Confesso: eu errei ao subestimar o Mirassol em 2024. E hoje, depois de 90 minutos de futebol truncado na Arena de Baixada, vejo exatamente o porquê.
O empate por 0 a 0 entre Athletico Paranaense e Mirassol, pela 18ª rodada do Brasileirão Série A deste sábado (30/05/2026), não foi um jogo feio por acaso. Foi feio por escolha — sobretudo de uma das partes.
O momento que decidiu o jogo
O jogo não teve um lance isolado que o definiu. Teve um padrão. Aos 63 minutos, com o placar zerado e o Athletico pressionando em busca do gol, Edson Carioca entrou no lugar de André Luis. A substituição era uma aposta ofensiva — mas o meia já carregava o cartão amarelo recebido aos 31 minutos.
A tensão da entrada de Carioca em campo resumiu o dilema do Athletico no segundo tempo: precisava arriscar, mas cada avanço expunha espaços que o Mirassol sabia explorar em transição. A equipe visitante, compacta e bem posicionada, transformou cada bola recuperada em ameaça de contra-ataque — e o Athletico nunca conseguiu resolver esse equilíbrio instável.

Como o jogo chegou até esse instante
O Mirassol entrou em campo com uma proposta clara: bloco médio-baixo, linha de pressão recuada, compactação entre as linhas e saída rápida em transição ofensiva. É o DNA do clube desde a ascensão à Série A — pragmático, eficiente, difícil de driblar no aspecto coletivo.
O Athletico, mandante, buscou posse de bola e circulação pelo campo. O problema foi a falta de verticalidade. A equipe paranaense girou a bola nas costas da defesa adversária, mas raramente conseguiu penetrar na linha defensiva do Mirassol. Sem pivô fixo e com os meias com dificuldade de chegada, as finalizações foram escassas e sem perigo real.

Aos 31 minutos, Edson Carioca recebeu o primeiro cartão amarelo — falta tática, típica de quem sente que a equipe está perdendo a disputa física no meio-campo. O amarelo para Arthur Dias aos 58 minutos, pelo lado do Mirassol, indicou que a partida havia entrado num ciclo de disputas físicas sem criatividade de nenhum dos lados.
As substituições como espelho tático
No intervalo, o Athletico fez a primeira mudança: saiu Julimar, entrou Bruno Zapelli. A troca buscava mais mobilidade no setor ofensivo, mas não alterou o padrão de jogo. Aos 68 minutos, João Cruz deu lugar a Lucas Esquivel — desta vez pelo lado do Mirassol, reforçando o corredor direito para segurar o resultado.
O cartão amarelo para Gastón Benavídez aos 66 minutos, pouco antes da última substituição do Mirassol, ilustrou o momento: jogo fragmentado, disputas individuais intensas, nenhuma das equipes com capacidade de impor seu futebol de forma sustentada.
- Cartões amarelos: Edson Carioca (31'), Arthur Dias (58'), Gastón Benavídez (66')
- Substituições Athletico: Julimar → Bruno Zapelli (46'), André Luis → Edson Carioca (63')
- Substituição Mirassol: João Cruz → Lucas Esquivel (68')
O que aconteceu depois
O segundo tempo repetiu o roteiro do primeiro, com intensidade menor e frustração maior. O Athletico aumentou a pressão nos minutos finais, empilhando jogadores na área adversária, mas sem criar chances reais de gol. A linha defensiva do Mirassol se manteve organizada, sem ceder espaços internos.
A transição ofensiva do Mirassol, principal arma da equipe, chegou a assustar em dois momentos nos acréscimos — mas a finalização ficou travada na própria indecisão dos atacantes visitantes. O 0 a 0 foi o resultado justo de um confronto em que as duas equipes preferiram não perder a tentar ganhar.
Taticamente, o Mirassol saiu com mais crédito. Jogar na Arena de Baixada, em casa do Athletico, e sair com o ponto sem levar gol é um resultado funcional para um time que luta para se firmar na Série A. O Athletico, por sua vez, não conseguiu transformar a superioridade territorial em eficiência ofensiva — e esse é um problema recorrente na temporada.
O cenário pós-partida
O ponto conquistado tem pesos distintos para cada lado. Para o Mirassol, que chegou à Série A carregando o estigma de clube sem estrutura para a elite, cada empate fora de casa é um tijolo na construção da permanência. Para o Athletico, time com obrigação de brigar por posições mais altas na tabela, o empate em casa representa dois pontos perdidos — especialmente na 18ª rodada, quando a tabela começa a cobrar consistência.
A linha de pressão do Athletico precisa de ajuste urgente: a equipe não conseguiu criar superioridade numérica nas zonas de finalização em nenhum momento do segundo tempo. A compactação do Mirassol venceu a disputa coletiva com folga.
Na próxima rodada, os dois times voltam a campo com a necessidade de respostas diferentes — o Athletico precisa de vitória para não se distanciar do pelotão de cima; o Mirassol sabe que pontos fora de casa são ouro para sua campanha de manutenção.
Confesso: eu errei ao subestimar o Mirassol em 2025. E hoje, depois de 90 minutos de futebol truncado na Arena de Baixada, fica claro que o erro era meu — não deles.










