É um vulcão que entra em erupção antes da lava aparecer. Horas antes de Carlo Ancelotti anunciar os 26 convocados para a Copa do Mundo, na segunda-feira (18), as ruas de Comila já estavam tomadas por bandeiras verde-amarelas e cânticos em bengali entoando um único nome: Neymar.

A cena transmitida pela emissora local Ekhon TV não era ensaiada nem organizada por nenhuma federação. Era povo na rua, espontâneo, num país a mais de 17 mil quilômetros de distância do Brasil, celebrando a convocação de um jogador que a maioria nunca viu pessoalmente. Um torcedor não identificado explicou o sentimento à câmera da emissora:

"Na verdade, essa homenagem ao Neymar representa o nosso amor pelo Brasil. Todas essas bandeiras mostram a empolgação com a Copa do Mundo."
A frase condensa uma lealdade que não nasce do acaso — tem data de origem, contexto social e números que a sustentam.

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Como Neymar virou ídolo em Bangladesh antes de virar problema no PSG

Neymar entrou no imaginário bengalês de forma definitiva na Copa do Mundo de 2014, no Brasil. O torneio foi transmitido com cobertura inédita em Bangladesh, e o atacante brasileiro — então com 22 anos, jogando em casa, artilheiro e protagonista absoluto — funcionou como um ímã afetivo para uma população jovem, com mais de 170 milhões de habitantes e sem tradição própria no futebol de alto nível. O críquete domina o esporte local, mas a Copa do Mundo de 2014 foi o momento em que o futebol encontrou uma porta de entrada emocional em larga escala naquele país.

A dinâmica não é exclusiva de Bangladesh. Em toda a Ásia do Sul — incluindo Índia, Nepal e Sri Lanka — a Copa de 2014 criou gerações de torcedores que escolheram um time estrangeiro como identidade esportiva primária. Brasil e Argentina dividiram esse espaço, e a rivalidade entre os dois grupos de torcedores bengaleses chegou a produzir episódios violentos: na Copa de 2022, no Catar, uma briga entre torcedores das duas seleções em Bangladesh deixou ao menos sete feridos, confirmando que o fervor vai muito além do espetáculo televisivo.

Quando se mede o alcance da marca Neymar nesses mercados, os números impressionam de forma concreta. Em 2023, quando o atacante assinou com o Al-Hilal, a Saudi Pro League registrou crescimento de audiência de 37% nos países do sul asiático nos três meses seguintes à contratação, segundo dados divulgados pela própria liga saudita. O nome do jogador funcionou como alavanca de consumo esportivo em regiões que historicamente não tinham conexão com o futebol árabe.

A devoção que atravessa fronteiras e ignora a forma momentânea

Quando faz um drible desconcertante, ele vira meme compartilhado em grupos de WhatsApp em Daca. Quando sofre uma lesão, fãs bengaleses criam correntes de oração em redes sociais — comportamento documentado pela imprensa local em 2023, quando o atacante rompeu o ligamento do joelho esquerdo jogando pela Seleção contra o Uruguai, em outubro daquele ano.

Quando marca um gol pelo Santos em 2026, a repercussão ultrapassa os portais brasileiros e alcança perfis dedicados ao craque em Bangladesh, que somam centenas de milhares de seguidores no Facebook — plataforma dominante no país asiático, onde o Instagram ainda é secundário. Esse ecossistema digital alimenta e retroalimenta a idolatria de forma autônoma, sem depender de cobertura jornalística formal.

O SportNavo mapeou ao longo desta temporada como o fenômeno Neymar em Bangladesh difere qualitativamente do fandom típico de estrelas europeias no continente asiático. Enquanto Messi e Cristiano Ronaldo têm bases de fãs construídas sobre décadas de títulos de Champions League e Balões de Ouro, a devoção a Neymar em Bangladesh tem uma raiz mais emocional e narrativa — o garoto do interior de Mogi das Cruzes que chegou ao topo com dribles e sorrisos, uma trajetória que ressoa com jovens de países em desenvolvimento que enxergam no futebol uma metáfora de ascensão social.

O que a festa em Comila diz sobre o poder simbólico da Copa do Mundo

Bangladesh não tem seleção classificada para o Mundial de 2026. Não tem jogador atuando em nenhuma liga europeia de expressão. O futebol local opera em estrutura amadora, com investimento irrisório se comparado ao críquete, que concentra patrocínios, audiência televisiva e verbas da federação nacional. E ainda assim, nas ruas de Comila, em 18 de maio de 2026, havia gente carregando bandeira verde-amarela como se o próprio país estivesse na Copa.

Esse deslocamento de identidade esportiva — torcer por uma seleção estrangeira com a intensidade de quem defende a própria nação — é um fenômeno que a FIFA reconhece como estratégico para a expansão comercial do torneio. A Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos, México e Canadá, tem projeção de audiência global acima de 5 bilhões de espectadores únicos, e boa parte desse número vem exatamente de países como Bangladesh, onde o futebol é consumido como produto cultural importado, não como esporte doméstico.

A convocação de Neymar por Ancelotti, portanto, não é só uma decisão técnica de um treinador italiano avaliando a forma física de um atacante de 34 anos. Para os torcedores de Comila que foram às ruas com bandeiras e cânticos, é a confirmação de que o espetáculo que eles aguardam desde 2014 vai acontecer mais uma vez. O Brasil estreia na fase de grupos em junho, e as ruas de Bangladesh já têm data marcada para uma nova festa.