A última vez que a Argélia precisou virar um placar adverso numa Copa do Mundo e conseguiu foi em 1982, contra a Alemanha Ocidental — e aquela partida ficou mais famosa pelo escândalo do que pela vitória. Quarenta e quatro anos depois, no Levi's Stadium de Santa Clara, os Zorros do Deserto repetiram o roteiro da virada. Mas desta vez, o gosto é completamente diferente.

Os dois gols que reescreveram o Grupo J

O calor seco da Califórnia ainda pairava sobre o gramado quando Nizar Al-Rashdan balançou as redes aos 36 minutos do primeiro tempo. A Jordânia, estreante absoluta em Copas do Mundo, transformou o Levi's Stadium num bolsão de incredulidade. Os torcedores argelinos presentes no setor norte da arena ficaram em silêncio. O marcador dizia 1 a 0, e a pressão de uma segunda derrota consecutiva começava a pesar como pedra no pescoço.

ARGENTINA 2 X 0 ÁUSTRIA | SHOW DE LIONEL MESSI | Giro da Rodada | Copa do Mundo 2026 | sportv

O intervalo chegou com a Argélia carregando um déficit que parecia pequeno no placar, mas enorme na psicologia. O técnico Vladimir Petković, que já havia apostado suas fichas numa geração de jogadores formados em grande parte pela França, precisava encontrar palavras no vestiário que transformassem ansiedade em energia. O que aconteceu nos 45 minutos seguintes mostrou que ele as encontrou.

Aos 69 minutos, Benbouali empatou. O gol cortou a tensão como uma faca. Treze minutos depois, aos 82, foi a vez de Amine Gouiri selar a virada: 2 a 1 para a Argélia. O Levi's Stadium, que havia assistido ao primeiro gol jordano com espanto, agora registrava a reversão completa da história.

"Argélia conta com grandes futbolistas como Ibrahim Maza, Rayan Aït Nouri, Amine Gouiri, Anis Hadj Moussa, Riyad Mahrez e Mohamed Amoura", apontou análise do SI antes da partida — uma lista que, no papel, fazia a Jordânia parecer um adversário superável. Dentro de campo, a realidade foi mais complicada por mais de uma hora.

A Jordânia que ninguém esperava e o número que assusta

Três pontos. É exatamente o que separa a Argélia de uma eliminação precoce — e o que a Jordânia precisava para entrar na briga com alguma credibilidade. Nenhuma das duas tinha nada antes dessa rodada. A diferença, agora, é que os argelinos saem com três pontos e os jordanos continuam com zero.

A Jordânia não é um time qualquer. Esta geração é a que levou o país à final da Copa da Ásia — a primeira da história —, eliminando seleções como Coreia do Sul e Iraque pelo caminho. Mousa Al-Tamari, atacante com 15 gols e assistências nesta temporada, foi o fio condutor da equipe ao longo do torneio continental. Mas na Copa do Mundo, a margem para erros é menor do que a distância entre Recife e Teresina: perto no mapa, intransponível quando o relógio corre contra você.

O esquema 3-4-2-1 montado pelo técnico J. Sellami funcionou durante mais de uma hora. O zagueiro Abdallah Nasib, que havia saído lesionado no jogo anterior contra a Áustria e era dúvida até o dia do jogo, conseguiu atuar. A linha de três atrás segurou o ataque argelino por muito tempo, e Al-Rashdan aproveitou um momento de desatenção adversária para marcar o gol que abriu o placar.

"Trata-se de um combinado rocoso ao qual é muito difícil anotar gols com facilidade", disse análise pré-jogo do OneFootball sobre a Jordânia — e o placar do primeiro tempo confirmou essa leitura.

O que a virada revela sobre a Argélia de Petković

O 4-2-3-1 argelino tem nome e sobrenome em cada linha. Luca Zidane — filho de Zinedine — no gol. Rayan Aït-Nouri e Ramy Bensebaini nas laterais. Riyad Mahrez como referência ofensiva. Ibrahim Maza como motor criativo. Gouiri como finalizador. É uma geração construída nos centros de formação europeus, especialmente franceses, e que Petković moldou com identidade própria.

A capacidade de reagir quando o placar estava adverso é o dado mais relevante dessa vitória. Não foi uma goleada. Não foi um domínio absoluto. Foi resiliência convertida em três pontos — e isso, em Copa do Mundo, tem peso diferente. Segundo análise publicada no SportNavo antes do torneio, a Argélia chegava ao Mundial com uma geração capaz de surpreender justamente por essa mistura de técnica e temperamento.

Zerrouki e Boudaoui no meio de campo deram o equilíbrio necessário para que Maza e Chaïbi tivessem liberdade para criar. Quando Gouiri marcou o 2 a 1 aos 82 minutos, o movimento que levou ao gol sintetizou exatamente o que Petković construiu: troca de passes rápida, mobilidade e presença na área no momento certo.

O Grupo J segue com a Argentina como favorita destacada à primeira posição — os argentinos entraram no torneio como campeões mundiais em defesa do título e não devem ser ameaçados por Jordânia nem por Argélia nessa disputa. A briga real é pela segunda vaga. Áustria, que venceu a Jordânia por 3 a 1 na estreia, tem os mesmos três pontos que os argelinos agora. A diferença é o saldo de gols: os austríacos chegam à terceira rodada em vantagem.

A Argélia enfrenta a Argentina na última rodada da fase de grupos. A Jordânia, já eliminada em termos práticos se a Áustria vencer seu próximo jogo, ainda tenta o impossível contra os austríacos. Para os Zorros do Deserto, o caminho está claro: vencer os argentinos e torcer por um tropeço austríaco — uma combinação que parece improvável, mas que a Copa do Mundo 2026 já provou ser capaz de produzir surpresas a cada 90 minutos.