cansativo. Mas eu não quero falar da arbitragem dele, eu quero falar da falta de critério."
O centroavante, contratado pelo Botafogo junto à Fiorentina por cerca de 6 milhões de euros no início de 2025, foi além da reclamação pontual sobre o árbitro Davi Lacerda. Ele comparou a postura de Fernando Diniz — que havia criticado publicamente o gramado sintético do Nilton Santos — com as condições do campo da Fonte Nova, palco do Bahia.
"O senhor Fernando Diniz foi lá no nosso campo e falou 'é impossível jogar nesse campo'. Aí a gente vem jogar nesse pasto aqui, aí é complicado. Como é que você cobra um gramado sintético, sendo que você dá estas condições de jogo para um adversário."
A crítica ao campo da Fonte Nova não é nova no Brasileirão. O estádio, inaugurado em 2012 e com capacidade para 47 mil pessoas, pertence ao governo da Bahia e tem contrato de uso com o clube. A manutenção do gramado natural tem sido alvo de reclamações recorrentes de visitantes ao longo das últimas temporadas.
O impedimento que não existe no manual e o erro duplo no Athletico x Mirassol
A 300 quilômetros de distância, na Arena da Baixada, em Curitiba, outro episódio acendeu o debate. Aos 22 minutos do primeiro tempo da partida entre Athletico-PR e Mirassol, válida pela mesma 18ª rodada, a assistente Marcia Bezerra Lopes Caetano levantou a bandeirinha para marcar impedimento em lance que havia começado com um arremesso lateral do time paulista. O árbitro Fernando Antonio Mendes de Salles Nascimento Filho confirmou a marcação.
O problema é que a regra é explícita: não há infração de impedimento quando a bola parte de um arremesso lateral. A comentarista de arbitragem da ESPN, Renata Ruel, classificou o equívoco com dureza.
"Erro absurdo na elite da arbitragem da CBF. Não há infração de impedimento quando a bola vem do arremesso lateral. O jogador pode estar em posição de impedimento, mas pela regra não será punido por isso."
Ruel ainda apontou falha dupla no lance: a assistente errou ao sinalizar, e o árbitro principal errou ao não corrigir via rádio. O Athletico-PR venceu a partida por 1 a 0, com gol de Viveros aos 42 minutos do segundo tempo. O técnico do Mirassol, Rafael Guanaes, e os jogadores reclamaram da marcação durante e após o jogo, mas o placar não foi alterado.
O que para o árbitro argentino é protocolo básico de comunicação entre a dupla de assistentes — reforçado anualmente pela IFAB —, para o árbitro brasileiro parece ainda ser conhecimento opcional, conforme apurado em matéria do SportNavo ao longo desta temporada.
A tese do critério único e o que os dados desta rodada mostram
A interpretação mais comum sobre as polêmicas de arbitragem no Brasileirão costuma recair sobre o despreparo individual de árbitros específicos. Cabral, porém, deslocou o debate para um ponto diferente: a ausência de critério unificado entre os profissionais escalados rodada a rodada.
O atacante citou um jogo anterior do Botafogo em São Paulo, onde 19 minutos de bola rolando no segundo tempo não geraram nenhum cartão amarelo por enrolação. No jogo seguinte, outro árbitro passou a aplicar a regra com rigor. A inconsistência é o núcleo da reclamação.
A CBF não publicou nenhuma nota sobre os dois episódios desta rodada até o fechamento desta edição. A entidade tem adotado, ao longo do Brasileirão 2026, uma política de silêncio em relação a erros arbitrais, reservando eventuais posicionamentos para o boletim semanal do Comitê Arbitral — que raramente nomeia lances específicos.
O Botafogo ocupa a parte de cima da tabela do Brasileirão 2026, mas a derrota desta rodada, somada à expulsão de Neto e ao desgaste físico de jogar 45 minutos com um a menos, representa um ponto perdido em circunstâncias que o elenco considera evitáveis. Já o Mirassol, clube com orçamento significativamente menor que o do Athletico-PR, pode ter sido privado de um resultado diferente por um erro que consta textualmente no livro de regras do futebol.
A arbitragem no Brasileirão funciona como uma receita mal calibrada: os ingredientes existem — VAR, rádio, protocolo da IFAB —, mas as proporções mudam a cada domingo, e o prato que chega à mesa raramente tem o mesmo sabor.
O Botafogo volta a campo na próxima rodada do Brasileirão, e o Mirassol enfrenta sequência fora de casa. A CBF tem até lá para explicar o que Renata Ruel já explicou em 30 segundos na TV.










