O Paraguai chega à sua primeira Copa do Mundo em 16 anos sem o jogador mais criativo do elenco. Parece desvantagem. E é. Mas Gustavo Alfaro pode ter um time mais difícil de jogar contra justamente por isso.
A lesão que mudou o plano de Alfaro na véspera do jogo
São Paulo, Bragantino, Palmeiras — o futebol brasileiro enviou representantes ao Grupo D. Mas a notícia que dominou a preparação paraguaia não veio de nenhum clube brasileiro: veio de um amistoso em Assunção. Julio Enciso sentiu a coxa direita durante a goleada por 4 a 0 sobre a Nicarágua, no dia 5 de junho, saiu de campo aos prantos e colocou a estreia contra os EUA em suspense.
A Federação Paraguaia confirmou oficialmente a ausência de Enciso para o confronto desta sexta-feira (12), em Los Angeles. O técnico Gustavo Alfaro, em coletiva, tentou deixar uma janela aberta — "Julio está muito bem, cumpriu todos os passos que tinha que cumprir. Temos boas sensações, mas vamos esperar" —, mas o jornal paraguaio ABC confirmou que o jogador não estará em campo. A tendência é que ele retorne para a segunda rodada, contra a Turquia, no dia 19.
"Chegamos para a partida em boa forma. Sabemos que não é apenas mais um jogo, mas estamos prontos para estrear. Muitos dos nossos jogadores têm experiência internacional." — Gustavo Alfaro, treinador do Paraguai
Enciso é o principal gerador de xA (expected assists) e passes progressivos da Albirroja. Perder esse perfil de jogador — capaz de criar desequilíbrio em espaços reduzidos e conectar o meio com o ataque — obriga Alfaro a redistribuir essas funções entre outros nomes.
Almirón, Bobadilla e o redesenho do meio-campo paraguaio
A provável escalação divulgada antes do jogo mantém Miguel Almirón como peça central da criação. O ex-Newcastle e atual referência da seleção tem condições de absorver parte das responsabilidades ofensivas de Enciso — especialmente na geração de passes progressivos e na transição rápida. Alfaro já sinalizou que vai operar com dois atacantes, o que posiciona Almirón como o organizador mais avançado do meio.
Damián Bobadilla, do São Paulo, entra como volante box-to-box ao lado de Andrés Cubas. O próprio Bobadilla se define assim: "Sou um jogador com característica de volante moderno, box-to-box. Gosto de acompanhar as jogadas, jogar de área a área, chegar à zona de finalização." Em termos de PPDA (passes permitidos por ação defensiva), essa dupla precisa ser eficiente para pressionar a saída de bola dos EUA, que conta com Weston McKennie, Tyler Adams e Christian Pulisic como referências.
Diego Gómez completa o meio-campo e tem características de meia mais técnico, capaz de conectar linhas com passes curtos. Sem Enciso, ele é o perfil mais próximo de um criador por dentro.
Isidro Pitta como opção concreta no ataque
Do Bragantino, Isidro Pitta chega à Copa como artilheiro da sua equipe na temporada. Os números de 2026 falam por si: 9 gols e 5 assistências em 28 jogos, participando diretamente de um gol a cada 131 minutos. Além disso, acumula 67 finalizações, 23 passes decisivos e 33 duelos aéreos vencidos — um perfil físico que pode ser útil contra uma defesa americana que aposta na marcação alta.
Pitta é o primeiro jogador da história do Bragantino a disputar uma Copa do Mundo. Aos 26 anos, ele chegou ao clube em janeiro de 2025 vindo do Cuiabá e se consolidou como referência ofensiva sob o comando de Vagner Mancini. No contexto da seleção, pode aparecer como opção ao longo do jogo, especialmente se Alfaro precisar de uma referência aérea ou de profundidade.

Pensar em Pitta apenas como reserva é subestimar o que ele representa taticamente. Como um maestro de jazz que entra no palco no terceiro tempo e muda o tom da música inteira, o atacante tem a capacidade de alterar a dinâmica ofensiva paraguaia sem depender do mesmo padrão criativo de Enciso.

O que o Paraguai precisa fazer para surpreender os EUA em Los Angeles
Os EUA chegam ao confronto com uma sequência irregular: três derrotas nos últimos quatro jogos antes da Copa, mas com o fator casa e a estrutura do SoFi Stadium de Inglewood, em Los Angeles. O último confronto direto entre as seleções, em novembro de 2025, terminou 2 a 1 para os norte-americanos, com gols de Giovanni Reyna e Folarin Balogun.
O Paraguai, por sua vez, ganhou três dos últimos quatro jogos e chega com uma defesa sólida liderada por Gustavo Gómez e Omar Alderete. A estratégia de Alfaro deve passar por um bloco médio compacto, apostando em transições rápidas via Almirón e nas bolas aéreas de Tony Sanabria. Sem Enciso, o time perde em creative actions por jogo, mas ganha em previsibilidade defensiva — o que, contra uma equipe anfitriã em euforia, pode ser um trunfo.
A Albirroja não disputa uma Copa do Mundo desde 2010, quando chegou às quartas de final na África do Sul. Dezesseis anos depois, o reencontro com o torneio acontece em Los Angeles, às 22h (horário de Brasília), sob a névoa de uma ausência que todo mundo notou — e que Alfaro ainda não explicou como vai resolver dentro de campo.
O árbitro apita. Almirón recebe a bola no círculo central. Enciso, de bermuda e colete, assiste do banco com a coxa enfaixada. O Paraguai joga assim mesmo.








