Quantas vezes o Brasil foi ao campo com quatro atacantes de ofício numa Copa do Mundo e saiu com o resultado que precisava? A pergunta não é retórica vazia — ela resume o dilema que Carlo Ancelotti carrega desde o empate por 1 a 1 com Marrocos, no último sábado (13), no SoFi Stadium. O técnico italiano sabe que, contra o Haiti, uma nova igualdade pode complicar seriamente a caminhada da Seleção rumo à fase eliminatória.
O contexto pede ousadia, e o treino desta quarta-feira (17) sugeriu que Ancelotti está disposto a fornecê-la. Nos minutos iniciais da atividade em Filadélfia — liberados para a imprensa —, o auxiliar e filho do treinador, Davide Ancelotti, apresentou um painel tático com uma formação em 4-2-4. O esquema, raramente visto no futebol moderno de alto nível, era um recado claro: o Brasil precisa de mais gols, e o caminho passa por colocar mais criatividade perto da área adversária.
O que o painel tático de Davide Ancelotti revelou
No diagrama exibido durante o treino, a linha ofensiva do 4-2-4 aparecia composta por Gabriel Martinelli, Vini Jr., Igor Thiago e Luiz Henrique. A dupla de volantes ficou com Fabinho e Bruno Guimarães, enquanto a defesa seria formada por Danilo, Marquinhos, Léo Pereira e Douglas Santos. Ancelotti ainda comandará mais um treino antes da partida e pode ajustar o desenho — a comissão técnica não confirmou oficialmente a escalação.
Historicamente, o Brasil usou variações do 4-2-4 em seus momentos mais gloriosos. O time de 1970, tricampeão no México, operava com uma lógica próxima desse esquema: Tostão e Pelé abrindo espaços, Jairzinho e Rivelino explorando as pontas com liberdade quase irrestrita. A diferença é que aquele elenco tinha, nos dois volantes, uma dinâmica de marcação e transição que neutralizava o risco. Fabinho e Bruno Guimarães — um experiente, o outro em crescimento constante — precisarão cumprir função análoga na Filadélfia.
O próprio Ancelotti foi direto ao ponto na coletiva após o empate com Marrocos:
"A equipe lutou até o último minuto, tenho bastante claro o que temos que melhorar. O que fizemos bem nos dois amistosos, no primeiro tempo não saiu bem. Temos que seguir trabalhando para ter uma equipe mais equilibrada e mais agressiva na frente", disse o treinador italiano.
A leitura dos números e o peso da situação no Grupo C
A Seleção ocupa a segunda posição do Grupo C com apenas um ponto, empatada com Marrocos — que fica à frente pelo critério de cartões amarelos. A Escócia lidera com três pontos após bater o próprio Haiti por 1 a 0. Uma derrota ou empate na segunda rodada, sexta-feira (19) às 21h30 (de Brasília) no Lincoln Financial Field, colocaria o Brasil numa situação delicada antes do terceiro jogo.
O Haiti, por sua vez, perdeu para a Escócia sem marcar e chega à Filadélfia precisando de um milagre para sobreviver na fase de grupos. Isso significa que o adversário tenderá a se fechar, o que exige exatamente o que o 4-2-4 oferece: amplitude, desmarcações simultâneas e velocidade para desequilibrar uma defesa retrancada. Vini Jr. e Martinelli pelas pontas, com Luiz Henrique fazendo a diagonal inversa, criam um problema geométrico difícil de resolver para qualquer equipe de médio porte.
Há, porém, o risco embutido. Num esquema com quatro atacantes e apenas dois volantes, qualquer perda de bola no campo ofensivo expõe os laterais. Danilo, que deve retornar ao time no lugar de Ibanez — mudança sinalizada por Ancelotti —, tem experiência de sobra para lidar com esse cenário, mas Douglas Santos no lado esquerdo precisará de atenção especial. É o tipo de aposta que, no calor de uma Copa, lembra o trânsito da Avenida Paulista às 18h: o caminho mais curto pode ser também o mais caótico.
Neymar no treino e a esperança que não tem data
Neymar participou dos minutos iniciais da atividade desta quarta-feira e foi recebido com aplausos pelos companheiros de elenco. O camisa 10 passou ainda pelo tradicional "corredor polonês" de integração antes de se separar do grupo para realizar trabalhos físicos específicos. A imagem é emocionalmente poderosa, mas não muda o prognóstico imediato.
A tendência, confirmada por fontes ligadas à comissão técnica, é que Neymar não seja relacionado contra o Haiti. Ele segue em processo de recuperação e busca retomar o ritmo ideal de jogo — condição indispensável para qualquer técnico que preze pela integridade física do atleta numa competição que ainda tem muitas rodadas pela frente. O próprio Ancelotti reforçou sua filosofia ao dizer que "não vai se fixar em nomes" e que a escalação inicial nunca foi a definitiva.
"Eu tenho que aproveitar o elenco e não me fixar em nomes. Já falei que a escalação inicial não era a que terminava os jogos. Os jogadores que entraram fizeram um bom jogo", afirmou o técnico após o empate com Marrocos.
A participação de Endrick também segue envolta em dúvida. O jovem atacante, que permaneceu no banco durante os 90 minutos contra Marrocos, deve ganhar minutos no decorrer do confronto contra o Haiti — mas não deve iniciar entre os titulares, segundo as sinalizações do treinador. Para um jogador com o perfil de desequilíbrio individual de Endrick, entrar num jogo já aberto pode ser, inclusive, o cenário mais propício para ele brilhar.
Brasil e Haiti se enfrentam na sexta-feira (19), às 21h30 (horário de Brasília), no Lincoln Financial Field, em Filadélfia. Uma vitória coloca a Seleção em boa posição antes da última rodada da fase de grupos, independentemente do resultado entre Escócia e Marrocos. O painel tático já está desenhado na parede do vestiário — falta o apito inicial para saber se o esboço vira realidade.
No banco de reservas, Neymar assiste com as chuteiras amarradas e os olhos no campo. Só ele sabe quando o corpo vai autorizar o que a torcida já grita.








