Quando Hugo Ekitiké marcou o segundo gol da França no Gillette Stadium, em Boston, parte da torcida brasileira nas arquibancadas começou a gritar pelo nome de Neymar. O atacante do Al-Hilal, persistentemente ausente das convocações de Carlo Ancelotti, se tornou símbolo de uma carência evidente: a Seleção Brasileira não consegue encontrar um protagonista ofensivo capaz de decidir jogos importantes.
A estagnação de Vini Jr. e o corte de Raphinha
A derrota por 2 a 1 para a França expôs as limitações dos principais atacantes convocados por Ancelotti. Vinicius Júnior, que brilha no Real Madrid com 18 gols em 23 jogos na temporada, não conseguiu reproduzir o mesmo impacto na amarelinha. O ponta-esquerda teve apenas duas finalizações durante os 90 minutos, sendo facilmente anulado pela defesa francesa comandada por William Saliba.
Raphinha, que havia sido uma das principais apostas do técnico italiano, sofreu lesão muscular após o confronto e foi cortado da partida contra a Croácia, marcada para 31 de março. O atacante do Barcelona, que soma 12 gols em 35 jogos pela Seleção desde 2021, vinha sendo utilizado como falso 9 no esquema tático de Ancelotti, mas não conseguiu se impor contra a defesa francesa.
Os números são reveladores da crise ofensiva brasileira. Nos últimos cinco jogos, a Seleção marcou apenas seis gols, uma média de 1,2 por partida - bem abaixo dos 2,1 gols por jogo registrados durante as Eliminatórias para a Copa de 2022. Para efeito de comparação, a França de Didier Deschamps mantém média de 2,8 gols nos últimos cinco confrontos.
O fantasma de Neymar e a pressão popular
A ausência de Neymar das convocações se tornou tema recorrente entre torcedores e especialistas. O atacante de 32 anos, que soma 79 gols em 128 jogos pela Seleção, não é chamado desde outubro de 2023, quando sofreu grave lesão no joelho esquerdo. Mesmo recuperado e atuando regularmente pelo Al-Hilal - onde marcou 7 gols em 12 partidas nesta temporada -, Ancelotti mantém a postura de não convocá-lo.
"Quando o atacante Hugo Ekitiké fez o segundo gol da seleção francesa no duelo contra o Brasil no Gillette Stadium, em Boston, parte da torcida nas arquibancadas passou a gritar pelo atacante Neymar", registrou reportagem da Folha de S.Paulo.
A pressão popular reflete uma realidade estatística preocupante. Sem Neymar, o Brasil acumula aproveitamento de apenas 46,7% nos últimos cinco jogos, o pior desempenho entre as dez primeiras seleções no ranking da FIFA. França e Espanha, principais favoritas para a Copa do Mundo de 2026, registram aproveitamentos superiores a 70% no mesmo período.
Alternativas limitadas no ataque
Com Raphinha lesionado e Vini Jr. ainda em adaptação ao sistema de Ancelotti, o técnico italiano precisa encontrar soluções urgentes. Rodrygo, do Real Madrid, aparece como principal opção para assumir maior protagonismo, mas o atacante de 23 anos soma apenas 18 gols em 56 jogos pela Seleção - números modestos para quem deve ser a referência ofensiva.
A comparação com gerações anteriores evidencia o problema atual. Durante a Copa de 2002, Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo somavam 127 gols por suas seleções até aquele momento. O trio atual Vini Jr., Raphinha e Rodrygo chega a apenas 47 gols combinados - uma diferença abissal em termos de experiência e efetividade em nível internacional.

Jovens promessas como Endrick, do Real Madrid, e Savinho, do Manchester City, ainda não demonstraram maturidade suficiente para assumir tal responsabilidade. Endrick, aos 18 anos, tem apenas 3 gols em 10 jogos pela Seleção, enquanto Savinho busca sua primeira convocação após temporada irregular na Premier League.
Copa do Mundo se aproxima com interrogações
A transmissão da partida contra a França alcançou 39 milhões de telespectadores na Globo, o maior alcance com a Seleção em três anos, demonstrando que o interesse da torcida permanece alto apesar dos resultados decepcionantes. Contudo, faltando 74 dias para o início da Copa do Mundo, as dúvidas sobre o protagonismo ofensivo se intensificam.
Ancelotti terá mais uma oportunidade de testar alternativas no confronto contra a Croácia, vice-campeã mundial em 2018 e semifinalista em 2022. A partida, que será realizada em Miami, pode definir se o Brasil conseguirá encontrar um novo líder ofensivo ou se manterá dependente do retorno de Neymar para sonhar com o fim do jejum de 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo.

