O termômetro no Hard Rock Stadium, em Miami, marcará algo próximo de 39°C com sensação térmica. As câmeras vão capturar o vapor subindo do gramado. Só então os jogadores entrarão em campo. O Brasil e a Escócia se enfrentarão no dia 24 de junho pela última rodada do Grupo C — e, segundo a Climate Central, há 95% de probabilidade de que o jogo aconteça sob condições classificadas como calor extremo.
Esse não é um cenário isolado. O estudo da organização climática aponta risco equivalente em 97 dos 104 jogos da Copa do Mundo 2026, espalhados pelos Estados Unidos, México e Canadá. O calor virou, literalmente, o 12º jogador — só que esse não veste camisa de nenhuma seleção.
O mapa do calor que preocupa comissões técnicas
O jogo com maior probabilidade de calor extremo não envolve o Brasil. A partida entre Alemanha e Curaçao, em Houston, no dia 14 de junho, lidera a lista com 96% de chance de temperaturas críticas. Logo atrás aparecem Inglaterra x Croácia, em Dallas, com 95% — mesmo que o AT&T Stadium conte com sistema de climatização interno.
Para a estreia da Seleção Brasileira contra Marrocos, no dia 13 de junho em East Rutherford (Nova Jersey), a previsão já indica máxima de 32°C, com sensação térmica podendo chegar a 40°C pela umidade. Na véspera, os termômetros em Nova York podem bater 35°C — superando o recorde do ano anterior.
Estados como Texas, Kansas, Nebraska, Minnesota e Dakota do Sul enfrentarão uma onda de calor intensa já na primeira semana do torneio, com máximas próximas de 39°C. Autoridades meteorológicas norte-americanas estimam que cerca de 30 milhões de pessoas estarão expostas ao nível 3 de risco climático — numa escala que vai até 4 — durante os primeiros dias da competição.
O que as métricas de desempenho dizem sobre calor e futebol
Aqui é onde a coisa fica interessante do ponto de vista analítico. Calor extremo afeta diretamente três variáveis que eu acompanho de perto:
- PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva) — mede a intensidade da pressão defensiva. Sob calor extremo, equipes tendem a pressionar menos, o PPDA sobe (ou seja, a pressão cai), e o jogo fica mais aberto e vertical. Seleções que dependem de pressing alto, como a Escócia, podem ter esse estilo comprometido justamente no jogo contra o Brasil em Miami.
- Progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Em jogos disputados sob calor intenso, o volume de progressive passes costuma cair nos últimos 20 minutos do segundo tempo, quando a fadiga muscular é máxima. Isso significa menos construção de jogo e mais chutões.
- xG (expected goals) — o calor reduz a qualidade das finalizações? Indiretamente, sim. Quando o ritmo cai, as equipes criam menos situações de alta probabilidade. Um xG de 1.8 num jogo de temperatura amena pode cair para 1.1 num ambiente de 38°C — especialmente no segundo tempo.
Decidiu. As comissões técnicas que ignorarem esses dados vão pagar caro nas oitavas.
Protocolos de aclimatação e o que cada seleção está fazendo diferente
A resposta das seleções ao cenário climático passou a ser parte central da preparação pré-Copa. Protocolos de hidratação fracionada, treinos em horários de maior calor e pausas programadas para resfriamento — as chamadas cooling breaks — viraram rotina nos centros de treinamento.
A Argélia, por exemplo, jogou seu amistoso desta quarta-feira (10) contra a Bolívia no KC Current Stadium, em Kansas City — exatamente a cidade onde estreará contra a Argentina. O técnico Vladimir Petkovic, de 62 anos, foi tão cuidadoso com os detalhes táticos e físicos que proibiu transmissão e público no jogo. O treinador da Bolívia, Óscar Villegas, não escondeu a frustração:
"Agora não podemos saber se podemos filmar o jogo, porque a Argélia está jogando uma partida dias antes de enfrentar a Argentina. Obviamente eles querem cuidar para que não haja informação demais do que vão fazer como equipe — é razoável, é normal."
O resultado, por sinal, foi uma vitória argelina por 3 a 2 num jogo virado no fim — com gols de Benzia e Mandi nos minutos finais, após a Bolívia ter aberto 2 a 1. Mas o que importa para Petkovic era testar o físico sob as condições climáticas locais. Missão cumprida.
Portugal, que estreia no dia 17 contra a República Democrática do Congo em Houston — outra cidade de calor intenso —, realizou seu último amistoso em Leiria nesta quarta-feira (10), vencendo a Nigéria por 2 a 1. A partida foi marcada por uma tragédia: um torcedor de 77 anos sofreu uma parada cardiorrespiratória cerca de 45 minutos antes do apito inicial e não resistiu. A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) emitiu nota de pesar e fez um compromisso público:
"A Seleção Nacional tudo fará para, durante o Mundial-2026, dedicar a primeira vitória à sua memória", afirmou a FPF em comunicado oficial.
O episódio trágico acende um alerta que vai além do campo. Torcedores mais velhos, expostos por horas em filas e áreas externas dos estádios americanos, enfrentarão riscos reais. A logística de Copa em cidades como Miami, Houston e Dallas precisa contemplar pontos de hidratação, sombra e atendimento médico rápido — não apenas para os atletas.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já havíamos apontado que o deslocamento do Brasil entre as três cidades da fase de grupos — East Rutherford, Filadélfia e Miami, totalizando 2.093 km — seria um fator físico relevante. Com o calor como variável adicional, a gestão de carga dos atletas por Carlo Ancelotti vira um exercício de precisão cirúrgica. O Brasil enfrenta Marrocos no sábado (13), às 19h, no MetLife Stadium — e os próximos dez dias vão mostrar se a preparação térmica foi suficiente para o que vem depois em Miami.
É o mesmo cenário que a Seleção Brasileira viveu no Mundial de 2014, quando jogou sob calor intenso em Fortaleza e Brasília — só que agora a aposta é diferente: o adversário não está no campo adversário, está no ar.








