Um homem que não conseguia controlar a própria bebida se tornou o único lutador da história a conquistar cinturões mundiais em duas categorias tanto no kickboxing quanto no MMA. O paradoxo de Alex Poatan não está no talento — está no que ele fez com a ausência dele.

O bairro de Batistini e os anos que ninguém filma

Alex Sandro Silva Pereira nasceu em 7 de julho de 1987 em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, e cresceu no bairro periférico de Batistini. Abandonou a escola aos 12 anos para trabalhar e ajudar no sustento da família — passou por engraxate, vendedor de rosas e ajudante de pedreiro ao lado do pai antes de conseguir emprego fixo em uma borracharia local. Nesse mesmo período, ainda na infância, começou a beber. O alcoolismo, segundo o próprio Poatan, iniciou-se aos 12 anos e se agravou progressivamente, chegando a comprometer seu desempenho no trabalho.

Alex Shining BRIGHT ✨ #ufcwhitehouse

A tragédia familiar aprofundou o ciclo: seu irmão Angelo, pouco mais de um ano mais velho, envolveu-se com drogas e foi assassinado aos 17 anos. Poatan tinha, então, menos de 16. O luto e a instabilidade não produziram uma virada imediata — produziram mais anos de dependência.

O bairro de Batistini e os anos que ninguém filma Da borracharia ao octógono — c
O bairro de Batistini e os anos que ninguém filma Da borracharia ao octógono — c

O kickboxing como método, não como fuga

Poatan começou a treinar kickboxing aos 21 anos, na academia do Mestre Belocqua Wera. Não foi uma conversão instantânea: ele tentou controlar o vício por anos antes de parar definitivamente de consumir álcool no final de 2012, aos 25 anos. A cronologia importa porque desfaz a narrativa fácil de que o esporte salvou o atleta da noite para o dia. Foram quase quatro anos de treino convivendo com o problema antes de resolvê-lo.

"Quando eu comecei no kickboxing, percebi que tinha potencial, mas também entendi que só talento não ia me levar a lugar nenhum. Eu tinha hábitos que não ajudavam, como a bebida, e vi que precisava mudar esse tipo de coisa se quisesse evoluir de verdade", disse Poatan em entrevista à Forbes Brasil.

A evolução no Glory — principal organização mundial de kickboxing — foi consistente e documentada. Poatan conquistou o cinturão peso-médio e depois o meio-pesado da promoção, tornando-se o primeiro e único lutador a segurar simultaneamente duas faixas do Glory. Em fevereiro de 2021, foi classificado como número 1 no ranking de kickboxing nas duas categorias de peso. O histórico no MMA antes do UFC incluiu passagens pelo Jungle Fight e pela Legacy Fighting Alliance.

Dez vitórias em 12 lutas e o que os números escondem

Poatan estreou no UFC em 2021 e construiu um cartel de 10 vitórias em 12 lutas na organização, com oito triunfos por finalização ou nocaute. Derrotou Israel Adesanya em duas ocasiões — a primeira pelo cinturão dos médios, em novembro de 2022, a segunda na revanche dos meio-pesados. Tornou-se o nono lutador da história do UFC a conquistar cinturões em duas divisões diferentes e o primeiro a fazer isso especificamente nas categorias médio e meio-pesado. Em 2024, chegou a ser campeão simultâneo das duas divisões; no ano seguinte, recuperou o cinturão dos meio-pesados após perdê-lo. Em 9 de junho de 2026, o ranking do UFC o posicionava na 2ª colocação entre os meio-pesados e na 4ª posição no peso-por-peso masculino.

Fora do octógono, Poatan fundou o Instituto Poatan, projeto social que oferece aulas gratuitas de artes marciais, inglês e informática para crianças e adolescentes. A iniciativa não é acessório de imagem — é a versão institucionalizada do mesmo raciocínio que ele aplica à carreira: estrutura e método como substitutos para o que a sorte não garante.

"Talento ajuda, mas não sustenta ninguém sozinho", resumiu o lutador ao ser questionado sobre o que aprendeu ao longo da trajetória, em declaração registrada pelo SportNavo a partir de entrevista concedida à Forbes Brasil.

Washington, Gane e a disputa pelo cinturão interino dos pesados

No UFC Casa Branca, marcado para sábado, 14 de junho, às 21h (horário de Brasília), nos jardins da Casa Branca em Washington D.C., Poatan enfrenta o francês Ciryl Gane pelo cinturão interino dos pesos-pesados — uma terceira categoria de peso, acima dos 93 kg em que construiu sua reputação. Gane, ex-campeão interino dos pesados com cartel sólido e estilo baseado em movimentação e jab longo, representa um perfil técnico distinto dos adversários que Poatan nocauteou nos médios e meio-pesados. O card ainda conta com Ilia Topuria x Justin Gaethje, Sean O'Malley x Aiemann Zahabi, Maurício Ruffy x Michael Chandler, Bo Nickal x Kyle Daukaus e Diego Lopes x Steve Garcia.

Uma vitória sobre Gane colocaria Poatan em território que nenhum lutador pisou antes: três cinturões em três categorias diferentes no UFC, combinados com os dois títulos do Glory. O homem que não terminou a 8ª série e que engraxava sapatos no ABC Paulista estará, neste sábado, sob as câmeras da maior promoção de MMA do mundo, a trinta e oito anos de idade, pesando mais de cem quilos, com as mãos que consertavam pneus há duas décadas.