Diz-se que o Grupo L da Copa do Mundo 2026 já está resolvido antes de começar — Inglaterra e Croácia de um lado, dois figurantes do outro. Na verdade, não está — e a história de Gana nos Mundiais é o argumento mais robusto contra esse consenso apressado. Nesta quarta-feira, 17 de junho, às 20h (horário de Brasília), o BMO Field de Toronto recebe o confronto entre ganeses e panamenhos, duas seleções que chegam à estreia com motivações opostas, mas com o mesmo objetivo: provar que o sorteio subestimou a ambas.

O que Gana já fez em Copas e por que isso importa agora

Gana estreou em Copas do Mundo em 2006, na Alemanha, e avançou às oitavas de final logo na primeira tentativa — feito que apenas três seleções africanas haviam conseguido antes. Em 2010, na África do Sul, a geração de Asamoah Gyan, Michael Essien e Kevin-Prince Boateng foi ainda mais longe: eliminou os Estados Unidos nas oitavas (gol de Gyan no segundo tempo da prorrogação) e chegou às quartas de final, onde perdeu para o Uruguai nos pênaltis após a infame defesa de mão de Luis Suárez na linha. Esse jogo, em 3 de julho de 2010, terminou 1 a 1 no tempo regulamentar e na prorrogação; nos pênaltis, o placar foi 4 a 2 para o Uruguai. Gyan, o artilheiro daquela Copa com cinco gols, converteu o seu, mas a seleção africana foi eliminada. Em 2014 e 2022, campanhas decepcionantes — eliminação na fase de grupos nas duas ocasiões — ofuscaram aquele legado, mas não o apagaram.

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A geração atual não tem o brilho individual de Gyan nem a solidez coletiva de Essien, mas apresenta nomes como Mohammed Kudus, meia-atacante do West Ham que marcou 14 gols na Premier League 2024/2025, e Antoine Semenyo, do Bournemouth. O técnico Otto Addo, que conduziu Gana à repescagem intercontinental para a Copa de 2022, conhece o grupo e sabe que o momento exige pragmatismo: vencer o Panamá é condição mínima para qualquer sonho de classificação no Grupo L.

A segunda Copa do Panamá e o peso de um histórico sem vitórias

O Panamá chegou à sua primeira Copa do Mundo em 2018, na Rússia, e saiu com três derrotas, seis gols sofridos e nenhum marcado — ou melhor, um gol marcado por Baloy contra a Inglaterra, que entrou para a história como o primeiro gol oficial do país em Mundiais, mas não evitou a derrota por 6 a 1. Contra a Bélgica, o placar foi 3 a 0; contra a Tunísia, 2 a 1 para os africanos. Em oito anos, a seleção panamenha evoluiu sob o comando de Thomas Christiansen, o técnico dinamarquês que classificou o time pela CONCACAF com uma campanha sólida nas Eliminatórias de 2026, terminando em terceiro lugar na hexagonal final atrás de México e Estados Unidos.

O atacante Ismael Díaz, que atua no Al-Qadsiah, na Arábia Saudita, é a principal referência ofensiva. O Panamá não venceu nenhum jogo em Copas do Mundo — esse dado pesa como o trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira: inevitável, sufocante, mas não permanente. Christiansen tem insistido em um bloco defensivo compacto e transições rápidas, estratégia que funcionou nas eliminatórias e que pode causar problemas a qualquer adversário que subestime a intensidade física da equipe.

O efeito cascata no Grupo L se um dos 'azarões' vencer

A matemática do Grupo L é implacável. Inglaterra, cabeça de chave, e Croácia, vice-campeã em 2018 com 100% de aproveitamento na fase de grupos daquele torneio, partem como favoritas. Mas uma vitória de Gana ou do Panamá nesta estreia altera completamente a dinâmica das rodadas seguintes. Gana enfrenta a Inglaterra na segunda rodada; o Panamá pega a Croácia. Uma derrota de qualquer uma das favoritas, combinada com uma vitória do adversário 'menor', colocaria o Grupo L entre os mais equilibrados do torneio — e a Copa de 2026, com 48 seleções e três vagas por grupo, amplifica esse risco para os favoritos.

"Viemos aqui para ganhar jogos, não para completar a tabela", declarou o técnico Otto Addo em coletiva antes do embarque para Toronto, sinalizando que Gana não aceita o papel de coadjuvante.
"O Panamá de 2026 não é o de 2018. Crescemos como seleção, como grupo, como país", afirmou Christiansen ao ser questionado sobre o histórico negativo nos Mundiais.

Para Gana, uma vitória nesta quarta-feira significaria chegar ao confronto com a Inglaterra já classificada em potencial — ou ao menos com a vantagem do saldo de gols. Para o Panamá, os três pontos representariam a primeira vitória da história do país em Copas, um marco que transcende qualquer análise tática. A segunda rodada do Grupo L está marcada para 21 de junho, com Gana x Inglaterra e Croácia x Panamá acontecendo simultaneamente.

A segunda Copa do Panamá e o peso de um histórico sem vitórias Gana quer repetir
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O campo de Toronto e o que esperar taticamente desta estreia

O BMO Field tem capacidade para 30.991 espectadores e recebe jogos da Copa pela primeira vez em sua história — o estádio é a casa do Toronto FC, da MLS. O gramado sintético que causou polêmica em edições anteriores de torneios internacionais foi substituído por grama natural para o Mundial, o que favorece o estilo de jogo de Gana, mais técnico e de toque curto. O Panamá, fisicamente mais robusto, tende a pressionar alto nos primeiros 20 minutos — padrão observado em todos os jogos das Eliminatórias da CONCACAF em 2025.

Kudus deve atuar como meia-atacante pela esquerda, criando superioridades no corredor e chegando à área pelo lado cego dos zagueiros. O Panamá deve escalar Adalberto Carrasquilla como pivô de contenção no meio-campo, função que exerceu com eficiência no empate por 1 a 1 contra o México nas Eliminatórias. Gana tem a qualidade individual; o Panamá tem a organização coletiva. Quem converter melhor sua proposta nos primeiros 45 minutos provavelmente carregará o resultado.

Gana tem a história — o Panamá tem a fome de quem ainda não provou nada em Mundiais.