Quantas vezes um jogador pode chegar à sede da sua confederação e fazer o prédio inteiro parar? Na tarde desta segunda-feira (1º), Neymar foi um dos primeiros dos 26 convocados a cruzar o corredor decorado com fitas verdes e amarelas na sede da CBF, na Barra da Tijuca — e os gritos que vieram de fora do hotel, ainda no trajeto, já sinalizavam o que o torcedor espera dele na Copa do Mundo de 2026.

O cenário não era trivial. A CBF transformou o percurso interno em uma espécie de passarela iluminada com as cores da bandeira brasileira. Um mural com os 26 nomes convocados por Carlo Ancelotti marcava a entrada. Antes de embarcar para o Aeroporto do Galeão às 20h, os jogadores passaram por visita ao museu, jantar reservado e discurso de dirigentes da confederação. Protocolo de Copa do Mundo — mas com um protagonista que concentra expectativa desproporcional.

O que os gritos por Neymar revelam sobre a torcida brasileira

Raphinha foi um dos mais festejados no corredor da CBF, segundo registros do Lance!. Matheus Cunha também distribuiu autógrafos na saída do Hotel Hilton. Léo Pereira e Casemiro cumprimentaram funcionários com tranquilidade. Mas foi o nome de Neymar que mais ecoou entre os torcedores presentes — e isso acontece num momento em que o atacante vem de temporada irregular pelo Santos, com histórico recente de lesões graves que afastaram da Copa de 2014 (fratura na vértebra) e da Copa de 2022 (tornozelo, na fase de grupos).

Há algo de shakespeariano nessa relação. Em Hamlet, o príncipe carrega o peso de um legado que não pediu e que o mundo insiste em cobrar. Neymar, aos 34 anos, vive dinâmica similar: o torcedor que grita o seu nome não está apenas pedindo futebol — está pedindo resolução de uma história que começou em 2010 e ainda não teve desfecho de Copa.

Os números que Ancelotti precisa considerar antes de escalar

O técnico italiano deixou o Hotel Hilton ao lado dos jogadores, conforme mostram vídeos publicados no perfil oficial da Seleção no Instagram. Ancelotti tem sido criterioso na gestão de expectativas, mas os dados do camisa 10 na temporada 2025/2026 pelo Santos exigem análise fria: participação em jogos com minutagem irregular, histórico de paralisações musculares e ausência de sequência longa sem interrupção desde a temporada no Al-Hilal.

A estreia da Seleção está marcada para 13 de junho, contra Marrocos, com o kit principal — camisa amarela, shorts azuis e meias brancas, conforme definição oficial da Fifa publicada nesta segunda-feira. O segundo jogo, contra o Haiti em 19 de junho, exigirá o uniforme reserva: camisa e shorts azuis com meias pretas, assinado pela Jordan. Já no terceiro duelo da fase de grupos, contra a Escócia em 24 de junho, o Brasil usará combinação mista — camisa amarela com shorts e meias brancas. A gestão física de Neymar nesses 11 dias entre estreia e terceiro jogo será determinante.

Segundo o regulamento da Copa do Mundo, a escolha dos uniformes é feita pela Fifa, que "sempre que possível prioriza o uniforme principal" — o que garante ao Brasil a amarelinha na partida de abertura contra Marrocos.

A leitura de Ancelotti sobre o papel do camisa 10 na Copa

Antes de embarcar para os EUA, o Brasil goleou o Panamá por 6 a 2 no Maracanã no domingo (31) — resultado que aqueceu o ambiente, mas que foi construído coletivamente, sem dependência de um único nome. Ancelotti tem construído um sistema em que Raphinha e Vinicius Jr. dividem responsabilidade criativa, o que alivia, ao menos em teoria, a pressão sobre Neymar para ser o único gerador de jogo.

O que os gritos por Neymar revelam sobre a torcida brasileira Como a chegada de
O que os gritos por Neymar revelam sobre a torcida brasileira Como a chegada de

O problema é que a torcida não vê dessa forma — e os gritos desta segunda-feira são evidência disso. O camisa 10 chegou cedo, acenou para os funcionários do hospital em frente à sede da CBF, distribuiu autógrafos com calma. Comportamento de quem conhece o ritual. A questão real, que Ancelotti precisará responder a partir do amistoso contra o Egito no sábado (6), em Cleveland, é quanto desse Neymar é físico e quanto é simbólico.

Se a estreia contra Marrocos no dia 13 confirmar o camisa 10 em campo desde o primeiro minuto, a Seleção terá respondido a pergunta que o torcedor faz desde que a convocação foi anunciada. Se não, o debate sobre aproveitamento e minutagem vai dominar a cobertura da Copa antes mesmo do fim da fase de grupos.