Chorou. Aos 18 minutos do primeiro tempo, depois de cravar uma pancada de média distância no ângulo superior esquerdo do goleiro argelino, Lionel Messi não conseguiu conter as lágrimas. Quem assistia ao vivo no Arrowhead Stadium, em Kansas City, e quem acompanhava pelas telas ao redor do mundo entendeu que aquele gol era mais do que um gol — era a abertura de um arquivo que a maioria havia dado por encerrado.
A Argentina venceu a Argélia por 3 a 0 na estreia da Copa do Mundo de 2026, e os três tentos levam a mesma assinatura: Messi, 38 anos e 357 dias de idade, disputando sua sexta edição do torneio — feito que nenhum outro jogador na história alcançou. Com o hat-trick, ele chegou a 16 gols em Mundiais e igualou o alemão Miroslav Klose no topo da artilharia histórica da competição. O que parecia improvável há dois anos tornou-se estatística verificável numa noite de junho em Missouri.
O que o isquiotibial quase impediu
A preparação de Messi para este Mundial foi descrita por quem acompanhou a seleção argentina como a mais meticulosa de sua carreira. Rotina de recuperação personalizada, controle rigoroso de carga e uma atenção redobrada à alimentação — tudo para chegar ao torneio em condições de jogar. O plano quase desmoronou: uma sobrecarga no isquiotibial esquerdo o manteve entre algodões durante a gira de amistosos pré-Copa, gerando dúvidas reais sobre sua disponibilidade para a estreia.
Lionel Scaloni optou por mantê-lo como titular. A decisão foi validada já nos primeiros minutos: aos dois minutos, Messi perseguiu um adversário e ganhou a disputa de posição para afastar o perigo — uma das três recuperações defensivas que registrou no primeiro tempo, segundo dados da transmissão. O estádio respondeu com uma reverência sonora, o "Meeeeeessi" longo e coletivo que atravessa idiomas. Thiago Almada e Enzo Fernández completaram a espinha dorsal de uma equipe que dominou o adversário africano desde o apito inicial, mas foi o camisa 10 quem carregou o peso narrativo da noite.
Aos 59 minutos, o segundo gol esticou a vantagem para 2 a 0. Aos 75, Rodrigo De Paul encontrou Messi com um passe preciso, e o argentino empurrou junto ao palo direito para fechar o placar em 3 a 0. Hat-trick completo, banco de Scaloni em festa, e um número que entrou para os registros: 16 gols em Copas do Mundo.
Klose, Ronaldo e a fila que Messi alcançou
Miroslav Klose marcou 16 gols em quatro edições de Copa do Mundo — 2002, 2006, 2010 e 2014 — e encerrou a carreira com aquele número intocado por doze anos. Antes dele, Ronaldo Fenômeno havia chegado a 15 gols e saído de campo como o maior artilheiro da história do torneio. Klose superou o brasileiro. Agora Messi alcança o alemão.
A sequência tem uma simetria que os números sozinhos não explicam. Messi fez seu primeiro gol em Copa do Mundo em 16 de junho de 2006, contra a Sérvia e Montenegro, numa edição em que a Argentina caiu nas quartas para o país anfitrião. Vinte anos depois, na mesma data — 16 de junho —, ele abriu o marcador contra a Argélia com uma pancada ao ângulo e chorou. O intervalo entre esses dois momentos cobre seis edições do torneio, quatro décadas de calendário esportivo e uma transformação completa do futebol como esporte e como mercado.
Ronaldo Fenômeno, que por anos liderou sozinho a lista de artilheiros históricos da Copa antes de ser superado por Klose, reagiu ao hat-trick em entrevista ao jornal espanhol Mundo Deportivo.
"Toda vez que Messi entra em campo, tudo se torna histórico e elegante. É hora de o mundo parar de se esconder e aceitar o fato de que ele é o melhor jogador de todos os tempos. Ele continua a ter um desempenho excepcional a cada temporada, e na Copa do Mundo, porém, ainda existiam dúvidas sobre ele. É uma noite inesquecível e histórica que ficará para sempre nos livros de história", afirmou o ex-atacante brasileiro.
O próprio Messi, ao ser questionado sobre dividir estatísticas com nomes como Ronaldo, foi econômico e preciso, como de costume.
"É uma grande honra poder competir com todos esses grandes, incluindo Ronaldo, entre os jogadores que assisti. Ele foi um dos maiores jogadores de todos os tempos", declarou o argentino após a partida.
Os números que cercam o hat-trick vão além dos 16 gols. Com a 27ª partida em Copas, Messi tornou-se o jogador com mais jogos na história do torneio. Somando gols e assistências, chegou a 24 participações diretas em Mundiais — 16 gols e 8 assistências — ultrapassando Pelé, que registrava 21 participações diretas, com 12 gols e 9 assistências. Trata-se, em matéria do SportNavo, de uma acumulação de marcas que desafia qualquer tentativa de comparação linear entre gerações.
O que muda no panorama da Copa a partir de Kansas City
A partida foi disputada no estádio Arrowhead, casa do Kansas City Chiefs, na presença de Gianni Infantino, do quarterback Patrick Mahomes e de uma plateia que incluía celebridades de diferentes espectros. A Argentina mostrou profundidade além do capitão: Julián Álvarez, Nico Paz, Nahuel Molina e Nico González somaram minutos no segundo tempo, sinalizando que Scaloni tem opções reais para a fase de grupos.
O que a vitória por 3 a 0 estabelece, no entanto, vai além da aritmética de pontos. A Argentina entra no torneio como campeã vigente — conquistou a terceira estrela em dezembro de 2022, no estádio Lusail, com Messi marcando duas vezes na final contra a França — e a estreia reforça o status de favorita. A questão que Kansas City deixa em aberto não é se Messi ainda é capaz de decidir jogos. A questão é por quanto tempo mais o corpo vai sustentar o que a cabeça ainda projeta.
Aos 38 anos, ele registrou três gols, três recuperações defensivas e saiu de campo sem qualquer sinal de recaída no isquiotibial. O recorde de Klose está empatado, não superado — para assumir a artilharia histórica com exclusividade, precisará de pelo menos mais um gol. A Argentina volta a campo no grupo da fase inicial em 21 de junho de 2026, e o adversário será definido pelo calendário da FIFA. Nessa data saberemos se o número 17 é questão de quando, não de se.








