O clik do controle remoto não existe mais. Ele foi substituído pelo gesto de abrir uma aba nova. E é exatamente aí — nesse movimento silencioso de milhões de brasileiros — que a maior guerra da Copa do Mundo de 2026 está sendo travada, bem antes de qualquer bola rolar no gramado do MetLife Stadium, em Nova Jersey.
A pergunta que o mercado ainda não sabe responder
Quem vai dominar a experiência audiovisual desta Copa? Essa é a questão que mantém executivos acordados em São Paulo, no Rio e nos escritórios digitais espalhados pelo país. De um lado, a Globo apostou fichas altas na GE TV, seu novo canal no YouTube, contratando Mariana Spinelli, que estava na ESPN, e o narrador Jorge Iggor, que veio da TNT. A movimentação foi cirúrgica: a emissora entendeu que o SporTV, com seu formato mais engessado, deixou espaço aberto para um produto mais solto, mais próximo do torcedor que assiste com o celular na mão.

De outro lado, a CazéTV — parceria da Live Mode com o apresentador Casemiro Miguel — já provou que o modelo funciona. Transmitiu a Copa do Mundo anterior e as Olimpíadas com um tom informal que conquistou exatamente o público que a TV aberta perdeu: jovens entre 18 e 35 anos, acostumados com streams e avessos à solenidade dos estúdios tradicionais. A GE TV é, nas palavras do próprio mercado, uma resposta direta a esse sucesso.
E tem um terceiro elemento nessa equação. O SBT, que garantiu os direitos de transmissão da Copa, fechou acordo com Galvão Bueno para ser a voz principal da emissora nos jogos da Seleção Brasileira, nas finais e nas partidas decisivas do torneio. O negócio foi viabilizado pela NSports, canal do qual Galvão é um dos donos. Tiago Leifert, atual titular do SBT, também participará das transmissões, assim como Mauro Beting.
Everaldo Marques na Globo e a sombra de Luis Roberto
Dentro da TV Globo, a definição mais emocionalmente carregada desta Copa veio com o afastamento de Everaldo Marques para o papel de narrador da Seleção Brasileira — uma promoção que chegou em circunstâncias dolorosas. Luis Roberto, que ocuparia a função, foi diagnosticado com neoplasia na região cervical no início de abril e precisou se afastar para tratamento médico.
"Narrar os jogos da seleção brasileira em uma Copa do Mundo é o sonho de criança, quando eu brincava de narrar partidas de futebol de botão. Então, esse é o topo da montanha e que vou poder realizar agora. Uma oportunidade que chega em circunstâncias que mexem muito comigo. O Luis Roberto é alguém que eu tenho a felicidade de chamar de amigo há mais de 20 anos. Enquanto o Luis cuida da saúde, vou abraçar essa missão", disse Everaldo.
Everaldo, de 47 anos, chegou à Globo em fevereiro de 2020 vindo da ESPN, onde já havia construído reputação. Esta será sua segunda Copa do Mundo pela emissora. Ao lado dele nos jogos da Seleção estarão os comentaristas Ana Thaís Matos, Cristiane Rozeira, Denilson e Junior. A estreia do Brasil acontece no dia 13 de junho, contra o Marrocos, às 19h (de Brasília), em Nova Jersey.
A escalação de narradores na Globo sofreu um efeito dominó após o afastamento de Luis Roberto. Renata Silveira, que voltaria de licença-maternidade em maio e trabalharia do Brasil, vai viajar para narrar presencialmente ao lado de Gustavo Villani na fase de grupos. Paulo Andrade entra na TV aberta e no SporTV durante o primeiro turno, enquanto Dandan Pereira viaja para cobrir jogos do SporTV na fase inicial. Na abertura do torneio, no dia 11 de junho, Villani narra México x África do Sul no histórico Estádio Azteca, na Cidade do México — o mesmo palco onde o Brasil conquistou o título em 1970.
O que ainda falta definir nessa disputa de audiência
Quando a CazéTV transmite, ela não apenas mostra o jogo — ela cria um evento paralelo, com reações ao vivo, convidados inesperados e uma linguagem que borra a fronteira entre entretenimento e jornalismo esportivo. Quando a GE TV entrar em campo com Mariana Spinelli e Jorge Iggor, a aposta da Globo é justamente replicar essa energia, mas com a estrutura e o alcance de um grupo de mídia que domina direitos esportivos no Brasil há décadas.
A pergunta que fica — e que só os números de audiência da primeira semana da Copa vão começar a responder — é se o torcedor brasileiro vai se dividir entre três telas de forma equilibrada ou se vai concentrar atenção em uma única experiência. A Globo aposta que o prestígio e a capilaridade da marca vão sustentar a liderança. A CazéTV aposta que a proximidade com o público jovem é um ativo que dinheiro não compra da noite para o dia. E o SBT, com Galvão Bueno como trunfo, aposta na nostalgia de quem cresceu ouvindo aquela voz nos mundiais.
O contrato de Galvão com o SBT ainda aguardava assinatura formal no momento da divulgação, segundo o jornalista Gabriel Vaquer, da Folha de São Paulo. Paralelamente, Galvão mantém contrato com a Band, onde apresenta o programa semanal Galvão e Amigos, com expectativa de que o formato siga no ar até o início da Copa. O torneio começa em 11 de junho e a final está marcada para 19 de julho — 39 dias em que GE TV, CazéTV e SBT vão disputar cada segundo de atenção do torcedor brasileiro. Se Galvão fechar mesmo com o SBT e estrear na narração já no jogo de abertura contra a África do Sul, como a emissora planeja, a resposta da audiência vai definir se a TV aberta ainda tem poder de surpresa nessa batalha.








